LAVAR A ALMA COM MARADONA

Parte da grandeza carismática de Maradona advém da sua loucura contra-poder. Destemido no campo e fora dele, a polémica é-lhe tão congénita e instrumental como os mind games de Mourinho que mais ninguém supera. Um homem capaz de partir a podridão da FIF(i)A toda com duas ou três frases repletas de ironia e três ou quatro irreverências inesperadas. É obrigatório admirar completamente este homem. Ora, quando vi e ouvi Diego Armando Maradona, seleccionador da Argentina, ontem, afirmar que Portugal foi eliminado pelo árbitro argentino Hector Baldassi, nos oitavos de final diante de Espanha (0-1) e considerar horrível a actuação do juiz porque Baldassi não deixou Portugal chegar à baliza da Espanha e porque cada bola dividida era para a Espanha, senti a alma lavada e um consolo tremendo, apesar do diagnóstico que vai pendendo claramente contra a tirania e as equipas encolhidas de Queiroz. Sem equipa alternativa por que torça, eliminado Portugal e eliminado o Brasil, de repente dou por mim a pender para a Argentina por causa de esta voz que se levanta e nos dá uma perspectiva renovada sobre esse jogo. Mas Maradona disse mais: «Sou amigo de Baldassi, mas para mim foi uma arbitragem horrível». Sim, para ele, mesmo a expulsão de Ricardo Costa foi injusta, assim como considera ilegal o golo de Villa, por ter sido obtido fora de jogo: «Todos dizem que o golo de Tévez estava em fora de jogo, mas o de Villa foi um fora de jogo tão grande como este Mundial». Enfim, El Pibe levou-me à comoção e ao êxtase quando acrescentou que «O árbitro estava num mau dia, mas o auxiliar era o Andrea Bocelli.» Éramos muitos à mesa, entre copos e picanha, a discutir Queiroz e Ronaldo. A defender o jogador. A massacrar o treinador. E Maradona, com a sua análise impiedosa, surde da TV, a consolar-nos como água fresca no deserto. Quem não está nada contente com ele são estes, os do costume. Ainda bem que lhes desagrada Maradona, a esses donos do mundo, gloriosos usurpadores de Olivença, gloriosos reclamantes de Gibraltar, gloriosos detentores de Ceuta e Melilla. São bons nos dois pesos. Espanha jogou melhor, mas tudo foi urdido para que, mesmo jogando melhor, não sofresse dissabores. Para isso, nada como um hábil Hector Baldassi como outrora um inesquecível fils de pute Marc Batta, 1997©.

Comments

floribundus said…
a bola é uma fuga à miséria do dia a dia.
el Pibe já conheceu esses tempos.
tem a sabedoria de quem levou muito pontapé no cu.

nos anos 50 dizia José Szabo
«já viu de merda fazer marmelada?»
é o rectângulo que temos.
a pocilga continuará per omnia saeculum saeculorum
Anonymous said…
As minhas raízes argentinas impedem-me de ser imparcial.
É mais forte do que eu, quando aparece El Pibe, com o seu ar contente e cigano, vêem-me as lágrimas aos olhos.
É de uma bondade profunda esta pessoa, tão inconsciente, vulnerável, emotivo, espontâneo e politicamente incorrecto, quanto generoso e entusiasta.
Adoro-o !

Virginia

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