sábado, fevereiro 06, 2010

O PREÇO DA PAZ

Não poderia estar mais em desacordo com a ironia fácil do meu amigo Daniel, embora a compreenda. O plano detectado pela investigação judicial questão política exposto pelo Sol, de 5-2-2010, cumpre um serviço inestimável à transparência e ao fair-play na disputa política em Portugal. Quando uma série de coisas gravíssimas está em causa na essência da acção política nacional, o menos grave de tudo é que se viole o Segredo de Justiça. A Alemanha Nazi também tinha segredo de Justiça. Não ter sido violado custou-nos a Paz. Milhões ceifados. Hoje, o Segredo de Justiça é belíssimo pretexto para nos açaimarem as liberdades cívicas. Utópico isto da transparência e do fair-play na disputa política? As coisas ficam muito claras agora. A investigação do Sol arrola, desde logo, o primeiro-ministro e secretário-geral do PS, José Sócrates, identificado por «o chefe» ou «chefe maior»: «o chefe diz que é tudo ou nada e que não pode ficar com a fama sem o proveito»; arrola Rui Pedro Soares: «não era melhor correr com o Moniz antes da PT entrar»; arrola o socialista Armando Vara, um dos pivôs do «plano»; arrola o socialista Rui Pedro Soares, licenciado pelo IPAM que aos 32 anos se torna administrador da PT, «o novo homem forte do PS na PT», cujo nome terá sido indicado por José Sócrates a Ricardo Salgado, presidente do BES para a PT e é ele o líder operacional do plano, na alegada dependência do «chefe maior», que iria depois dirigir a TVI, após passar pela Prisa; arrola o socialista Paulo Penedos, filho de José Penedos, arguido do processo Face Oculta e ex-candidato à liderança do PS, Paulo Pinedos que é assessor do administrador Rui Pedro Soares na Comissão Executiva da PT e operacional do plano; arrola Zeinal Bava, CEO da PT, que, segundo Paulo Penedos, não disse «que não ao Sócrates» e terá alegadamente aceite fazer «a operação» através de «engenharias participadas pelos bancos» mediante «fundos» passados «para Londres», que apareceriam «a comprar»; arrola o socialista Fernando Lopes Barreira, ex-dirigente da Fundação Prevenção e Segurança e arguido do processo Face Oculta, interlocutor do «plano»; arrola José Penedos, presidente da REN e arguido do processo Face Oculta; arrola Empresários do Porto não identificados; arrola José Miguel Júdice, o qual, segundo Rui Pedro Soares, aconselha um domínio indirecto da holding da Media Capital, através da divisão do grupo mediático em fatias, compradas por várias entidades, além da PT propiramente dita, que nomeariam depois administradores para a empresa e assim assegurariam o seu controlo; arrola o socialista João Carlos Silva, vogal do Tagus Park e ex-presidente da RTP, nomeado por Armando Vara; arrola Fernando Soares Carneiro, outro administrador da PT, interlocutor de Armando Vara; arrola Nuno Vasconcelos, que aumenta a sua participação na Impresa pois «está tudo ligado», como diz Penedos, nesta altura e que Rui Pedro Soares, diz, alegadamente, que vai comprar as rádios da TVI, com Luís Montez, genro de Cavaco, «o preço da paz», pois assim, Cavaco «cala-se logo, fica a cuidar dos netos»; depois do negócio ter sido abortado, pela revelação nos media, Nuno Vasconcelos substitui no negócio a PT e compra uma participação na Media Capital, Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz são afastados; o Diário Económico, jornal da Ongoing de Nuno Vasconcelos noticia um suposto interesse da espanhola Telefonica na Media Capital, uma notícia destinada a justificar o interesse da PT na empresa; arrola Manuel Polanco, administrador da Media Capital e da Prisa; arrola José Luis Rodriguez Zapatero, presidente do Governo espanhol; arrola Paulo Baldaia, o célebre director da TSF, rádio da Controlinveste do amigo Joaquim Oliveira, e escolhido pelo «plano» para director de Informação da TVI; arrola também o BES Investimentos. Portanto, Daniel, não vale a pena ser virgem nisto e continuar a matar o mensageiro. Leste o Daniel Oliveira que também se enojou antes de ter lido o Sol? Reparaste como Marinho Pinto e os mesmos do costume rasgam as vestes por ter sido publicado o que foi publicado? Garanto-te que é de mais tudo isto. Se uma Primadonna destas, dissolvido o Parlamento, fosse reeleita, como já garantiste, para, como escreve Baldaia hoje no JN, com a maioria absoluta poder garantir-se a tal 'estabilidade', não sei se nos não seria mais seguro viver na prisão. Se, cá fora, a vida cívica e pública fede de tal modo que, com uma grande dose de poder, dinheiro, influência e topete, tudo, rigorosamente tudo!, é possível, então o que não será mais possível é Portugal e os portugueses. O que é que preferes?