O EXÍLIO DA PALAVRA

Concordo com o PM. Durante a crise de Agosto, falou quem deveria ter falado.
E também concordo com o só agora ter resumido o tempo que ficou para trás
nesse axioma «falou quem deveria ter falado».
Porque aquando do deflagrar de tanto e tanto crime, quotidiano,
brutal, sucessivo, torrencial, «falou quem deveria ter falado»
no longo e fogoso mês de Agosto: pelo governo, o Ministro Rui Pereira,
pela oposição, o dr. Aguiar Branco, Jerónimo, Portas e Louçã,
o Dr. Magalhães pelo governo ainda, o dr. Vitalino pelo PS.
lkj
Tratava-se do mês de Agosto, um mês onde a falta de vigilância,
de sistemas de segurança suficientemente robustos, autónomos, testados,
capazes de dissuadir, não foi apenas uma questão técnica,
de falta de meios, mas de todo conjuntural. Estávamos em Agosto.
E não cabe ao PM discursos em pânico contra o pânico,
de confrontação com a realidade crua, sangrenta,
das mortes e perdas e factos dolorosos, de um apelo às tropas,
de um insuflar de ânimo aos dele desprovidos durante a borrasca.
Cabe-lhe somente surfar as boas ondas do sucesso e do sorriso.
Nada de querelas com a realidade.
Nada de franzir o sobrolho por causa da agitação social:
com essa lama não se sujará.
ljl
Se os políticos se desmobilizam em Agosto, tudo se desmobiliza em Agosto.
Por isso, soou a tardio e a estranho, só no fim do passado mês,
uma vez mais, de Agosto,
terem-se armado operações stop por todos os becos do país,
numa demonstração de força e de crivo, com detenções de norte a sul
e grande respeitinho nos automobilistas ao passar.
Foi só no fim. Foi só quando já não era preciso.
Foi apenas no finalzinho do mês desactivador de tudo que é Agosto,
quando a guarda baixa, que o Estado despoletou e activou e accionou
os meios possíveis para sinalizar «Presente».
lkj
Ficou caro, mas fez-se. Para que as polícias sejam polícias e actuem,
era preciso pagar, pagar extras, pagar outras horas, pagar para fazer o inabitual.
Fez-se. Pagou-se. A polícia saíu à rua. Deteve. Multou. Expatriou.
Mas nada de extravagâncias. Agora podem voltar para a caserna e aos Papéis.
lkj
Enquanto o mês de Agosto sangrava, de facto nem José Sócrates
nem Manuela Ferreira Leite zumbiram um 'ai'. E aquilo não era só o Jogo do Sério,
um com o outro, ou os Olímpicos do Silêncio,
a ver quem primeiro quebrava esse braço de ferro e perdia o campeonato.
estar mais ausente e ser menos banal que o outro, calando, calando muito.
Porque, depois de Menezes, quanto mais ausente, mais credível, mais sério e mais oco.
lkj
Ora, como agora mesmo se viu, essa taça de latão e essa medalha de gesso
ficaram com MFL porque Sócrates falou. Bravo!
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