DELÍQUO DE PRAZER ENTRE "OS MAIAS" E "A RELÍQUIA"

Com que intensidade tenho lido para ti! Leio com a expressividade de um bom actor, desdobrado em múltiplos, Pessoa doméstico, heteronimizando de novo, vozeando mil atitudes e mil caracteres. Leio-te páginas e páginas de um delicioso Eça. Entretenho-te. Adormeço-te. Centenas de páginas que nos recordam estar tudo basicamente na mesma em Portugal de há 130 anos para cá. N'Os Maias, sou a voz que vergasta esse viscoso reles Dâmaso e sou aquele que te dá a rir das desventuras do Ega Mefistófeles com a sua Raquel Cohen. Faço-te ter a visão em que o Esgrouviado do Monóculo se vê transfigurado num boi puxando a carroça clássica onde imagina Raquel e Dâmaso, estirados, beijando-se repenicadamente. N'A Relíquia, faço-te vibrar com o impostor sacrílego Teodorico, o Raposão, ingénuo, libidinoso, interesseiro, cómico, e a sua titi, horrenda beata rica. Leio-te a paixão que te desperto. Leio assim por ser para ti. Por ser para nós.

Comments

Quint said…
E não te esqueças do vibrante contraste de "a cidade e as serras" onde, a certa altura, quase que sentimos pelas fauces dentro o cheiro dos caminhos rurais, das favas e do arroz doce.
rsrsrs... têm algo a ver com isso, também, os roubos invisíveis da moça singela de "singularidades de uma rapariga loura"

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