sábado, junho 27, 2009

ÁLVARO DE CAMPOS, CANÇÃO À INGLESA

Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e prò fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia,
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.
lkj
Álvaro de Campos, 01 de Dezembro, 1928

3 comentários:

antonio ganhão disse...

Sou uma coisa que fica a grande distância, assim somos nós nos nossos sonhos! Venceremos essa distância? Acredito que sim, sofro contudo com a tua falta de discernimento.

Daniel Santos disse...

Já te disse que não gosto de depressões, não disse?

angelo ochoa disse...

Por estas e outras do tal Pessoa próximo distante rosa-cruciano é que chegámos à fossa a que chegámos...
Amigo Joshua Joaquim, não resisto em te transcrever um poeminha meu -- e maldito -- em que arrumo esse tal -- pese embora aqui e ali lhe luza o consabido talento já mil vezes reescrito e aclamado do morto.

Lá vai pois pólvora de paz:

Tu outra vez, fatal Pessoa?
Nacional obsessão, contumaz pilhéria,
a que nos reduz teu vicioso ciclo alcoolizado.
Era só o que vias este sol?
Ou, mais pra lá do que disseste,
ou nos subscritos selados nos deixaste,
não haverá rua, lua, alma, sonho, praia,
monte, voo, luz, quid, imensidade?
Que o hoje não é só essa Lisboa.
(Ângelo Ochoa)