sexta-feira, dezembro 17, 2010

REPARTIÇÃO DO MÉRITO

No espaço de oitenta e um anos, um homem pode ficar apanhado do juízo: rejeitar o comunismo, rejeitar o nazismo, desconfiar dos partidos, não pôr as mãos no fogo pela sociedade civil e no entanto defender Sócrates com unhas e dentes e mãos e pés. O velho barbeiro Nunes fora um comunista engastado até à medula na arte de mentir e manipular comunista, quer na clandestinidade quer no pós-revolução. Depois rompeu com «esses mentirosos» e há vinte anos é anti-comunista e defensor das democracias ocidentais, Israel incluída. E não tem dúvidas: os comunistas são merda, Sócrates tem-nos no sítio e é honesto. Estrada de asfalto para grandes lobotomias em fim de vida, este Nunes! Tanta lucidez para recair no mais profundo limbo da clarividência. Ao fim da tarde, está na rua a dar de comer a gatos vadios, infinitamente terno, e, se tiver alguém com quem falar, passa à pregação em nome de esse deus providencial Sócrates. «Qual foi o Governo mais contestado desde o 25 de Abril?», pergunta-me ele com um sorriso euromilonário. Digo-lhe, brincando, Vasco Gonçalves, Soares, Cavaco, Guterres... Diz-me que foi Sócrates e para quê?, pergunta. E responde: «Professores, juízes, militares, polícias, todos protestaram e todos perderam.» Não adiantou falar-lhe, com bem humorado acinte, de manipulação de massas, da propaganda, doses cavalares de mentira, humilhação servida a rodos sector por sector que o Governo-PS engendrou selectivamente, enquanto tratava da vidinha dos seus e progredia nos negócios promíscuos dos seus com o Estado-PS, e o Amiguismo-PS prosperava e da Clientela-PS alastrava, castrando a indignação, matando o pudor, violentando a decência e a ética republicana, essa puta como tal tratada. Se insistisse nessa linha argumentária, poderia até perder a "amizade" do sr. Nunes. Não valia a pena. Era um pobre velho zaranza, obstinado, inofensivo, afectuoso. De resto, ali ao frio, eu tinha de ir à minha vida. Nada havia a fazer quanto ao espectro assustador das ideias? Resgate-se a cordialidade para que sobreviva.

2 comentários:

francisco disse...

O país está cheio de senhores Nunes que nunca aprenderam a pensar. Cultive-se a cordialidade, porque a alternativa séria é a espingarda automática ou o CEMTEX.

Bmonteiro disse...

«Professores, juízes, militares, polícias, todos protestaram e todos perderam.»
E há os que apenas ganharam e assim continuaram:
A novíssima corporação.
A política,
além da empresarial encostada ao Estado.