PESETEROS VESTAIS

Aos meus olhos e aos de uma vasta maioria a acordar rapidamente sob o cutelo da realidade por ele longamente negada e negligenciada, humana e politicamente, Sócrates tem todos os vícios e podres imagináveis e mais alguns por descortinar, embora seja uma questão de mais tempo porque isto é Portugal. Mas, para efeitos meramente simbólicos, os passos dados na questão PT não são nem irracionais nem absurdos como muitos sofregamente arengam. Simbolicamente, o assédio da Telefónica é ultrajante. Um lóbi francês, se assim hostilizado por um interesse espanhol, reagiria ainda pior. Um lóbi espanhol, se hostilizado da mesma maneira por um interesse espanhol, reagiria ainda pior. Se os accionistas portugueses traíram a posição inicialmente assumida, sem consulta ao Governo, pior para os accionistas peseteros portugueses. Se foram contra o que o Governo e a generalidade dos partidos nacionais entendiam ser a posição a tomar, pior para eles accionistas. Virgens vestais do capitalismo puro e duro, como Jorge Costa, bastante irritado e apocilgador da linguagem político-económica, chama ao trunfo golden share, usado pelo Governo, o esplendor do "capitalismo salazarista". Mas a verdade é que há «interesses nacionais» e a única pulhice é persistir na ideia de que a PT, a bem do "mercado hegemónico espanhol" pode e deve remeter-se ao seu microcosmos nacional e finar-se na mais completa e triste irrelevância decorrente da alienação da sua participação na Vivo, cuja margem de crescimento é interessantíssima, para quem conhece o fenómeno económico brasileiro e o respectivo contágio positivo na América do Sul. Não poderia estar mais de acordo com Santana Lopes e Telmo Correia ao dizerem que fariam o mesmo que o Governo putrescente de Sócrates. A arte de governar em liberdade é defender os interesses nacionais, anular a zona de pasto para as clientelas partidárias mas sem alienar os nossos interesses estratégicos aos interesses alienígenas, agressivos e estratégicos dos espanhóis. Portugal, embora retalhado, cortado e fatiado, isto é, economicamente na palminha da mão castelhana, ainda não está à venda.

Comments

Anonymous said…
Completamente de acordo. Não posso concordar mais.
A primeira oferta da Telefónica foi de 5,7 mil milhões de euros, depois 6,5 mil milhões e na passada 3ª feira foram para os 7,15 mil milhões de euros.
Fontes citadas pelo DEconómico referem que com uma nova subida (moderada embora) e algum retoque nas condições, a venda pode concretizar-se.
Ou seja, o preço pode subir ainda.
Ou seja, a intenção era comprar ao desbarato.
Ou seja, está-se a regatear que é uma vergonha.

E quando o Governo se insurge (com que interesses pessoais? Mas isso é outra questão ...) é apelidado de colonialista e pior.
E logo pelo o Financial Times, jornal inglês, dessa Inglaterra que dá-se ao desplante de recursar-se a adoptar o Euro mas que aponta o dedinho sobranceiro, britanicamente hipócrita, aos que não cumprem o direito europeu à risca!
Ou seja, chegou-se a um ponto de prepotência que já nem se disfarça.

E não se iludam que Portugal não está à venda: o patrocínio jurídico da Telefónica da PT em Portugal é assegurado por 2 sociedades de advogados de matriz espanhola ...

Costumo assinar os meus posts mas desta vez não, porque garanto que tenho medo de ser "saneada" ...

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