AF 447 — ESPECULAÇÕES E VERDADE

Coleccionando os abundantes factos e informações libertados até ao momento relativos à tragédia do voo AF 447 e exercendo as nossas inferências sobre o que não é nem pode ser dito com clareza cristalina e vociferante [como por exemplo, que as responsabilidades devem desde já ser repartidas entre a companhia aérea e a construtora do modelo], resta-nos o bom senso adveniente do conhecimento histórico de desastres semelhantes. Por isso é possível divergir de qualquer outra tese explicativa, como a de atentado terrorista, por variadíssimas razões sobre as quais seria ocioso dissertar. A hipótese terrorista não passa de confabulação a pôr de lado. A causa do acidente é técnica e depois estrutural. A fragilidade dos equipamentos auxiliares do piloto automático, medidores de pressão ou sensores externos, no mínimo, traíu e induziu em erro o elemento humano. Provavelmente, um aparelho, já vulnerável pela gestão errónea da velocidade de cruzeiro pelo piloto automático e porventura com instruções de voo mandatórias de uma rota mais económica, não pôde nem atingir uma suficiente altitude de segurança, nem desviar-se da turbulência nem resistir ao gelo e às descargas eléctricas sucessivas atravessando as putativas nuvens cumulus nimbus. O factor velocidade errónea induzida sob um contexto atmosférico particularmente severo terá formado a armadilha perfeita, ocasionando algumas das falhas críticas em cascata, inatendíveis. A conjugação de todas elas foi fatal. Apurar a transparência das causas incontroláveis e as dependentes de responsabilidades a montante de este voo torna-se o verdadeiro imperativo, agora. A rotina e a banalização dos voos, assim como a gestão apertada da manutenção, não podem significar transigência com as mais subtis negligências e com os adiamentos mais relaxados, sobretudo quando os problemas e os avisos estão sobejamente detectados e elencados. Historicamente, os acidentes na aviação civil têm causas aparentemente banais [pormenores em que se facilitou, sinais não atendidos de imediato, controlo displicente por razões de agenda de voo] algumas das quais poderiam ser prevenidas com um pouco mais de zelo, mais pessoal disponível e devidamente escutado, evitando abrir mão da segurança para depois lhe chamar o nome moderno de todos os esbulhos sociais e operacionais: "gestão". As vidas dos que voam, para além dos apertos e dificuldades estrangulatórios que ameaçam a sobrevivência de algumas companhias como a Air France, exigem não a conivência compassiva, mas o forte aperto inspectivo das entidades e instituições independentes que realmente exerçam verificações exaustivas, que na verdade não perdoem procrastinações de manutenção com substituição de equipamentos, peças defeituosos ou sob desgaste. Todos contamos com isto. Porém, as excepções a tal regra, raras que sejam, não oferecem segundas oportunidades. Por alguma razão sempre foram raras as companhias que sairam ilesas no confronto litigioso com os familiares das vítimas. Muitas lições de vida foram aprendidas. Imensos erros procedimentais pós-acidente foram corrigidos. Mesmo assim, quando os destroços e as perícias são postas a 'falar', não é nada agradável estar na posição dos operadores aéreos: «Haveria suspeitos com ligações à Al-Qaeda a bordo do voo AF447 da Air France, que se despenhou misteriosamente no Atlântico? Esta hipótese foi levantada após o site da revista francesa “L’Express” ter ter revelado que dois dos passageiros a bordo tinham nomes que coincidiam com os de duas pessoas incluídas na lista francesa de suspeitos de terrorismo. As autoridades, no entanto, relativizam a informação, dizendo que pode tratar-se apenas de uma coincidência.»
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Comments
Julgava vir ler o Joaquim a vomitar mais ódio e inveja sobre o CR/, afinal, nada!
Deve estar (o Joaquim) a auto-flagerar-se.
Um post bem elucidativo e fundamentado que nos remete para insegurança advinda duma competitividade aguerrida entre operadoras de transporte aéreo e que leva à redução de custos em detrimento da segurança.
Também para ganhar mercados as próprias construtoras abrem mão de requisitos de qualidade.
Os acidentes são a parte mais óbvia duma actuação pouco ética e irresponsável que faz que muitas pessoas sejam transportadas no fio da navalha ainda que disso não se dêem conta.
Abraço
É a banalização do sucesso da gestão a curto prazo. Este tipo de gestão dá lucro, e é evidente que a médio prazo não, pois não permite evitar os acidentes, nem preparar as empresas para as crises. Enquanto forem dando para o prémio anual do gestor não será de esperar grandes alterações.