terça-feira, setembro 23, 2008

MAGNÍFICO MESTIÇO MACHADO DE ASSIS


Na Faculdade, tudo o que ouvi, li e aprendi de Joaquim Maria Machado de Assis
me deixou um particular encanto. A vivacidade e modernidade da sua escrita,
o recurso a um certo e especioso misticismo, por vezes,
a narrativa magistralmente conduzida. Tive sorte com os professores
Francisco Topa e Arnaldo Saraiva, iguais apaixonados e sabedores
de toda, absolutamente toda, a matéria brasíliana
e não apenas ou exclusivamente da literatura.
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Uma colectânea de contos machado-de-assisianos,
que fazia parte então do Programa de Literatura Brasileira,
deixou no meu imaginário marcas saborosas e profundas da cor local
bem como a faculdade que tenho e melhor desenvolvi de, só pela leitura,
pairar afavelmente pelos lugares onde os humanos entreteceram a sua história.
Neste caso, pela fervilhante cidade do Rio de Janeiro
dos finais do século XIX e inícios do século XX.
Nada mais marcante que os contos Missa do Galo
e A Cartomante, história dramática de um trágico triângulo amoroso,
sobretudo quando um dos vértices, o impulsivo e ingénuo Camilo
acede a encontrar-se com o seu amigo Vilela, confiado no erróneo e ambíguo
alvitre de uma misteriosa e perturbadora cartomante sobre um bilhete recebido:
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«A verdade é que o coração ia alegre e impaciente,
pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir.
Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar,
estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito,
e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
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Daí a pouco chegou à porta de Vilela. Apeou-se,
empurrou a porta de ferro do jardim e entrou.
A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra,
e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
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― Não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas;
fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior.
Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror:
― ao fundo, sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada.
Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver,
estirou-o morto no chão».

3 comentários:

Marcos Santos disse...

Sabe Joshua...

A verdade é que algumas pessoas não são desse mundo, ou não são dessa época, não sei bem...mas Machado era uma dessas pessoas.

Por sua história de auto-didata, de um mestiço em uma época em que se era cruel com os diferentes. E Machado era além de mestiço, gago e epiléptico. Talvez a crueldade social da época tenha sido o combustível que o impulsionou.

Abraços
Marcos

Blondewithaphd disse...

E sabes da controvérsia entre ele e o nosso Eça? Era estilo: the clash of titans!

Anónimo disse...

Um mestre ... devorei recentemente num ápice os seus CONTOS agora dados à (re)estampa!