domingo, setembro 21, 2008

UM GLORIOSO TAGARELA


Dêem-lhe um público, ele discursará como se fosse
a incarnação portuguesa de um novo Obama.
Foi o que aconteceu hoje. A encenação foi digna de uma convenção Democrata.
Vieram de longe e de todo o País os 13 mil apoiantes
que esta tarde encheram o Pavilhão Multiusos de Guimarães
e é muito natural que não tenham sido baratos.
lkj
Se houve político sovado na opinião pública, na bloga e na imprensa
foi José Sócrates: três anos de vida dura para um duro.
Se houve político protegido e salvaguardado
foi ele também, teoricamente o homem do diploma instantâneo da Independente,
teoricamente o homem das casas aberrantes da Guarda,
teoricamente o homem dos telemóveis furiosos atirados ao chão,
teoricamente o homem que resistiu, mais que qualquer outro, às marés negras
que, após os obstáculos à Opa da Sonae sobre a PT,
sobrevieram sobre si, uma após outra.
kjh
Não duvido das suas boas intenções para Portugal, mas duvido dos seus meios,
duvido dos processos de lisura em democracia,
da sua abstenção de pressões sobre os media, quase todos reféns do Estado-PS,
e duvido ainda mais dos méritos da sua governação, porque ao longo de três anos
praticou-se em Portugal uma política de escondimento da verdade
e da não-transparência sobretudo em matéria económica e em muitos outros domínios:
só os restos de uma sociedade civil ainda incipiente e castrada
pela hipertrofia do Estado em quase todas as matérias e domínios
de acção, actividade e decisão pode impedir que erros estratégicos fossem cometidos,
como o da OTA.
Evidentemente que em torno do PS é o deserto:
dir-se-ia que quase toda a oposição abraçaria de bom grado a partilha do poder
com o PS democraticamente atrofiado de José Sócrates e podemos perspectivar
com a maior das facilidades um Francisco Louçã ou um Paulo Portas
como muito prováveis vice-primeiro-ministros emergindo das próximas legislativas,
uma vez que se mantêm particularmente inexpressivos e incapazes
no passar a imagem de qualquer proposta alternativa.
lkj
No meio disto há um partido que comete um absurdo haraquiri político
e que ainda não compreendeu que se vai extinguir,
caso não adopte um posicionamento bem mais firme,
interventivo, programático, de ruptura. Esse partido é um PSD moribundo,
que provavelmente é um cadáver convencido que está vivo
e que por vezes comparece a simular existência, estrebuchando como quem se fina
interminavelmente: quem o matou? Os intelectuais manobradores e conspiracionistas
ao retirarem à sensibilidade das bases a palavra, a intuição e a experimentação
para fabricaram a sua credibilidade, a sua liderança, o seu agora é que é,
destruíram a confiança na democracia interna dos partidos:
fracturaram e assassinaram com requintes suicidários um Partido agora imberbe,
agora inócuo, agora zero para quem as próximas eleições serão a merecida
pedra tumular porque um partido mais sensível aos tachos
e menos ao clamor das pessoas não merece existir
nem sequer o poder e a expressão que lhe deram no passado.
lkj
José Sócrates venceu as últimas legislativas já por esgotamento
interno e por fractura do PSD: o ninho de víboras em que se transformou
abriu uma fenda por onde um raio de esperança poderia entrar.
Mas foi um consulado que confundiu reformismo com agressividade
e afrontamento de diversos sectores corporativos. Que fracturou o país
em vez de o federar em torno de objectivos reconhecíveis.
Durante três anos, sentimo-lo bem mais próximo dos lóbis financeiros
e industriais de topo e com margem para uma boa globalização,
que realmente com quaisquer preocupações sociais ou sensibilidade
que se pressentisse. Um governo elitista, para elites, medíocre
com os olhos e o acento postos nos casos ainda raros de excelência em Portugal.
lkj
A questão da avaliação aos docentes foi um ponto de viragem no discurso
e na violenta tonalidade pseudorreformista na língua de toda a gente:
tratava-se de uma fórmula perfeitamente inaplicável e temporalmente impossível,
gravemente burocrática que, pela oposição que mereceu,
se viu transformada numa fórmula amena, adaptativa,
passível de aperfeiçoamento aos mais diversos contextos e exigências.
lkj
Mas foram três anos onde faltou o mais importante e que explica
muitos dos problemas de que enferma a nossa sociedade e a nossa economia:
a reforma cabal e absoluta do PRACE, que superficial como foi, não tocou
a fundo na obscenidade e sangria dos quadros de nomeação política,
nas abundantes sinecuras com os partidos do Poder vão sossegando
as suas sedentas clientelas: esses lugares que têm mantido o PSD calado,
esses lugares que têm convertido o PS num óbice ao combate a sério
à corrupção em todas as formas e em todas as frentes.
lkj
Em suma, Sócrates não é qualquer Obama.
O PS foi mais violento, mais duro e mais insensível,
mas os vícios do Regime, os desperdícios, o poder exercido
pelos Fortes, para os Fortes e com os Fortes
continua intacto, mais robustecido que nunca,
enquanto o contexto internacional e o laxismo económico
se encarregam de cobrir com um manto de desemprego,
de emigração e de descrença um País que não consegue
sorrir e sentir-se óptimo, conforme o seu discurso do País Paradisíaco
das Maravilhas deixa entrever.
lkj
Será o futuro de Portugal transformar-se numa alínea de Angola?
Será então que o seu futuro é converter-se numa alínea da Venezuela?
Um porta-aviões Russo? Um parque de diversões Líbio?

1 comentário:

quink644 disse...

O que fazer, como vamos ficar e com quem tudo isso é, dia para dia mais angustiante e não augura nada de bom... Houve tempos em que ainda tive a esperança de uma pedrada no charco do chiqueiro que é este país, agora nem isso... Faz-me lembrar aquela letra de Chico Buarque Pedro Pedreiro

Chico Buarque
1965

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficanto pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro esta esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro norte
Pedro nã sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também,
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)
que aqui te deixo...

ps: a música que a acompanha é muito bonita.

Um abraço