segunda-feira, dezembro 29, 2008

TIROS, FARPAS E FLECHAS



1. Era muitíssimo mais fecundo continuar caladinho a fazer propaganda interna que vir produzir ruído e palavrório, tendo em conta a sua rigorosa insignificância em todas as matérias de cariz internacional sobre as quais Portugal se pronuncie: nada mais sinal de despreocupação completa entre o Executivo que alardear preocupação e por isso mesmo se o Governo português está a acompanhar com "a maior preocupação" a situação em Gaza, participando o ministro dos Negócios Estrangeiros amanhã numa reunião convocada pela Presidência francesa da UE para debater a crise no Médio Oriente, isso quer dizer que não vai fazer nada, não pode fazer nada, nem lhe interessa fazer nada.
lkj
2. Espera-se, com enorme cepticismo que os advogados que representam os clientes do Banco Privado Português (BPP), que hoje apresentaram uma providência cautelar para impedir o banco de usar o empréstimo de 450 milhões de euros, esperem em vão qualquer decisão de um juiz seja em "meados de Janeiro" seja depois: será divertido constatar em que conta se têm os tais depositantes, arrolados ou voluntários nas grandes jogadas de casino e investimentos no escuro.
lkj
3. Enquanto isso, o Banco Popular Portugal anunciou hoje um aumento de capital de 200 milhões de euros reservado ao Banco Popular Español, a casa mãe. Em comunicado da instituição que a Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) divulgou, o Banco Popular Portugal refere que com a operação hoje aprovada em assembleia-geral, o capital social do banco deve subir de 176 para 376 milhões de euros. Na sequência do verbo de encher político, que se farta de dizer o que fará, mas não faz, a operação representa também "um reforço inequívoco da solvência e cria condições objectivas para continuar a crescer em Portugal, financiando a economia e os agentes económicos, em particular as pequenas e médias empresas e os particulares", segundo o mesmo responsável.
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4. A ASAE e a PSP são aquela máquina. Fazem o Estado facturar o que vai perdendo nas Directorias Gerais de Fachada, onde se esfumam mais recursos que os Estados Unidos consetem para os mesmos serviços e o mesmo tipo de gestores. Só a PSP efectuou 634 detenções no decorrer da operação "Polícia Sempre Presente - Natal em Segurança 2008", uma operação de fiscalização que se realizou durante o mês de Dezembro e mobilizou em todo país 10.998 agentes. Quem poderá queixar-se de esta produtividade de Natal? Aguardemos pelos números do Final do Ano.
kjh
5. Sinal dos tempos e rastilho de forte convulsão social futura é o número de trabalhadores afastados em processos de despedimento colectivo que aumentou, nos primeiros dez meses do ano, cerca de 30 por cento quando comparados com os números de 2007. Os dados da Direcção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho revelam que o peso do número de trabalhadores abrangidos está a crescer significativamente. Definitivamente, o trabalhador-colaborador está ali a atrapalhar o lucro esmagador do investidor. Por tipo de empresas, foram as microempresas que geraram a maioria dos processos de despedimento (76 por cento do número de processos). Mas foram as médias e as grandes empresas que criaram mais desemprego – respectivamente 973 e 1014 trabalhadores, dos 2979 trabalhadores. Vai haver molho. Isto só pode dar em grande ranger de dentes e confusão.
kjh
6. Se a moda pega, as desistências de grandes investimentos alcançados e acordados vai ser banal em 2009 porque o medo de perder assim como a impossibilidade de obter financiamento infecta muita gente, pelo menos tal é o exemplo do consórcio Multi Development/Lena Construções, que ganhou o concurso para a construção de um mega-centro comercial na cidade de Leiria, e que anunciou hoje que desistiu do projecto devido ao atraso na adjudicação e à conjuntura económica.Em comunicado, o consórcio invoca um "desajustamento do projecto à realidade, devido ao atraso na adjudicação" e às "muitíssimo adversas condições económicas e financeiras da conjuntura nacional e internacional" para se desvincular do projecto Forum Leiria.
lkj
7. Quando as coisas estão tremidas, nada como uma boa tempestade para atrapalhar, pelo menos, mais um bocadinho: a SATA cancelou hoje 15 voos entre as ilhas açorianas, devido ao mau tempo que atinge o arquipélago, disse a transportadora aérea açoriana. Até às 16h00 locais (mais uma hora em Lisboa) foram canceladas ligações entre as ilhas de São Miguel, Pico, Terceira, Faial, Flores e Corvo.
lkj
8. Boas notícias para quem gosta de natureza, mesmo aquela toda geométrica porque gizada pela má consciência dos homens ao longo de décadas de desleixo e clandestinidade: A Ilha de Faro vai ter novas dunas nos espaços demolidos, no âmbito de um projecto orçado em 50 mil euros que venceu o concurso público de ideias para requalificar aquela zona do Algarve. O vencedor do concurso público, o arquitecto Nuno Brandão Costa, propõe a criação de "novas dunas nos espaços demolidos com o objectivo de iniciar o processo de renaturalização da ilha". Novas construções para realojamento dos habitantes da Ilha de Faro, praças, novos acessos à praia, apoios de praia e cais na ria também fazem parte do rol das propostas de Nuno Brandão Costa.
lkj
9. De repente lembramo-nos de que o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, existe. É um pouco o efeito Barroso: tão insignificante que só por vezes damo-nos conta de que existe e cumpre o seu papel decorativo que não é para levar a sério. Indiferente aos actos provocatórios do Hamas, Ban Ki-moon não anda na lua-moon e reiterou hoje o seu apelo ao fim imediato da violência em Gaza, considerando-a "inaceitável"."Estou profundamente preocupado com a actual escalada de violência em Gaza e em seu redor. É inaceitável", disse Ban Ki-moon esta tarde em conferência de imprensa na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. Imediatamente, Israel, numa prova de grande respeito institucional, continuou as suas tarefas de limpeza de Gaza, as quais, tal como aconteceu com o Grande Tsunami Asiático, correm melhor em épocas de particular festividade ocidental e grande desmobilização cívica por razões de força [gastronómica e preguiçosa] maior.

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