POR UMA IGREJA MENOS GAY-OBCECADA


É horrível. Os raros pronunciamentos da Igreja Católica são meramente documentais. Não há uma só voz profética na Igreja Católica que seja capaz de abalar e arrancar uma sociedade pobre de espírito como a nossa e impregná-la de uma certa essencialidade comportamental nos planos da recta intenção dos servidores públicos, no plano do sentido de partilha, na rectificação acelerada de desmandos grosseiros e escandalosos por que se pauta o Poder Político. A falta de verdade na Palavra Política chegou aos limites do vómito e supera em gravidade qualquer espécie de estigma aposto às chamadas sodomias. Uma desobscenização retributiva dos gestores bancários ou outros isso, sim, era um apelo, vocal ou documental, digno de registo. A Igreja oficial e hierárquica e um monturo de silêncios e de conivências, de alienações e de infidelidades ao cerne do Evangelho: escasseiam as vozes ousadas que se exprimam fora dos seus Fora, nos telhados, nas TVs, aberta e convictamente. Há uma acção silenciosa e eficaz da Igreja nos seus membros, essa, sim, é tão poderosa como incompatível com tacanhez de uma condenação da homossexualidade, antes de enfocar suficientemente a caridade activa e natural, o respeito e o convívio fraterno para com estas pessoas. Por isso, a questão do casamento civil gay não tem a gravidade monumental que uma sociedade toda fundada na abissal diferença entre pobres e ricos, um roubo sorna de décadas no País: esta sodomia deveria, ela, sim, suscitar da parte da Igreja em Portugal um pronunciamento vigoroso. Infelizmente, uma das causas da carneiridade nacional é o culto obediencialista e submisso aos chefes e aos líderes políticos que nos suplementam em todas as coisas. O espírito rebelde e crítico é uma urgência. Reeditar Voltaire um chamamento. Incorporar Nietzsche uma segunda Lei da Gravidade. Nesta linha, será muito pouco qualquer apelo à mobilização dos fiéis contra a legalização do casamento entre homossexuais, matéria que não há como bloquear e tem a ver com um entendimento da liberdade individual sobre a qual a Igreja não tem tutela, pois só deveria tutelar uma linha espiritual realizadora da Pessoa e não castrante dela. O que urge é palavra interventiva clara da Igreja Católica sem dúvida para o histrião-mor, palhaço das promessas quebradas, o secretário-geral do PS, José Sócrates, tendo em conta as próximas eleições legislativas: “Os cristãos, seguramente, tomarão as suas conclusões, porque não é fiável quem se mete por estas aventuras, em que a sociedade fica exposta a feridas, que são profundas”, declarou, em jeito de aviso, o secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), Manuel Morujão, ontem, no final da reunião do conselho permanente, que decorreu em Fátima. Pois! Novamente o uso de palavras do universo da Verdade ou falta dela: «fiável». A verdade é que Sócrates não é «fiável» muito para além dos acenos e cedências ao fetiche gay do casamento cujo direito ou obcecação por ele nada pode reter. A fiabilidade do PM está por terra. Por outras palavras, disse-o também ontem um Homem-em-Portugal, dentre os raros que restam, que passou a merecer-me a maior admiração: antigo bastonário da Ordem dos Advogados, António Pires de Lima, em entrevista a Ana Lourenço. Também ele estranha que perante o espírito de Falsário que percorre a vida política de lés a lés, preocupado que a alienação do Parlamento em relação às pessoas, bizantinizando-se em questiúnculas, e das pessoas em relação aos seus representantes, redunde numa ditadura ao mesmo tempo que assevera ser a acção das maiorias absolutas e de esta em particular uma ditadura encapotada e Sócrates nada mais que um ditador e vendedor da banha da cobra. Era com isto que a Igreja se deveria torcer e molestar. A salvação do País passa pelo pluralismo democrático no Parlamento e no Governo, pelo fim das maiorias absolutas, abrutalhadas, pelo acréscimento negocial em sede de Governo e por entendimentos apertados, inclusivos e plurais, matéria a matéria. A falta de conflito democrático envenena e amortece a vida pública. Os unanimismos de PM e do 'seu' partido, além do mau carácter e tendência para a mentira como forma de vida, são letais para a vida pública e social, com a agravante de ser mais difícil detectar e deter a tempo e horas os demandos mamantes que se praticam no Estado. A Transparência, se não passar por aí, se permanecer Opaca, Clandestina, Secreta como uma Pedófilia de Estado, trará sérios problemas e amargos de boca a gente até agora muito calada enquanto mama, além de insatisfação e conflitualidade social acentuada. Como fundamentar as razões para a grossa miséria em que se quedam largas fatias da população sem que corra sangue e nos não salte a tampa?!

Comments

Unknown said…
Seguramente que não será espectável que nas próximas décadas a Igreja venha sequer a considerar a questão, sobre tudo tendo em conta que até a utilização de métodos contraceptivos é ainda Tabu no seio da Igreja Católica. Compreendo que este assunto, como muitos outros, seja fracturante para qualquer Sociedade, logo, por maioria de razão, deve ser tratado com elevação e respeito por todos.
Como reagiria a Igreja Católica se os partidos apelassem ao boicote à Missa Dominical?!