domingo, janeiro 17, 2010

ALEGORIA DOS PULGÕES


Ainda não compreendi esta contradição muito portuguesa de em termos gerais, ao nível da Saúde, ser um facto o emagrecimento da contratação de enfermeiros e outro pessoal mais ou menos especializado, rarefeito aos mais diversos níveis, no sector público; ser um facto que se está mesmo perante uma evasão maciça de médicos para o chamado Privado e para a chamada Reforma Antecipada; e, no entanto, haver sempre lugar para mais um gestor, para mais um assessor, para mais um amigo em boa posição para a ceva, a engrossar as hordas de pulgões aí, como no demais sector público português: dos Sistemas de Saúde ou da Educação, da REFER à TAP, é só fazer as contas, tudo em que se possa pensar de Público e dá prejuízo por sistema tem agregado a si o peso incomportável de um excedente sonso e ronceiro, bem escondido para não escandalizar: gestores redundantes, pessoal de mão e de confiança política a locupletar-se ali por um dado período de saque convencional, com ajudas de custo por dá aquela palha e vencimentos principescos, antes de saltar para outra coisa qualquer pública, não vá estranhar-se o andamento da coisa e o fabuloso currículo às vezes obtido instantaneamente. Conhecido isto, no meio da especificidade do nosso desemprego tantas vezes oportunisticamente deflagrado para limpar do organigrama umas despesas com pessoal miúdo melhor empregues numas férias no Caribe, no cerne da precariedade geral mais abjecta, uma marca portuguesa, não deixa de ser digno de leitura e meditação toda esta espécie de petição pungente de Eduardo Pitta à Ministra Jorge: «E que tal triar uns milhares de desempregados, em princípio os mais jovens, pondo-os ao serviço dos hospitais civis? Provocação? Nem por sombras. Falo muito a sério. O SNS atingiu o ponto de ruptura em matéria de recursos humanos. O número de auxiliares de enfermagem é extremamente reduzido para as necessidades dos grandes hospitais. Quem nunca passou seis horas seguidas em Santa Maria ou São José, fosse das 7 da manhã à uma da tarde, fosse das 9 da noite às 3 da madrugada, não sabe do que falo.»

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