sábado, maio 24, 2008

DESABAFO COMATOSO NOCTURNO


Há noites assim. Noites em que, no Pub, os meus ouvidos continuam o penico
das palavras doridas dela pela crise do casamento dela e eu me faço,
na antecipação mesma de esse consabido texto, todo compreensão e audição. E isso pesa.
Cansa. Desassossega. Já não o ama. Já não o quer. Só tem gelo em vez de desejo.
E ele insiste, como se insiste numa presa carcomida e definhada, incapaz de nela matar
a fome de sentido e de amor que o amor, pensa-se!, guarda para os seus.
Vício e obsessão enclavinharmo-nos justamente em quem nos dejecta
sem apelo nem agravo porque as coisas são o que são e não há volta.
kljh
Há noites, quase todas, em que os meus olhos permanecem o mesmo alvo sentado sob o tiro
dos perdigotos tagarelas, desses que insistem em conversar comigo
a um palmo do meu rosto fugitivo, aflito por tréguas, meu Deus!, tréguas da heterossaliva!,
gente que toda se me desabafa como quem me cospe:
a sua vida, de aventuras, gozos e tristezas,
são o cuspe e eu sou o vaso, a ânfora alada desse esgoto vínico
que por mim se adentra espiritual, mola diegética que se quer reescrever por meus dedos,
e se evola efectivamente no que evaporaescrevo.
Cuspe eles. Vaso eu, mesmo quando estou além conversa e além paciência.
kjh
Noites em que as pessoas se conglomeram em mais lado nenhum
a não ser no meu habitáculo,
havendo tanto espaço, tantos recantos para essas intermináveis conversas bissexuais.
No meu cubículo mal caibo eu, preciso de espaço para receber e despedir,
terei eu um mel qualquer que os cole ali?, serei eu obrigado a sorver esses murmúrios
que não me interessam rigorosamente na sua viril efeminescência?
lkj
Tardiamente à porta do Pub apareceram hoje seis alentejanos que se assustaram
ao considerarem o valor do consumo mínimo,
que se detiveram para conferenciar fraternalmente, afastados de mim,
sobre se valeria a pena entrar ou não. Negociei com eles a possibilidade de um bónus. Acordaram que sim e lá entraram sob essa possibilidade. Os seis serenos, tácitos, encolhidos.
Há muito tempo que não via aquele tipo de portugueses reservadíssimos, recatados, contidos,
democraticamente estrangeiros nacionais no Porto, e que apesar de bem bebidos
não foram capazes de qualquer interacção com a demais gente de outros linguajares,
de outros desabrimentos nesta outra língua que por cá, caralho!, puta que os pariu!, se fala.
lkj
Saíam, e ainda lhes atirei com uma nota biográfica e tentei gracejar:
«Dei aulas em Cuba... na vossa Cuba... Afinal, Colombo era cubano,
da vossa Cuba do Alentejo... Vila Alva e Vila Ruiva... vinho celeste...que saudade!».
Perante o meu inesperado discurso e a minha percepção professada da sua alentejoneidade,
estacaram, espectantes, a ouvir-me. Mas eu já sabia que se conservariam hirtos,
pesados, fechados, secos, lacónicos, como estátuas de sal
sob o enxofre piroclástico do Senhor castigando Sodoma e Gomorra.
A custo, um deles, correspondeu com um telegrama sintónico.
«É verdadi. O homem é de lá.»
E foram-se embora.
lkj
Noites em que os Senhores Doutores cinquentões também vêm virginais:
são três com três, são um trio virginal unido que se ama e ama estatelar-se em álcool,
invariavelmente bêbados, Advogados quando sóbrios, ambiguamente impotentes todo o ano
e bêbados à Sexta, empresários igualmente, impotentes todo o ano, bêbados à Sexta,
quadros técnicos e Directores Gerais igualmente, nos seus carrões despudorados,
sempre apesar disso, do álcool, correctíssimos comigo e com toda a gente,
e a que alguns atribuem esse sistemático preparo ébrio
precisamente à impotência profissional e sexual
ao passo que eu atribuo-a ao que eles sabem,
ao que eles vêem, ao que têm de fazer ou não fazer e tanto lhes pesa na alma.
lkj
Em noites assim, vejo que o meu grito não faz eco.
Em nada fui ouvido sempre que lambi aqui as minhas feridas
e expus, fracturas expostas e facturas, as lacerações de alma que tanto me rasgam.

3 comentários:

Tiago R Cardoso disse...

Mais um brilhante momento.

Manuel Rocha disse...

Quando for grande também quero escrever como tu, pá...;) Mas estas peças que nos deixas são a prova acabada que não se escreve sobre o que não se vive. Não há melhor ficção que a própria realidade.

SEM MEDO disse...

O Joaquim vai desculpar-me a sinceridade, não consigo ser hipócrita.
Não faço ideia de quantos dos seus leitores habituais sabem onde você trabalha exactamente, tentei mesmo colocá-lo na posição de um escritor que assume um emprego só porque julga que ali irá encontrar inspiração, mas não consigo, não consigo porque apreciando, e muito a sua forma de escrever, sei que é porteiro por necessidade, porque precisa daquilo que lá lhe pagam.
Agora tente imaginar o que faria o seu patrão se lesse o que você escreve sobre ele e os seus clientes, clientes esses que são na realidade quem lhe paga o seu salário.
Mas vou mais adiante, e não sendo psicólogo, digo-lhe que esse seu emprego lhe está a fazer mal, é que a sua escrita, sobretudo quando se refere ao pub onde trabalha, baba raiva, arriscaria dizer que o Joaquim precisa de apoio médico urgente.
Desculpe a franqueza, você escreve tão bem, porque raio se deixa afundar?
Você que tem uma fonte linda onde beber inspiração, sabe a quem me refiro, a sua muito linda filha.
Até sempre.