domingo, novembro 15, 2009

L'ÉDUCATION SENTIMENTALE — SÉNÉCAL

«As convicções de Sénécal eram mais desinteressadas. Todas as noites, quando acabava o trabalho, voltava para a mansarda, e buscava nos livros com que justificar os seus sonhos. Tinha anotado o Contrato Social. Enchia-se com a Revista Independente. Conhecia Mably, Morelly, Fourier, Saint-Simon, Comte, Cabet, Louis Blanc, apesar da carroça dos escritores socialistas, os que reclamam para a humanidade o nível das casernas, os que gostariam de diverti-la num lupanar ou de vergá-la a um balcão; e, da mistura de tudo isto, criara um ideal de democracia virtuosa, tendo duplo aspecto de uma quinta e de uma fábrica de fiação, uma espécie de Lacedemónia americana onde o indivíduo apenas existiria para servir a sociedade, mais omnipotente, absoluta, infalível, e divina do que os grandes Lamas e os Nabucodonosores. Não tinha uma dúvida sobre a eventualidade próxima desta concepção; e Sénécal encarniçava-se em cima de tudo quanto julgava ser-lhe hostil, com racionínios de geómetra e uma boa fé de inquisidor. Os títulos nobiliárquicos, as cruzes, os penachos, as librés sobretudo, e até as reputações demasiado sonoras escandalizavam-no; tanto os seus estudos como os seus sofrimentos lhe avivavam todos os dias o seu ódio essencial a toda e qualquer distinção ou superioridade.» Gustave Flaubert, L'Éducation Sentimentale, Círculo de Leitores, p. 137

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