FREDDIE-MERCURYLY NO CHAMPIONS AT ALL!

As bolachinhas de água e sal que a minha filha me pede, «'achinha»
transformam-se invariavelmente, e num abrir e fechar de olhos,
naquela dispersão de migalhas sobre a alcatifa verde-escura da sala grande,
a lembrar, no céu negro da Caatinga, aquelas nítidas constelações que,
entre o Cruzeiro do Sul, tanto me fazem sonhar e nostalgiar.
lkj
Enfim, terei de aspirar essas estrelas vestigiais da minha divina menina mastigadora,
o que reclama o uso de um paciente aspirador. Sendo a minha vez de o fazer,
dou por mim a cantar instintiva e auto-ironicamente, por pura brincadeira,
o célebre 'I want to break free', imaginando o travestido Freddie,
enquanto para trás e para diante, manuseio
a longa haste do electrodoméstico barulhento.
É, no entanto, todo um céu contemplar a infância imaculada da filhinha.
Tirando os olhos de ela e passando a olhar o mundo paralizado e idiota
deste interminável Agosto, é a solidão que está por todo o lado,
é a vaidade o grande pasto que reclama atenção e exclusivo por todo o lado.
E a bloga é um evidente exemplo dessas fragilidades e carências todas,
basta exercer o dom da pesquisa para detectá-los facilmente.
lkj
O meu Porto anda numa apagada e vil tristeza: a decadência é tão humana
como arquitectónica: o campeonato desportivo já não nos sabe a coisa nenhuma.
Numa cidade turística, populacionalmente rarefeita, ausente e falecida,
deprimida e com desprimor, ser campeão da bola e desempregado crónico
parece o horizonte mais expectável para uma data de gente e por muitos e bons anos.
Não há líderes com suficiente e fundada filantropia. Não há iniciativas relevantes
que me barcelonizem a cidade e a região. O Norte voga e abafa.
O Belmiro ganha o dele! O Amorim vai bem, obrigado!
Eles e os demais seguem com os seus milhões e as suas milionárias perdas na Bolsa.
lkj
As pessoas mais velhas andam morenas metidas em cores inadequadas,
amarelos agressivos, rosas e verdes agressivos,
enfiadas nos seus calções de Agosto, passeando-se pelos litorais,
mais inconscientes e indiferentes a tudo que nunca.
Bocejantes, bojudamente rubicundos, homens quarentões e mulheres gordas
entopem os shoppings de Gaia, os bares chiques litorais de Gaia,
e toda a gente acelera desenfreadamente numa urgência ridícula
para se irem encostar na próxima fila lenta de automóveis
que leva a lado nenhum contemplativamente.
Debalde se tem pressa pelo litoral de Gaia,
numa noite quente, numa tarde com brisa!
lkj
E percebe-se claramente, ao passar por elas, pessoas, que, em Agosto,
Portugal fala francês na maior parte dos casos. As grandes conversas e debates que a nossa marcha litoral pode surpreender são afinal sempre em francês,
num francês ostensivo, sexual, prosódico, gorgolejante, especioso, pleno de tiques,
exibicionista, colonizador, feminino, comestível, jovem, fresco, feminino,
invitativo de coitos avulsos com essas moças invasivas portuguesas que vivem longe,
investidas do poder seductivo, pela língua francesa,
de chegar e inquietar à vontadinha a nossa sensibilidade quieta,
inócua, incapaz de crime, mas demasiado vibrátil
a esse derradeiro golpe baixo de sensualidade pela língua.
lkj
É quando a cómica tara-parafilia das línguas estrangeiras, que não o inglês,
Russo e Italiano, na personagem Wanda, do filme "A Fish Called Wanda" (1988),
resplandece verdadeira cá dentro à beira-mar.
lkj
Accionada em Wanda por Barrister Archie, personagem extraordinária,
aquando dos seus fragores e entusiasmos de contexto preliminar,
quando desata a declamar largos trechos literários naquelas línguas,
é fragilizador darmo-nos conta de que igualmente qualquer desconhecida
por quem passamos na frescura da beira-mar nos afecte afinal de um semelhante modo:
nada mais que pelo cacarejar de uns francesismos ou lusismos,
revestidos da prosódia galicista.
lkj
E virem elas tirar-nos afinal do bom sossego neutral, contido,
de não estar para alojar taras ou parafilias com base em música de língua nenhuma.
E virem elas afinal excitar-nos indelevelmente na fracção de segundo
em que passamos rente ou agora mesmo
só com o pensarmos nisso como quem toca e se apossa
do corpo da língua.
+%E2%80%94+Pieter+Bruegel+(1564-1638)+%E2%80%94+Kunsthistorisches+Museum,+Viena.jpg)
Comments