terça-feira, maio 06, 2008

MORRISON, AS RUAS DA MINHA INFÂNCIA


Regressei ontem, em passeio inesperado, às ruas da minha infância
e vi que estavam desertas, tristes, sós.
Corria um frio tremendo por elas que me enregelou.
Nenhum dos seus muros altos, donde por vezes algum ramo verde de árvore surdia,
me devolvia consolação apesar das minhas memórias só felizes.
Nem vivalma se pressentia por detrás das suas paredes domésticas.
Nem velhos, nem crianças se pressentem ou surpreendem já nas ruas da minha infância.
A tinta que se descola e se descasca das paredes das ruas da minha infância,
as pedras e as ervas por entre os recantos das ruas da minha infância,
as casas antigas há tanto tempo abandonadas e à venda nas ruas da minha infância,
fazem-nas ainda mais que tumulares, ainda mais que desertas.
lkj
Não há risos de crianças,
não há a frescura prometida por um gelado de laranja
que se vai comprar furtivamente à loja da esquina num dia sufocante
com as moedas que a avó esconde.
Tudo passou. Tudo morreu.
Eu mesmo, quando me vi de regresso às ruas da minha infância
após tanto tempo de recusa reclusa na minha Demanda Dourada, que ainda prossegue,
vi que estava morto, só, fechado, complexo,
tão impenetrável como no tempo florescido
em que sonhávamos juntos, já jovens e tantos, Xico e Agostinho,
as grandes utopias que esfriavam insuspeitas nas mãos dos nossos pais,
servidas com Hendrix, degustadas com Morrison
e as suas Portas da Percepção abertas em ânsia,
ecoantes em M. L. King, fervilhantes com Lennon
e a sua agitação fecunda e infecunda das turbas hesitantes por Paz.
Sonhos hoje absolutamente mortos e pútridos
porque a Paz e o Amor gratuitos afinal estão à venda
e em perpétuo leilão e a Guerra é um organigrama
de fundo económico sem qualquer ideologia.
çklj
E agora estes tempos sem chama, onde todos se isolam,
onde todos se evitam e se esquecem convictamente,
onde as pessoas se consomem como artigos,
onde as pessoas se preferem, se procuram, se deixam,
novamente se consomem,
onde as pessoas insólitas se transformam em curiosidade para as pessoas não-insólitas,
que as desejam devorar avidamente com o olhar e a compreensão simpática
para depois se cansarem das pessoas insólitas
para depois as abandonarem, satisfeita a curiosidade, acabadinhas de cativar,
tempos onde todos resguardam e delimitam avaramente a sua parca noção de felicidade
num território moral e íntimo isolado dos demais -,
estes tempos sem chama são um Fundo de Poço Profundo.
Sente-se já a fome do pão porque a cupidez é mais forte que a partilha.
Cedo virá o desespero por agregação e por entreajuda
e não haverá homens fortes que as ministrem,
pois a cova onde se enterrou Deus
era para nós.
lkj
A frieza glaciar das ruas da minha infância
já grita, já acusa, já protesta este Tempo Médio
mortífero, pestífero, em que a Peste e a Morte
são só o triunfo Egoístico
de um novo Salve-se-Quem-Puder,
chicote-selva do Capital sem Freios,
que a uns enche de Cínico
e a outros estrangula de Solidão.
lkj
As ruas da minha infância são um ventre prenhe de tristeza
que nunca houve no tempo túrgido da minha infância.

2 comentários:

Manuel Rocha disse...

Poderoso !

Mas na tua infância ainda não tinhas memória nem vias para lá do olhar. O teu tempo mudou. Mas a memória parou. Também por isso não reconheceste as ruas da tua infância. Talvez não o conseguisses mesmo se regressasses ao passado exactamente como o recordas. Levas outros olhos. E nem sabes como fabricaste memórias.
É essa a condição da nossa temporalidade transitória.

Abraço, Palvarossaurus !

Tiago R Cardoso disse...

dado o cansaço, deixo-te um excelente e um enorme abraço.