terça-feira, setembro 23, 2008

TRAGICOTRAVESTIOGRAFIA


Deixa que me ria, meu caro amigo, de tudo o que me contaste,
depois de, por uma vez na tua vida, te teres tão enganado na substância
do teu engate. Ambos sabemos como tens lutado por ganhar a tua vida,
transpirado, sangrado na construção civil, as lutas, as zangas, os perigos e riscos:
despedimento e recrutamento estão sempre ali, ao dobrar do tempo.
Tens vencido e singrado. Mas às vezes é duro pensar na cruz quotidiana,
no que falta transcorrer, na solidão, no desnorte.
lkj
Sozinho na cidade, só, muito só, resolveste pela primeira vez, neste país,
avançar para a conquista furtiva do que da espessa fauna humana se enclavinha pela noite.
Nada que desconhecesses de outro hemisfério, só que noutro hemisfério
não terias de pagar. Querias uma prostituta, mas não sabias até que ponto,
na esplendorosa sofisticação europeia, os sentidos te não enganariam.
lkj
Passaste revista ao que se perfilava na avenida. Uma agradou-te.
Acertaste com ela termos, estatutos e condições.
Rumaram ao quarto barato. Nem quiseste saber
das cores berrantes pespegadas nela que te berravam «Erro! Erro! Erro».
Pagaste adiantado e foi quando tu te despias e aquela boazona se foi despindo,
e foi quando os seus seios se revelaram afinal coisa irreal,
e foi quando baixadas as suas lingeries no plural
um apêndice plural surdiu dali, escarninho e impiedoso, bambo, negligente,
porque afinal ela se transformara no que era, um homem,
foi então que te desesperaste, engoliste em seco, aflito,
e quiseste ficar por ali, que o teu dinheiro fosse devolvido.
lkj
Nada a fazer, meu caro amigo. Ela, ele!, disse que não devolvia.
Não te ficaste. Foste para cima e exigiste. De repente ela, ele!, gritava por socorro.
Disse-te que não estava só e não te atrevesses.
Que deverias saber que aquele era o sector dos travestis.
Sabias lá. Para ti estava tudo misturado e já estavas demasiado constrangido
para raciocinar com qualquer frieza, desconfiando do embrulho.
E exigiste novamente o teu dinheiro.
«Quero o meu dinheiro... os meus trinta euros, já.»
Mas ela, ele!, gritava que não. Tinha já uma soqueira enfiada nos dedos
para te partir os dentes, se insistisses. Um outro travesti veio sobre ti.
Já eram dois. És macho e empeitaste contra os dois
armado do capacete como escudo e espada, queixada de burro nas mãos de Sansão.
A solidariedade travesti desabaria ainda mais sobre ti se insistisses pelo teu dinheiro.
lkj
Usaste o teu capacete e amassaste aqueles corpos maquilhados, levaram a doer,
mas as janelas em volta todas se abriram em plena meia-noite portuense.
Começaram a vaiar-te, a cuspir-te e a insultar-te.
Recuando, vencido, montaste a tua moto e foste à tua vida
apenas sem trinta euros, achando tragipiada ao teu tragiequívoco,
ao teu tragiazar, tua tragédia travestida, por uma vez na tua vida.
lkj
Que bom que disso te ris, caro amigo!
Deixa que disso me ria contigo!

5 comentários:

Marcos Santos disse...

É meu amigo...

Essa é uma boa história para Ronaduchos contarem.

Mas estranho...Ronaldo levou três horas para perceber-se do apêndice da "moça".

Joaquim Alves disse...

Pois é Joshua, vai sendo cada vez mais dificil distingui-las/os pelo "envólucro exterior"...

Tiago R Cardoso disse...

estivestes bem sim senhor, nem sei como isto me passou.

Vou ler várias vezes, mas logo à primeira vez gostei.

antonio ganhão disse...

Não tinha percebido que era para ler, como lhe faltava a garra de outros tempos não li até ao fim.

Desculpa. Por vezes esqueço-me que estás à espera que eu te pegue ao colo.

♥ Denise BC ♥ disse...

Olá, Joshua
Como falamos aqui "essa Coca-Cola é Fanta".
Isso se passou por aqui, não faz muito tempo, com o Ronaldinhoo e/ou Ronalducho, para ele ficou bem mais caro.
Agradeço a sua visita em meu espaço.
Um abraço, Denise