segunda-feira, novembro 10, 2008

A CIDADE E A CANALHA ANÓNIMA


A cidade do Porto parece um organismo semimorto que recusa a ideia de que agoniza.
Quando o automóvel estaca no centro da larga avenida, rumo ao Marquês,
pode ver-se bem à esquerda e bem à direita a face da devastação:
passam-se estabelecimentos às dezenas,
vendem-se apartamentos e casas às centenas e, à porta dos mini-mercados,
homens na casa dos quarenta, mendigam por moedas, com o seu olhar baixo,
o jeito e o trejeito da humilhação habituada, rendida, acanhada,
com a sua roupa feia, coçada, vulgar, amarelenta, com a sua barba crescida
e o seu cabelo desalinhado. Fazem o seu número e o aplauso ou a indiferença
serpenteiam-lhes os corpos, cada qual olha pela sua vida.
lkj
Recebem normalmente da enfadada e ensacada dona de casa
um esgar de assentimento ao pedido: ela abre o carro,
senta-se, enquanto pousa as sacas no banco de trás, pousa a bolsa,
abre a bolsa, escolhe uns trocos, levanta-se, soergue-se, estica o braço
e deixa-os cair tilintantes na palma da mão do adulto pedinte,
já de olho na próxima possibilidade. De repente, o pobre homem olha para mim
e, fitando-me agudamente numa pose de estátua, percebe que tive os olhos postos nele
prolongadamente a fim de captar toda a cena como num diálogo.
lkj
Regresso à condução. O semáforo abriu. Meu coração de pai lateja
refrescadamente pelo abençoado rebento, fragilidade da minha fragilidade.
Mas penso nas lambadas que desde há três anos a vida portuguesa me dá,
nas portas sucessivas que me fecha, as multas-cretinescas, o Fisco-animal,
azares de todo o teor, desemprego-filho de uma puta concreta e deliberada
e pergunto-me: estarei assim tão longe da capitulação
patente naquele homem implorativo?
lkj
Enquanto isso, sabe-se que o Ministério Público teve conhecimento
das ligações estreitas entre o BPN e o Banco Insular de Cabo Verde
em 2007, quando investigou movimentos de crédito suspeitos entre as duas instituições,
revelou à Lusa fonte do grupo Sociedade Lusa de Negócios (SLN). Continua a suspeição
e continua, ainda mais feliz e saudável, o anonimato-canalha de que tudo isto se reveste.
A Justiça, o Direito e a Diligência processual, como em tantos e tão famigerados
exemplos portugueses, continuam e continuarão cegos, moucos e mudos.

7 comentários:

antonio ganhão disse...

A nossa esperança é o Sócrates...

Anónimo disse...

Infelizmente essa imagem faz parte da cidade do Porto, assim como de Lisboa, e de muitas outras país fora..

É o Portugal que temos.. e cada vez mais ter um trabalho é uma benção!

Unknown disse...

Hola Joshua, no te he podido, contestar a tu comentario, porque estaba en ingles y yo no se leerlo, hasta que mi hijo me lo ha traducido, muchas gracias por lo que dices de mi blog. Tu blog es muy interesante, no como el mio que es muy sencillo y no hay que pensar mucho, espero que entiendas un poco el español. Un abrazo Rosa

Zé Povinho disse...

A miséria aumenta, uma visível outra escondida por vergonha. Há quem persista com os discursos do optimismo, quem critique e quem simplesmente se vá acomodando.
O dinheiro é finito e as prioridades estabelecidas são na defesa do capital, ainda que lhe chamem economia. Nem sei se me revolto mais com a má distribuição da riqueza, ou se pela ineficácia da justiça, mas de qualquer modo, deixei de confiar na classe política que nos dirige - para o abismo.
Boa semana
Abraço do Zé

Peter disse...

Belíssimo texto (lá está a bajulação...) foi com prazer que o li até ao fim.

P.S. - Já escrevi o texto contra o TGV. Um destes dias publico-o.

susana disse...

As pessoas ainda não perceberam que a lei do mais forte persiste. Vivemos numa selva de pedra e somos governados por animais que querem a nossa carne e roubam o nosso território. A única diferença é que passamos da "moca", para o computador, em vez de usarem peles, usam fato e gravata.

susana disse...

Candidatas-te a Robin dos bosques? Não te esqueças de roubar algum para mim....:)))