quarta-feira, maio 14, 2008

REBOCAR 1100 CARROS POR MÊS?


Querem que eu me sinta como?
Ida à maternidade para mais uma ecografia de rotina.
Demora habitual na sala de espera, com mulheres e companheiros atafulhando o espaço,
os filhos pequenos correndo e brincando e gritando nas imediações,
a minha filha correndo, rindo e gritando com as outras crianças,
lindo de se ver. Alguém, dentre os pais, fotografa este espectáculo.
lkj
Os casais são como eu e a minha mulher, enquanto casal: ele é português, ela é ucraniana.
Ela é brasileira, ele é português. Ele é brasileiro, ela é portuguesa.
Quando não vêm com eles, elas vêm com as irmãs,
com as cunhadas, com as mães, com as sogras, com o filho mais novo.
E vêm sisudas, vêm pesadas de cenho,
sem leveza de semblante, sem alegria, sem esperança,
sem entusiasmo, tensas, fechadas.
Aqui e ali, um esparso sorriso pois qualquer longa espera nos deixa prostrados,
como que esvaziados de alma e com o rosto anuviado.
lkj
Longa espera. Espera que espera. Sempre em pé,
caminho de um lado para o outro, levanto o queixo, olhar descaído,
e ainda existe um João Baião a exuberantizar o ecrã estridente da Televisão.
Duas horas depois, finalmente, somos três na pequena sala onde o médico
trabalha com o seu computador e a sua sonda-Doppler, marcando e medindo o meu bebé
internado no ventre da minha mulher que em breve nos fará quatro.
Mãozita aqui. Ali o joelhito. Acolá o rosto.
Talvez venha a ser uma menina, mas ainda não sabemos.
lkj
Bebé com todos os indicadores normais.
Mulher com dores de cabeça, passagem pela secretaria a fim de marcar outras consultas.
Tentar medir as tensões. Nada feito. Espera que espera, não vale a pena.
Na farmácia mais próxima, talvez façamos isso, medir as tensões.
Vamos embora os três, filha ensonada, no meu colo, e mulher com as suas dores.
Mas e o carro? Onde está o meu carro? Fila de um lado, fila de outro, multidão de carros
estacionados sobre o passeio com notas de infracção e só o meu desaparecido?
lkj
Rais'ma'foda a sorte. Dinheiro contadinho para a semana e não mais.
Telemóvel morto. Desespero. Desalento. Uma fúria infinita e indescritível ali contida.
Nem sequer posso telefonar para casa a avisar, a pedir auxílio. Ali está um Táxi:
«Onde fica o parque mais próximo para carros rebocados pela Câmera?», pergunto.
lkj
O taxista, que estava a dormir e a quem abruptamente acordo, diz-me que há vários.
Isso eu o sei, mas é natural que, reboque por reboque, mo tenham rebocado
para o parque mais próximo a esta Maternidade.
«Há aqui bem próximo um.» Mando entrar a família.
Entro também, mas dou uma cabeçada displicente na arcada da porta do Mercedes.
Foda-se que a culpa é minha!
Lá chegámos. Certifico-me da entrada do meu automóvel. Matrícula.
É verdade. Ei-lo lá.
çlk
Funcionário desdentado, no guichet, contente com a vida, inocente,
procura desdramatizar-me a questão, sorrindo muito e tentando conversar aquela conversa
habitual com que não se consola nem se alivia ninguém. Requisita-me os documentos.
Os operadores do reboque, lá ao fundo, pachorrentamente, preguiçosamente, estiram-se
nas partes onde um homem pode deitar-se e recostar-se nos vários reboques, fumam,
não conversam, nada mais fazem senão apoiar as suas cabeças nas suas mãos,
perna dependurada, bamba, oscilando dos seus reboques, enquanto a música
escorre dos rádios do reboque. Observam-me a chorar, a limpar-me as lágrimas e o ranho.
Ficam a ver, como os soldados romanos aos pés da cruz,
até onde irá minha paciência, até que ponto me conterei.
O espectáculo de uma mulher grávida, um homem mais adiante à parte a chorar,
uma menina de dois anos inocente por ali a saltitar,
tudo isto talvez os faça pensar no que têm lá em casa
e na merda de trabalho que os obrigam a desempenhar.
Mais dez minutos e saem do bonito serviço.
Estou desesperado.
lkj
A vista dali, toda a foz do Rio Douro, os cinzentos nublados longínquos obnubilam o sol,
a ponte da Arrábida cheia de tráfego e aparecendo-me em toda a sua largura,
como que ao alcance da minha mão, com os seus camiões pesados, enormes,
por baixo um rio agitado, como chumbo derretido a verter imparável
numa forma interminável e afastando-se de mim, rumo ao mar,
onde alguns navios aguardando porto têm as cidadelas já acesas.
lkj
Chorei. Chorei de raiva. Chorei de ódio. Chorei convulsivamente de frustração.
A cidade do Porto, a cidade de Gaia, o País, chamado Portugal,
está a gerar em mim semelhantes anti-corpos, sinto de tal maneira impossível a minha vida aqui,
que o asco e o desprezo mais sincero por isto tomam conta de mim.
A Segurança Social tem os seus pagamentos atrasados. Já não cumpre prazos.
Os combustíveis sobem 15 vezes, neste ano, num despudor que custa a perceber como se tolera.
Em Bruxelas só agora a o Conselho dos Ministros das Finanças apoda de escandalosas
as remunerações de certos gestores e em Portugal ainda se vai estudar
os casos e avaliar e averiguar... O PM fuma no nosso avião fretado e não sabe da lei,
o comandante de bordo diz que é normal, pedem-se desculpas, alega-se ignorância,
há quem considere isto uma perseguição, coitado do homem, deixem fumar o homem.
lkj
Não estou em condições de tratar com o funcionário da Câmera,
o tal indivíduo desdentado, magro, cabelo ralo, com óculos e na casa dos cinquenta
do guichet de este Parque de Rebocados, só consigo chorar esta mágoa e esta raiva.
A coima inescapável é todo o meu dinheiro da semana, 60 euros, é tudo o que tenho.
A minha mulher tem equilíbrio para isso e faz as minhas vezes.
Filha correndo e brincando pelo parque.
Eu aqui sentado, fodido, numa raiva mortífera.
Deixem-me. Estou para lá dos meus limites.
lkj
Sr. Rui Rio e o seu verador da mobilidade, Lino Ferreira,
queiram ter vergonha. Se é pelo exemplo e pelo dinheiro, reboquem selectivamente:
reboquem os carros abusivos dos Senhores Doutores com Pressa à frente das Marisqueiras,
do Capa Negra I e II, da Marisqueira da Praça da Galiza. Façam o vosso trabalho
e escolham quem pode pagar sem ter vontade de vos espancar a todos,
como eu agora tenho que até babo furioso, zangado.
lkj
Vocês sabem e eu sei que os piores maus tratos verbais a que os vossos fiscais se sujeitam
(quando os carros rebocados são os de suas excelências e as coimas são para suas excelências) são os dos shô-doutores de peso na cidade,
mas mesmo assim, insisto,
escolham os patos bravos, escolham os maiorais, escolham os shô-doutores,
não me fodam a mim, já basta, não me fodam, não me fodam!
Dr. Rui Rio, Dr. Lino Ferreira, não me fodam, pode ser?!

3 comentários:

Tiago R Cardoso disse...

olha lá, está complicado, andas cá numa maré de azar...

Eu depois ligo-te.

antonio ganhão disse...

Tudo isto é culpa do Sócrates! Começa por fumar no avião e logo a malta toda se julga com direitos. E toca de estacionar em segunda fila, em não pôr moedas no parquimetro, a anarquia instala-se! Mas existem homenzinhos de verde que zelam pela ordem universal!

Felicidades para o bébé!

Fá menor disse...

Desabafa, amigo! Ao menos isso, que de resto, ninguém se compadece dos pobres.
(Como eu sempre digo ao marido: de que te vale fazer choradinhas se ninguém te dá nada!)
Levanta a cabeça e segue em frente!

Que tudo corra pelo melhor.