domingo, novembro 29, 2009

FISIONOMIA PETULANTE

Nunca esquecerei aquele dia. Dentro do aparelho de televisão, o indivíduo passava de nariz emproado e, em face de tanto indigente, tanta gente estendida no catre espiritual da miséria no seu País, ele declarava-se alheio, exprimia indiferença, com o seu esgar inconfundível aparentado vagamente com um sorriso, esgar velhaco de paxá intrépido, entregue ao deboche de Estado. Chocava ser esse espectáculo de gente caindo na miséria absolutamente indiferente para si. No topo da cadeia alimentar, todos os golpes que dera até aí, todas os desfalques indirectos que fizera às contas públicas, todas as luvas que recebera, graças à altas posições alcançadas, fora em nome do aperfeiçoamento pessoal, do acesso aos maiores requintes da vida, o gosto de dominar, de alcançar a todo o transe esse mesmo topo e o mais rápido que lhe foi possível. Estar de pé, depois de tudo o que se lhe conhece, como se nada fosse é a sua forma de mangar com a gente. Habituou-se a ditar a Lei. Alargou por decreto a decência fazendo-a recobrir algumas obscenidades. Sabe-se indecente, mas está por tudo. A Lei dobra-se perante o imperativo de si mesmo. Que o apeiem, se souberem. Se puderem. No seu histórico, sobejavam oportunidades que lhe coubera aproveitar. Enriquecera. Fazia-se temer pelo círculo dos que empregava, uma corte obediente bem forrada com os dinheiros públicos. Era cretino? Sim, era. Convicto? Convicto! Se lhe assassinavam o carácter e o bom nome, faziam-no com verdade e justificadamente, embora um assassinato de carácter seja universalmente um acto baixo, uma iniciativa reles. Só isso permitia uma extensa defesa por parte de algum senso-comum devidamente apascentado. Ele porém provava com o seu caso, num país dissoluto, que o crime já não contava, se se pudesse manter todas as aparências. Provava que os media, quando encostavam um Político enegrecido-carvão à parede com factos graves a ele imputados, essa mesma parede tinha afinal portas sucessivas e sucessivas saídas secretas. O sistema respaldava o corrupto com naturalidade, o que faria as delícias de um sul-americano. De resto, nesse país dissoluto, tudo era corrupção. Estar desempregado consistia num azar pessoal. Emigrar para Angola, só por especial favor, cunha especial. Nada importava no país dissoluto. Não importava senão a ventura de um salário mínimo de 450 euros, matéria de riso, barrigadas de riso, por toda a demais Europa. Nunca esquecerei aquele dia. Aquela fisionomia petulante ainda lá está, hirta e firme, sorrindo, nesse país dissoluto. Ainda o mesmo esgar, o mesmo punho instalado na anca, enquanto perora na arena parlamentar. Sempre ao ataque, é a maior virgem impoluta de que há memória. Dizem-me para olhar para a floresta e não para a árvore. Porém, que símbolo maior da floresta encontraria senão tal árvore de caruncho reluzente?!

2 comentários:

João António disse...

Essa fisionomia está pior , agora até tem uma "maioria negativa contra o anjo" !
Abraço

Quint disse...

Estás a ver, meu velho amigo, é assim que te gosto de ler ... sem publicidade a quem a não merece e onde mostras o quão realmente escreves bem!