quarta-feira, junho 29, 2011

ENTRE O AFECTO, A MORBIDEZ E A HISTERIA

Um dos reflexos mais terríveis da morte trágica de Angélico, tal como acontecera com a de Francisco Adam, para além das circunstâncias demasiado similares, diz respeito à exposição do que realmente move a sensibilidade das massas em Portugal. A beleza, a classe, a arte, o talento, move-nos. Mas é pouco e serve-nos de pouco. Uma mobilização emocional intensa das pessoas sucede a propósito da morte de um jovem artista sexy e esse acaba por ser um capital espiritual desperdiçado perante o bem que se poderia fazer todos os dias a tantos seres humanos realmente necessitados. Trata-se de algo preocupante que se viva demasiado no mundo dos concursos e no das novelas, no delíquio do Belo e do Bom tantas vezes nem bom nem belo nos planos moral e ético, ao ponto de que uns e outras absorvam mais energia psíquica, mais interesse e mais curiosidade mórbida que talvez o trabalho, a economia do País ou mesmo a política, a qual, conforme alguém ironizou «é demasiado importante para ser deixada aos políticos». Adam e Angélico, estrelas mediáticas nacionais, não se despistaram somente, pagando um alto preço por isso ao sacrificar a própria vida e a de outros. Não. Vieram expor a grande susceptibilidade de um grande número para o estranho despiste emocional em decurso. Por vezes histérico. Por vezes mórbido. Ora, contrastando com isso, por que motivo jazem represados tanto Amor e tanta capacidade e vontade de fazer Bem a quem precise?

4 comentários:

Anónimo disse...

Parabens pelo discurso analitico, critico e sucinto como deveria ser.
jorge

Miguel disse...

Para a maioria das pessoas, tal como a mim, passa-lhes ao lado. Nem afecto, nem histeria, nem morbidez. Falo pelos que me rodeiam e pela minha família. Contudo, existe uma quantidade bastante elevada de portugueses aos quais a história é como um alimento para as suas angústias, para as suas vidas. A fama traz intimidade, é como se ele fosse nosso.

Anónimo disse...

Não sou fã do Angélico. Mas parece-me que os críticos das reacções dos fãs se esqueceram que também ja foram jovens e adolescentes, e que nessa altura poderiam também ter o mesmo comportamento. E, principalmente, perante a ignorância de todas as vitimas de acidentes rodoviários, transmitidas ao publico normalmente através de números e não de caras, se calhar devemos pensar na maneira como a morte do uma Angélico pode afectar os seus fãs. Normalmente as pessoas só reagem quando alguém próximo morre. Se o Angélico era "próximo" de milhares de fãs, foi uma lição dada a milhares de pessoas, que agora poderão pensar duas vezes antes de não por o cinto.

Anónimo disse...

Panem et circenses diziam os Romanos.
Tenho para mim que mais "circenses" do que as telenovelas só mesmo o futebol.
Por isso não me supreende esta reacção do povinho; afinal, é disto que gostam, é disto que é feito o seu dia a dia, é isto que os move.
Amanhã já nem se lembram.

Virginia