PARA CUMPRIR BEM ESTA VIDA
«O Vasco Santana era uma pessoa inteligentíssima, era um queiroziano, tanto assim que ele tinha uma quinta chamada Ramalhete. Ele dizia nacos inteiros do Eça de Queiroz de cor. Divertidíssimo. Bom bebedor, muito contente sempre. Feliz. O João Villaret era... Bom, naquela altura a gente não tinha um grande acesso às grandes figuras, havia uma grande hierarquia, uma grande distância, conviviam connosco, mas não muito. O João Villaret era uma pessoa que me fascinou, quando ele fazia uma revista tinha sempre bom-gosto em tudo o que acontecia, tinha uma marca especial. Além disso, considero que ele foi o único grande artista português de music-hall, talvez até mais que actor, e isto não é pejorativo de forma nenhuma. Era genial, com um piano, ficava uma noite inteira a fazer coisas, a cantar... Era brilhantíssimo. [...] Sim, sinto que as pessoas gostam de mim, mas ninguém pense que não tenho, não digo inimigos, pessoas que não gostam de mim. De resto, acho que um homem para cumprir bem esta vida tem que ter inimigos, senão não tem carácter, nem opinião própria. Não defende as suas causas, não se expõe. Durante a revolução fiquei de um lado e há pessoas que têm alguma mágoa por essa razão. [...] fui de esquerda, hoje não sou nada. Mas tenho que dizer que não sou nem de esquerda nem de direita, senão pensam que sou de direita.» Raul Solnado, revista PÚBLICA de 17 de Fevereiro de 2002
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