segunda-feira, maio 12, 2008

SALOMÓNICO NICOLAU SANTOS E GELDOF


Gosto de artigos cujo tempo de maturação seja suficiente para exercerem a única justiça opinativa eficaz: a salomónica. Quando se fala da justiça salomónica, esquece-se que se trata de uma justiça dedutiva, isto é, ante uma situação de intransigência entre duas partes,
a proposta do juiz é tão repelente que a parte que ama realmente
e quer o verdadeiro bem do que está em disputa abdica do seu propósito inicial,
lesando-se a si mesma porque a seus olhos um bem maior emerge.
Assim, a proposta inicial do juiz não se consuma. As partes revelam a sua índole.
E, tendo lido e observado tudo, tendo o juiz a última palavra, faz justiça.
Mas só retemos a questão do meio por meio e é o que fica na expressão.
lkj
Por isso, e só nessa medida, é que Nicolau Santos vem pôr a claro
os erros e excessos de ambas as partes na questão recente
que opôs Geldof ao Governo Angolano
e o Governo Angolano a Geldof:
kjh
«Vamos lá então a ser politicamente incorrectos.
Convidado pelo Expresso e pelo Banco Espírito Santo
para vir a Portugal falar sobre "O futuro sustentável",
o (ex-)cantor rock Bob Geldof informou-nos que ganhava melhor a dar concertos
do que a fazer conferências pugnando pela ajuda internacional a África
(uma afirmação "simpática"...), disse mal de quem lhe pagou o "cachet"
("Bankers? Fuck them!") e pôs a cereja em cima do bolo,
ao sustentar que Angola "é gerida por criminosos".
lkj
Primeiro ponto: manda a coerência que quem acha que os banqueiros são hipócritas
não lhes aceite nem os convites nem o dinheiro.
De outro modo, as boas causas que se defendem ficam, elas próprias,
inquinadas e sob suspeição.
lkj
Segundo ponto: também não é de bom tom utilizar o solo português
para disparar violentas críticas sobre um país independente,
ao qual Portugal está ligado por um passado comum,
mas também por um presente encorajador e um futuro promissor.
Dirão que escrevo isto porque há interesses económicos,
mas também sociais e culturais comuns aos dois países.
É absolutamente verdade. E também é verdade que a classe dirigente angolana
tem muito por onde ser criticada.
lkj
Contudo, Geldof falha redondamente no simplismo com que analisa a situação angolana.
Por um lado, há hoje em dia em África países com situações políticas e sociais
bem mais graves do que Angola (Zimbabwe, Sudão, Guiné Equatorial...).
Depois, Angola esteve em guerra durante 27 anos - e a guerra favorece o nepotismo,
a corrupção, a impunidade, a cleptocracia,
as grandes fortunas e a imensa miséria.
lkj
Finalmente, desde 2002, o país está a fazer um trajecto ascendente no caminho da normalidade democrática, que deve ser apoiado e incentivado,
enquanto a evolução dos outros países referidos só tem tendência a piorar.
kjh
Há ainda muita desigualdade e miséria em Angola - e muito a corrigir.
Mas discursos radicais como o de Geldof não contribuem em nada para melhorar a situação.
E por mais atraentes que sejam são destinados às palmas fáceis e ao "show-off",
mas soam lamentavelmente a falso.
lkj
Por último: o 'Jornal de Angola' publicou um artigo lamentável sobre o assunto.
Ora este tipo repetido de artigos do jornal oficial do regime de Luanda
também não contribui em nada para uma nova imagem do país.
Em contrapartida, Aguinaldo Jaime, ministro-adjunto do primeiro-ministro angolano,
dá uma entrevista notável ao "Diário Económico", onde demonstra, mais uma vez,
que seria um brilhantissimo governante em qualquer parte do mundo.»

1 comentário:

antonio ganhão disse...

Do insulto ao bajulamento, não sei quem fica pior...

Noto simplesmente que alguém alugou um cão para mostrar ao povo e acabou sendo mordido...