terça-feira, dezembro 09, 2008

RECIFE DO OBLÍVIO



Quem passe por aquela avenida, onde a parangona do BCP é a mais vistosa,
ou então pelo cruzamento central da Freguesia A ou Y tem, dia após dia,
o peculiar espectáculo de uns homens tisnados,
encostados à porta de um ou dois cafés,
quarentões esguios, fumando e espreguiçando-se como gatos sob um sol gélido,
enquanto como que conversam, silenciosos a maior parte do tempo
e mais leais e solidários entre si que esposos arqueologais
sob tédio dos dias.
lkj
Magros e enrugados, dentes bizarros e amarelecidos, cabelos loiros heavy metal
ou negros, habituados a um ócio e a uma rotina ociosa, casa/café/casa,
que vem, com toda a certeza, desde o século passado de derivas tóxicas
e desdéns anarquistas com quem trabalha e se afadiga grotescamente por sustento,
lembram-me ovelhas sem pastor e pastores sem causas, encalhados
num recife de recusas, de enganos químicos, de erva fumada e enfunada.
O ar vulgar e a roupa coçada, aquela preguiça profissional e inaptidão convicta
fá-los meus parentes de alma: tenho a alma coçada
e o coração vulgarizado de ânsias velhas todos os dias viúvas e virgens.
Na verdade, estou cansado e estou doente, dói-me ser esquecido.
Eu, um pantomineiro de sofrimentos reais e angústias que me rasgam,
reconheço que é duro ser esquecido, um esquecido, todos os dias irrelevante,
a cada manhã faminta e abandonada, tal como eles.

1 comentário:

goooooood girl disse...
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