sábado, junho 13, 2009

HOMO LECTOR SUM

Não há como não enlouquecer, como o Quijote, pela leitura intensiva dos livros, droga dura, viciante de liberdade. Enlouquecer de amor pelos melhores textos, os mais deliciosos, e ser um apaixonado estrénuo por todos os livros, por todos os poemas encantados e novelas e sagas e velhas narrativas de mitos e densos romances e milhares de páginas virtuais, omnivorar-me todo na página lentamente bebida, eis todo um programa de vida e de fecunda morte gozosa. Êxtase e Transfiguração estão lá, na página, aguardando eclodir, remetendo-me ainda mais vivo para a frescura de uma manhã inundada de sol, ainda mais vivo para o sal segregado da minha face exsudante, durante uma longa marcha pelo entardecer laranja-róseo dos longes poentes. Estar sobre as minhas próprias pernas pelas longas horas meditativas da beira-mar, da beira-rio e ser, por fim, ofensivamente livre, insultuosamente incapturável seja por que portentoso portento mundanal for, para além de mim mesmo dentro da minha Carne Espiritual. Enlouquecido pela leitura, já não pertenço à irrefragável frivolidade do Tempo.

1 comentário:

manuel gouveia disse...

Um belo texto. Existe quem se perde nas leituras em extâse, outros como um mendigo tentando iludir o tempo e a realidade que ele contém!