sexta-feira, maio 16, 2008

CHEIRO A CRIME


Quando eles chegaram, não entraram imediatamente no Pub,
desviaram-se para uma espécie de reentrância próxima e eu só pude ver, e logo estranhar,
o semblante de um deles: era um semblante raro por ali
porque nele estavam escritas as rugas do perigo, péssimas intenções,
violência e dano graves pela certa.
lkj
Espreitei. Eram dois. Fiz um sinal apaziguador ao que eu não tinha visto passar
e remeti-me ao meu lugar escondido habitual. Tinham-se sentado como quem ganha alento
para executar um projecto qualquer. De sobreaviso, limitei-me a aguardar por que viessem
e determinei a melhor linha de conduta a seguir tendo em conta a minha experiência
e intuição profundas em horas-limite, em horas-críticas.
Dissuadir é uma arte que se exerce à partida talvez com uma doçura e uma mansidão
com que não contam os que vêm somente para trucidar-nos.
lkj
Poucos minutos depois, vieram ter comigo, nervosos, tensos, corpos logo colados ao meu,
num cerco por mim esperado e ao qual reagi com toda a calma, pois fiz questão
de em nada devolver-lhes a suspeita ou os sinais de me sentir intimidado.
Inquiriram sobre coisas banais que fui respondendo tranquilamente. Já fizera as minhas
orações, pensara os meus últimos pensamentos ante aquilo que se adivinhava claramente:
sérios problemas. Pela cor daquele linguajar português, pareciam claramente angolanos
coisa que mo admitiram e, soube mais tarde, haviam vindo de Lisboa.
lkj
Disse-lhes que entrassem e, uma vez que a noite estava no fim, talvez lograssem pagar os consumos que fizessem e fossem isentados do consumo mínimo.
Traços negróides em ambos faziam a um deles simpático, quase menino,
e ao outro de uma fealdade cheia de malícia e frieza, gosto de torturar.
Entraram. Ambos possantes, à distância de dois metros, já no balcão, fui-lhes observando
a desenvoltura e escutando o teor do discurso com as funcionárias.
Todos os trejeitos, toda a linguagem corporal tinha a marca da violência intencionada,
comprimida em mola à espera do desejado pretexto para eclodir.
Primeiro questionaram o preço de um copo de cerveja,
mesmo isentados do consumo mínimo e não a quiseram por ser cara.
Depois procuraram negociar com o meu patrão a compra de uma garrafa de whisky.
Ora, coisa estranha, rejeitam um copo de cerveja pelo preço mais irrisório
e dispõem-se a pagar sessenta euros por uma garrafa de whiskey?
lkj
Esperto, o meu patrão compreendeu o contra-senso e foi irredutível, apesar da insistência.
Uma garrafa é uma arma. E é uma arma mais perigosa quando esvaziada.
Os modos dos dois rapazes eram exuberantes e instáveis.
Chegaram decididos a armar contenda,
mas algo foi-lhes amansando os ânimos tremendistas iniciais.
Sei que ostensivamente fingi usar o meu telemóvel, ligá-lo e desligá-lo.
Dei-lhes as minhas costas e coreografei uma chamada a supostos reforços,
um suave teatro persuasivo e dissuasivo.
lkj
O homem habitualmente armado no Pub estava lá com a sua gorducha companheira,
dançando desnivelados como sempre, alheados de tudo isto.
Ela mais alta que ele. Ele encolhido nas mamas dela, aliás, desaparecido no corpo dela.
Ele com a mão dentro do bolso dela, ela com a mão em concha nos colhões dele.
E assim passando toda a noite rindo dos outros, comentando as toiletes e os sobejos ridículos alheios, tão ignorantes afinal do efeito que eles mesmos passam com a sua assimetria cómica.
lkj
Dada a pertinácia com que instavam com o meu patrão pela garrafa,
a coisa tinha todos os condimentos para, finalmente,
rebentar em babas e ranhos de sangue.
lkj
E, mais uma vez, o cenho carregado, os corpos agorilados num cambalear rendido
na minha direcção, envolveram-me, cercaram-me, desculparam-se, justificaram-se,
segurando as minhas mãos, conservando os seus olhos nos meus.
Foi quando, olhos nos olhos, lhes vi aquela mudança subtil de determinação
como se acometidos pelo vírus inesperado da compaixão e da contenção:
podendo e talvez devendo preventivament hostilizá-los,
não os hostilizei, não os mal-tratei, não os desprezei,
acolhi-os como a quaisquer outros e bem lhes vi o lado notoriamente sanguinário,
acolhi-os como a quaisquer outros e bem lhes li o sangue e a violência comprimidos em mola
que abrigavam desencadear. Talvez, fosse eu outro, e sob o isqueiro da descortesia
o caos e a morte se cumprissem ali.
lkj
Partiram em paz, quase envergonhados.
Duas horas antes, numa pausa para me refrescar no WC de serviço do Pub,
olhando-me ao espelho, recordei-me com todo o meu ser,
todo o meu corpo e toda a minha alma,
(ainda com o meu terrível exaspero do dia anterior como plano de fundo
quando me rebocaram o carro
impiedosamente nas barbas da Maternidade e me aliviaram do único dinheiro que tinha
para vivermos a semana, eu, a minha filha e a minha mulher),
recordei-me de como é absolutamente forte e absolutamente mágica
e absolutamente convicta (como se já tivesse morrido, visto o Céu e voltado
para uns unfinished business muito meus) a minha oração desde que me conheço.
Recordei-me de como sempre me escudou dos absurdos da vida.
lkj
Entre pensar que tudo isto, os obstáculos, os azares em catadupa, as perseguições fiscais absurdas e abusivas, as perseguições bancárias abusivas e absurdas,
do hiato sem anti-vírus e por isso trojans no meu computador
reflectindo-se depois no meu pobre bolso, do Estado e a sua deriva receitualística feroz e fria,
do meu desemprego ano sim, ano não, tudo, mas tudo, tudo,
é uma loucura a assediar-me e o mais certo e santo para mim é ir atirar-me covardolasmente
de uma ponte e acabar com esta sensação de esmagamento sistémico
entre isso e a clara transparência da falta que a oração me faz,
essa perfeita energia para um enquadrar sapiente de toda a minha história pessoal,
poderei ter hesitações? Em absoluto, não. É a minha história. E dela só eu sei e sou Doutor.
lkj
E orar com as minhas vísceras, com todo o meu ser, a minha carne, o meu sangue,
os meus nervos, ossos, células, ínfimos componentes que me completam,
me constituem e me fazem íntegro e inteiro do lado de cá da História, da Matéria e do Tempo,
e não ainda do lado de lá da Meta(trans)Matéria, TransHistória e Intemporalidade,
faz-me falta antes, durante e depois que o mundo e o demónio
resolvem judiar-me e desabar sobre mim com tal escudo
só implícito e não perfeitamente polido e pronto.
kh
Creio em um só Deus!
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo!
Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a Vida!
Creio na Igreja, Una, Santa, Católica, Apostólica, Romana!

5 comentários:

antonio ganhão disse...

Gostei do teu testemunho, do teu credo. Pouco fazem do seu credo testemunho de vida, prática corrente, força anímica. Poucos escrevem como tu, isto é, dotados de talento e estilo próprio, agora com uma cuidada contenção. Começas e miniscentar a tua escrita.

Isso quer dizer que te sentes preparado? Só te falta reunir aquele bocadinho de coragem/humildade para aceitares o meu desafio? Aquele "crescer" final?

Gostei da forma como lidaste com o teu clímax, embora (na minha modesta opinião) ainda sujeito a alguma revisão, questão de pormenor.

Manuel Rocha disse...

Olha, pá, é assim:

Ou te organizas para trabalhar estes teus textos e batalhas por uma publicação, ou juro por Toutatis que um destes dias vou ao teu pub, compro uma garrafa de "visque barate " e armo com ela um estrago que não há oração que te valha !!!

:)))


Acho que sabes que estou a sério. E o António acompanha-me, que eu sei.

:)))

Joaninha disse...

Que susto Josh! houve ali um momento em que pensei que te tinha contecido alguma coisa.
Eu gosto muito destes teus desabafos nocturnos...Mas já te disse isso.

Manuel Rocha disse...

Volto e releio rendido á tua magia !

Assalta-me uma dúvida: terás tu noção da força que transborda da autenticidade deste teu registo ?? Tens ?? Então que esperas ?!

Tiago R Cardoso disse...

Bem, depois disto vou-me juntar ao Manuel e ao Antonio.

Deixa eu apanhar-te outra vez e vais-me ouvir.