segunda-feira, maio 12, 2008

A VENDEDORA DE FARTURAS


Cavalo de Tróia em pintura de Giovanni Domenico Tiepolo
lkj
Mulher grávida, desejos redobrados. Sair e vogar para saciá-los é natural e desportivo.
Gosto de ir pelo litoral à procura dos recantos onde a maresia nos não seja sonegada
e tudo possa acontecer. Foi o caso. Mal parei defronte a uma caravana de petiscos e farturas,
a Vendedora de Farturas, que eu não reconheci, reconheceu-me logo:
«Por aqui, Dr. joshua? E o seu blogue vai ou não vai?»
jhg
Não me surpreendo de ser reconhecido e visitado até pela Vendedora de Farturas.
É bom sinal. Os meus amigos na carne e no osso
nunca me deram sinal de me terem visitado, nunca me cumprimentaram por ele-blogue.
Ser a Mulher das Farturas a visitar-me e a dar-me mimos
é um bom indicador de onde pára a amizade e começa a profissão apaixonante da estupidez normalmente feita de silêncios preguiçosos e da negra inveja amarela:
«Eram duas farturas e um churro de chocolate, se faz favor.
O blogue vai bem obrigado. Olhe, ajuda-me a viver ainda mais apaixonado pela vida
e pelo mundo, na medida em que os espelha a minha peculiar maneira de os ver e viver.»
lkj
É de bom tom que se corresponda a um cumprimento afável
com igual ou superior afabilidade.
Também por isso, contente de ser lido, de o PALAVROSSAVRVS REX ser lido, vejam lá!,
pela Vendedora de Farturas,
não me detive: «E as vendas de farturas vão bem?»
kjh
Foi neste ponto que fui inundado de informações e inquietações do mais competente que há,
pelo menos para uma Vendedora de Farturas:
«Sou uma grande leitora sua, Dr. joshua, do Palavroso Dinossáuro.
As farturas é sempre naquela: pouco e tal, às vezes dá e às vezes não dá.
O que me preocupa mesmo é um novo aeroporto para Lisboa,
é um TGV de Lisboa para Madrid,
outro do Porto para Vigo e uma nova ponte sobre o Tejo para o servir.
Ó Dr. joshua, acha sinceramente que temos País para isto tudo?... »
lkj
Tentei responder e equilibrar o diálogo, mas a Vendedora de Farturas não se deteve:
«Quem foi que andou a gritar "gastem-me o dinheiro dos meus impostos
a fazer auto-estradas, pontes, aeroportos e comboios de que não precisamos?
Sim, porque eu tenho dois filhos desempregados,
tenho contas para pagar, impostos atrasados para pagar,
o custo de vida cada vez mais alto, a miséria e a fome a roçar-me a vizinhança
e nisto não se fala que sabe Deus quanta roupa e pão e outros víveres dou à caridade».
lj
Na verdade, tudo aquilo era pertinente e ter um blogue afinal é útil e digno
porque é com estas questões de fundo que nós bloggers gastamos horas e dias
a fumigar a realidade e a revisitar, inquisitivos e investigadores,
os dossiês, mais activos e insaciáveis cidadãos que os outros,
verdadeiros pré-partícipes do Poder Democrático em sentido próprio e pleno,
mas a vendedora de farturas não me poupava à prova da sua cidadania lúcida,
consciente, interventiva e muito bem informada: «Porque veja, Dr. joshua,
porque razão, então, o lóbi das obras públicas,
os engenheiros, projectistas, banqueiros e advogados que os assessoram,
mais a ilusão keynesiana do primeiro-ministro, nos hão-de impingir o que não pedimos
nem sequer é prioritário,
coisas a que nenhuma Suécia se deu ao trabalho,
coisas de que nenhuma Irlanda quer saber,
coisas a que nenhuma Dinamarca atribui qualquer importância ou prioridade?»
lkj
Nesta altura, eu já estava excitado porque é exactamente isto que eu penso.
Em trinta e quatro anos de pseudodemocracia, as pessoas nunca foram prioridade.
Só os tachos dos políticos e as multidões que gravitam em torno de si e seus favores.
Contente com a conversa, já tinha comido uma fartura, a minha mulher outra,
a minha filha estava já besuntada com o chocolate do churro e eu queria ouvir mais:
«Fomos nós, Dr. joshua, porventura - ou os autarcas, os especuladores imobiliários
e os empresários do turismo
- que reclamámos a legislação de excepção dos Projectos PIN
para dar cabo da costa alentejana e do que resta do Algarve?
Foi nossa a decisão que a Comissão Europeia classificou como uma batota
para contornar as normas de protecção ambiental e ordenamento do território?».
lkj
Neste passo, acometeu-me uma aflição defecatória, e dei por mim,
enquanto me desculpava e me despedia da Vendedora de Farturas, a louvar a pertinência
das suas observações de Vendedora de Farturas, visitadora de blogues e fã do meu,
uma mulher loura, com dentes postiços, mamas de silicone, implantes de cabelo,
intervenção cirúrgica no períneo e, mesmo assim,
capaz de sentir Portugal, as injustiças, as derivas faraónicas
e loucuras empreendedoras, que nos atrasam a vida a todos perante a inacção de todos.
E tudo com enorme conhecimento de causa e competência discursiva,
para uma Vendedora de Farturas. Quarentona e atenta, sem qualquer dúvida.
Embora intelectualmente excitado e aflitíssimo para cagar,
depois de este comprimido socializador,
comecei a descer à floresca dantesca e virgiliana de uma certa angústia.
lkj
Meti-me no carro, filha e mulher, e conduzi o mais depressa que pude
dentro dos limites da lei, até à minha sanita preferida cá em casa,
mas desperto para todos aqueles tópicos,
não parava de reflectir numa outra ordem de ideias
por causa da angústia dantesca que me assaltou:
«Meu Deus, que amigos fiz eu na vida que não querem saber de nada?
Que com nada se angustiam, concentrados na sua gamela da sopa, e desinteressados
do sentido de estes negócios afinal de duvidosíssima necessidade?
Sinto-me envergonhado de amigos que me não lêem
porque escrevo difícil e sou duro e pareço irado,
que não lhes sou compreensível nem legível,
que não apreendem o volume das minhas frases e chegam vazios ao fim delas,
que não reagem nem respondem a quaisquer dos meus textos,
eles que me viram o cu, que me conhecem quase melhor que eu mesmo,
gente com quem um dia acampei,
gente com quem um dia tomei banho depois do suor de um jogo,
a quem suportei piadinhas de mau gosto e brincadeiras que podiam dar mau resultado?
Amigos? É preciso que venha uma Vendedora de Farturas, que não conheço,
explicar-me o por que razão afinal é impossível que algum dia eu tenha tido amigos!
Porca de vida!»
lkj
Acabei de defecar e vim escrever isto. Pronto, está escrito
e vai dedicado à extraordinária Vendedora de Farturas que me interpelou.
O Cavalo de Tróia? Bem, isso era para ilustrar um pensamento peregrino e sanitário:
depois da sua oca entrevista ao Expresso,
Manuela Ferreira Leite, respeitável que seja, que o é,
parece-me cada vez mais e sobretudo o Cavalo de Tróia inexpressivo e Vácuo
de um Rui Rio, de um Pacheco Pereira e de uma multidão de outros
que se aninham bem dentro da Ideia-Leite à Liderança só para dela poderem saltar,
mal o Cavalo esteja na cidadela do Poder a que, por si sós, não se atrevem.
E tudo tem a ver com tudo.
kjh
Se a história do Cavalo de Tróia se repetir, é claro!...

1 comentário:

David R. Oliveira disse...

Não! não acho que alguns lhe virem o cú.Acontece é que você - é o que lhe apreendo pois não o conheço -dá por vezes (muitas vezes) um tom demasiado intimista e pessoal aos seus escritos o que é talvez inibidor de resposta ou comentário. É o meu caso, garanto.Estas nossas casas são boas para se dizer o que se quer dizer mas é bom conselho não se dizer tudo.Quem é que guardava sempre a última bala?!para o que desse e viesse.
Depois amigo! porra! é o caso deste escrito. Você nos seus vôos apanha verdadeiras tempestades, muitos ventos cruzados (isso é tiro instintivo).Ou liga o piloto automático ou faça como eu...A medida dos ângulos só me interessou para fazer a bissectriz.
Cumprimentos