quinta-feira, maio 22, 2008

A MULHER DE VERMELHO. TEMPOS DE ÓPIO E DE LOGRO



1. A mulher vestida de vermelho que entrou no Pub ao início da noite
e que quase no fim dela saíu satisfeita e indignada
tinha um protesto veemente a depositar nos meus ouvidos:
queixou-se-me do moço mais desdentado,
mais queimado da ganza, mais desorientado da erva,
mais envelhecido precocemente, mais bêbado e inócuo do mundo,
fez-me queixa do Zé Trinas. Que lhe tocara no braço, que lhe pedira para dançar
e que isso, mais o facto de ele parecer vestido com um pijama, cheirar mal,
não ter um olho e obviamente não ter dentes, a indignou
e por um cisco não lhe deu um par de estalos,
além de ter sido grosseira ao gritar-lhe: «Nem pense!»,
admitiu-mo a mulher de vermelho. A mulher de vermelho era empresária,
disse-mo com todas as letras, perorou dos telemóveis da empresa,
sublinhou o seu carácter e o seu sucesso, vincou que não se mistura com merda.
lkj
E é verdade. O Zé Trinas está na merda. A mulher de vermelho está apaixonada por si mesma.
É uma empresária de sucesso. Tem uma frota de carros no Aeroporto.
E o sucesso é uma coisa incontível, tem de se falar dele a pretexto de Zés Trinas irrisórios.
Tem de se ser cretino por causa dele, do sucesso transbordante,
e separar as águas. «Os bêbados e mal comportados não devem entrar aqui, não é?» É.
- Mas o moço de que me fala nunca teve queixas.
Nunca se comportou mal. É o Zé Trinas. Um tipo que não faz mal a uma mosca,
embora o hálito do Zé seja do tipo invasivo e insecticida, ó minha paciência de Job!
É a primeira vez que um protesto é formulado por causa de um jovem que tira os dentes
para falar comigo, que do seu metro e noventa (fez a tropa de Comandos
e ainda tem resíduos de uma certa estrutura atlética!)
se dobra para me dizer ao ouvido alarvidades e irrelevâncias solenes
como por exemplo vir pedir-me a autorização húmida e perdigotante
para colocar as suas tralhas nos cabides que supervisiono,
assim como para tudo o que lhe venha à cabeça.
lkj
O Zé é um chato. O Zé é inócuo. O Zé é o bobo e o perdido, o naufragado e o derrotado,
que justamente deveria recordar mortalidade à mulher imortal de vermelho,
ela que provavelmente passará desta vida competente e bem sucedida
directamente para a próxima a julgar que comanda e dirige frotas com sucesso
e que terá sucesso para todo o sempre, ámen.
Mais uma a precisar do orgasmo da humildade
e ou da dádiva divina de, por uma vez, se apaixonar por outrém que não ela mesma.
lkj
2. Fora isso, ia uma euforia pelos cafés do Porto
por onde fui passando de caminho para o Pub,
feixes de homens e de jovens juntavam-se no exterior
para fumar em conjunto
como hienas se agregam sôfregas sobre um mesmo cadáver.
Entre o fumo e o olho pisco para o ecrã interior onde um jogo decorria
iam todos certamente trocando banalidades entre si, frases novíssimas
cheias de «Eh, pá, viste aquele penalti?».
O ópio do futebol é pródigo a alienar e servir-se-á por estes tempos prodigamente.
lkj
vai correndo para o mar do oblívio e ninguém nos defende.
Ninguém, por uma vez, ousa a Verdade para connosco.
Tristeza de País!

5 comentários:

David R. Oliveira disse...

Lenine disse que pior muito pior que a ralé proletária é a ralé pequeno-burguesa!

Tiago R Cardoso disse...

Excelente...

diz lá e aquele penalti que o Ronaldo falhou, vistes ?

e o Terry que escorregou ?

bom jogo.

SILÊNCIO CULPADO disse...

Joshua
Tristeza de País e tristeza de empresários de caca como essa dama de vermelho que só sabe evidenciar-se pela soberba.
Há pessoas que por mais sucesso empresarial ou profissional que tenham serão sempre ralé.
Abraço

antonio ganhão disse...

Na mesma sarjeta que o Zé e dizendo-lhe: olha lá pá, não penses que somos do mesmo nível!

Então o que fazes aqui nulher de vermelho?

É o drama deste país: a atracção dos nossos empresários pela merda.

Miguel Jorge Correia disse...

É a pura ansiedade e procura de superioridade...
Pessoas que se sentem bem, desde que outrem esteja sob o seu pé, seja por receio de que esse outrem a subsuma, ou pura e simplesmente pela demagogia imanente à sua frustrada e frustrante forma de ser e de estar na vida...
Mas qual vida?...
Vida era estar na sua mansão a gozar os Euros que ganha, rodeada de amigos.... em amenas cavaqueiras regadas com Möet & Chandon e orgias...
mas o quê?... é preciso procurá-los na sargeta onde estava o Lacunas?....Pertinente...