SUBTIL TERROR BRASILEIRO
Pouca coisa escapa ao olhar sábio e experimentado do poeta brasileiro Ferreira Gullar. Parece que, lendo-lhe a entrevista ao i, se consolida a impressão de que há um íntimo nexo cultural entre as políticas do PT de Lula, nos seus excessos de zelo ou de zero, e as políticas do PS português, liquidatário de quase tudo o que há de identitário e merecedor de dignidade estável (Língua Ortográfica, Educação, Justiça, Vida...). Ambos os partidos e ambos os regimes aspiram ao tóxico controlo abafador de consciências opositoras; aspiram ao domínio dos negócios, desde os media a qualquer coisa que se mexa e mereça a oportunidade do oportunismo. Diz o poeta: «Num momento em que, no mundo, o socialismo real acabou e a visão socialista deixou de ser a grande utopia, de repente, aqui na América Latina surge um pseudo-socialismo que, na verdade, muda a relação que havia entre o socialismo que era um conflito entre a classe operária e a burguesia. Agora é entre pobres e ricos. E isso resulta na criação de governos populistas que, na verdade, enganam a opinião pública e que cerceiam as liberdades. E uma das tendências é reduzir ao máximo a liberdade de opinião, como se está vendo na Venezuela. Aqui no Brasil não aconteceu, pelo menos por enquanto, mas houve tentativas de controlo da opinião pública, de criar conselhos de imprensa sobre controlo do governo. O Lula sonhou em fazer, mas não consegue porque o Brasil é um país muito mais complexo e muito mais avançado. Mas não se sabe o que vai acontecer se a Dilma [Rousseff] for eleita, porque eles já se estão apropriando de muitos sectores. A Petrobrás é uma empresa do povo brasileiro e virou propriedade dele [Lula]. Agora mesmo, na FLIP, pelo facto de terem chamado o Fernando Henrique Cardoso para fazer uma palestra retiraram o patrocínio. Só se patrocina se a FLIP não aceitar figuras que sejam adversários do governo? Estamos onde, na ditadura? Aliás a ditadura sobre esse aspecto é muito mais tolerante do que o governo Lula. Todo o mundo que se opõe a ele vira inimigo. Agora, usar o dinheiro público da Petrobrás para fazer política é uma coisa ameaçadora. Eu tenho pavor que a Dilma ganhe essa eleição porque ela é uma invenção do Lula. Ela não é política, não entende de nada; é simplesmente uma marioneta que Lula quer eleger valendo-se da sua popularidade, que vem do populismo, que vem de fazer bolsa-família: de dar dinheiro público para 40 milhões de brasileiros, pobres, então isso é uma coisa muito grave, é um retrocesso muito grande. Eu vejo com muita preocupação o que está acontecendo aqui.»

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«depois de eu, o delúbio»