SOU ESCRAVO — NÃO O DISFARÇO!

Sou dos tais parvos-escravos retratados pela Ana Bacalhau. Sou desses caramelos na fronteira da indigência, há tanto tempo a levar nos cornos, há tanto tempo a ser tapete dos Governos, especialmente deste e do anterior, os mais cínicos, os mais cabrões e cruéis deles, que não há poema que me baste, letra de música que me descreva, pathos que me resuma, medida que me desagrave. Sou português e sou escravo. Escravo há quinze para dezasseis anos. Ser escravo e ser escarrado deveria ser natural, naturalíssimo. Eu deveria, aliás, lamber a mão que me escarra, inferioriza e sopeia, pois graças a ela infra-sobrevivo. Eu deveria dar o cu ao escarro que me inferioriza, sopeia e me paga muito menos do que necessito para sobreviver e dignificar a família que constituo. Mas não consigo. Só consigo ensurdecer a minha rebelião em posts destes, especialmente quando mesmo esse infra-mínimo com que se não sobrevive é devorado de taxas, fiscos, ciscos de coima, IVA-de-foder. Sou escravo e não o venderei fácil. Habitue-se a danosa estirpe dos vitalinos-lellos-júdices-etc. a levar com Verbo à falta de outros cocktails pela hora da morte: «Os Deolinda não estão contra as propinas, não abrem trincheiras, não são sequer panfletários. Isto não é um movimento, é um não-movimento [...] é política de há 200 anos, de Rousseau, de Tocqueville, dos vértices libertadores da Revolução Francesa: igualdade, fraternidade, liberdade. Fala-se do Maio de 68, compara-se à espontaneidade do Egipto, confirma-se a força não de um líder, mas das redes sociais. Haverá revolta? Ela será de arame farpado ou de veludo? Ficaremos pela melancolia? Esta canção é uma carta enviada do futuro. Não é um aviso, é uma súplica. Salve, Deolinda.» Pedro Santos Guerreiro

Comments

floribundus said…
floribundus
quase 80 de vida.
60 anos de luta inglória contra a burrocracia do 'estado a que chegámos'.
50 anos a trabalhar para aquecer.
'fuderam' tudo e quase todos.
é pena não os ver morrer empelados num das Caldas de 1,5 m de alto, ou nmo varapau dos leitões da BNairrada.
PQP
George Sand said…
A "geração Deolinda"
que canta a indignação
em tom de lamúria
com os olhos no chão