quarta-feira, maio 31, 2006

Perante Isto Não Há Lugar à Mesquinhez







Relativizarmo-nos
para que nos demos o justo absoluto
falta.

Falta lembrar que há incontáveis mundos,
assim como o nosso,
onde Bem e Amor
se organizam
e articulam
numa paciência
impaciente,
silenciosa,
discreta,
poderosa
por contaminarem de Glória
e Vida Eterna
todo o Cosmos.

More em nós uma
fome por que a Luz Divina
irrompa por todo o lado
e nos traduza
absorva no que Ela É.


Joaquim Santos

terça-feira, maio 30, 2006

Seio Possível, Bem Possível, sei-o bem















Às vezes, só depois de ter havido deserto e sede
é que vem o ninho,
o aconchego, seio dado, amamentador.

Eu tenho-te e por isso nada me falta,
amor meu, três em um, mil milhões num só corpo e coração,
mulher minha,
meu solo.

Vieste à minha vida
saciando o meu deserto imenso,
a minha imensa sede.

E demos fruto.

E bebemos a cada dia
esta paz tão feliz,
sossegado Céu
de nos amarmos.


Joaquim Santos

O Futebol é o Ópio do Povo



... E nós adoramos o Futebol.

Obviamente que ser povo implica ter de se ter, por pura necessidade, algum ópio.

Se efectivamente, no passado, se pôde dizer que a religião, ao serviço do império, ao serviço da nação, narcotizava as massas para que vivessem numa submissão acarneirada fosse às lógicas hierarquizadoras do social, estanques e impositivas, fosse servindo os propósitos de domínio e ganho de uma elite cunhada pela vontade de Zeus;

e que sob o pó dos tempos, por vezes caucionava anestesiantemente a exploração do Povo por parte do capital desumano, guloso por mais capital, porque era mester e fatal que assim tivesse de ser;

e que, oxidando, havia deixado de ser causa libertadora do ser humano para passar a ser, genericamente e apenas, um dictat puritano, espartilhador do indivíduo, um código hipócrita e fechado, de morais mentirosas e hipócritas e oprimentes, porque aplicadas puritana, espartilhadora, hipócrita, fechada e mentirosamente...

... a verdade é que depois veio a Ideologia e o Partido Político e, sobretudo, o líder político em nome do Povo, líder político que tomou o lugar do clero para oficiar novos cultos e estabelecer novos espartilhos.
O Partido também foi, portanto, o ópio do Povo, numa clara mudança de cheiro, permanecendo igual a defecção, porque ainda não tinha chegado o Futebol, as estrelas do Futebol, o marketing em torno do Futebol.

Hoje temos o Futebol e as sugestões colectivas, a colectiva histeria decorrentes do Futebol.

E esse ópio dá-nos a pedra de parecermos novos, numa vontade de, por um mês e enquanto a nossa equipa lá estiver, sermos mais humanos e sorrirmos mais, de deixarmos passar à nossa frente, nas filas, quem venha pela esquerda e pela direita por terem cachecóis e andarem com T-shirts alusivas à Selecção.

Sim. Hoje temos o ópio do Futebol e temos o ópio das vozes de comando do Futebo, cheias de carisma, cheias de sotaque, autoritarismo e marisco.

O que é que falta a Portugal, quando há um Chocolatari a levantat-nos de tal modo o ânimo até às estrelas que de repente já não estamos desempregados nem andamos tesos como carapaus?

Hoje temos também esta coisa especiosa que é a Publicidade, ela, que é poética, ela, que é catequese quase do subtil, do belo e do insólito, e que, de tão bela e cómica por si mesma, nos faz esquecer que não podemos comprar aqueles carros e demais bugigangada cara.

A Publicidade também é o ópio do povo: faz-nos comprar cromos, chicletes e lexívias que dá vontade de beber por causa do rótulo, das moças e da música na TV.
Hoje o opiário não são as Igrejas nem o Comité Central. Hoje o opiário são as televisões e os estádios. Ali se aliena e distrai o Povo do que interessa. Ali se vicia e se gera paixões.

As paixões afastam o homem do bom senso. A falta de bom senso conduz aos acidentes na estrada depois de um álcool demasiado celebrativo ou demasiado frustrado, consoante o resultado do desafio.

Se o futebol e a publicidade já alienavam e continuarão a alienar o Povo, e muito claramente as filhas do Povo, a verdade é que, com as telenovelas da TVI, há ainda muito Povo e por muito tempo a alienar.

As telenovelas da TVI são o ópio do Povo.
E páro já a seguir não vá imitar a deriva verborreienta do Meditador metralhador, que desagrada à Esquerda naftalina e à Direita caruncho do Desabafe.

Joaquim Santos

Avaliar os Pais


Claro que quando a Medusa Ministra sinistra e 'sesuda' anuncia o novo menu de avaliação dos Professores, os nossos Sindicatos bufam, mas preparam-se para comer e calar.

A negociação está já viciada à partida, a classe é desigualitária, tem prioridades distintas, consoante a situação no Sistema Educativo, está dividida e tem mais buracos que um queijo suiço, devido aos bombardeamentos ministeriais acossada pela doxa vigente.

Mas é de louvar que uma ministra seja tão irrepreensível no que toca a tácticas e a sentido de oportunidade politburianas, nem a melhor rata de sacristia para levar a água ao seu moinho.
Ó ministra com tomates heróicos! Oh, mulher de ferro, Theatcher de Portugal! Que fizeram os efeminados ministros que te precederam? A quem cederam, por quem se ajoelharam e, passentos, se renderam? Tu, não. Embora mulher, és homem. Parabéns!

A verdade é que já há uma avaliação não-oficial e permanente, em cada escola do desempenho de cada professor. Ela corre à boca pequena e tem sempre pormenores picantes: o que está em causa é a imagem do professor A e do professor B. A imagem de cada docente não resume holisticamente o animal e é como uma marca de ferro em brasa, dói e é indelével.

Mas quando mentes peregrinas, para efeitos de progressão na carreira, se lembram do que os pais possam ter a dizer avaliativamente do desempenho dos professores e que estes devem ficar calmos porque não vai doer, eu parece-me que já estou a ver todo o absurdo em movimento: «pais reprovam progressão de carreira a professor, alegando incapacidade para ensinar química, cabelo demasiado comprido, dificuldades em estabelecer disciplina na sala de aula, unhas grandes, mau hálito e o péssimo hábito de dar níveis negativos aos seus mal-educandos».

Depois já podemos imaginar cairem abutrinamente os jornais sobre o cadáver imóvel na carreira do professor: «Não é nada verdade que eu tenho mau hálito, aliás este ano ficou provado quimicamente como se podem iludir e até ludibriar os centros de cheiro...»

Ora eu, que até já tive uma mãe, uma certa vez em que fui director de turma, que me assediou telefonicamente durante meses, seduziu na forma tentada e comoveu, mentiu, manipulou habilmente, tudo para que o seu filho com asma, recordista das faltas e da preguiça, transitasse, alegando que ele era doentinho, que tinha um retardo e outras patranhas, mas com documentos na mão a condizer e tudo, vou lá um dia ser avaliado por pais que tanto podem ser honestos e honrados trabalhadores, como rufias, arruaceiros e desequilibrados do juízo, capazes de tudo para tramarem a boa fé de um pobre professor sem rede?!

A ministra sinistra e sisuda Medusa é um rio de azia para a classe docente.

Os professores são a gente mais cigana e vulnerável do país: há um Ruanda, um Kosovo em decurso quanto à carreira docente. A pouco e pouco haverá menos alunos, menos lugares, mas é o Ministério, dividindo para reinar, que faz de prensa e nos comprime para fora do território de sermos deixados em paz, como os médicos, os trolhas, os enfermeiros, os picheleiros, ou os yuppies dos bancos.

Joaquim Santos

quarta-feira, maio 10, 2006

2050: depois das más, agora as boas notícias















Gosto imenso destas notícias-projectivas, prospectivas, que de vez em quando abrem noticiários e fazem as manchetes dos jornais. Gosto delas porque me fazem imaginar como são criativos e imaginativos os fazedores deste tipo de projecções: o povo não é produtivo e não faz filhos, logo, o país não cresce e mais ou menos pelo ano de 2050 seremos os últimos...

Ao dizerem que, em 2050, seremos os últimos de toda a Europa, eu dá-me vontade de rir um riso realizado, porque sei que o sistema bancário português, nessa altura, já terá vampirado até ao tutano, secando-o, o povo, o qual, mantido em baixo, bem rente ao solo, nos seus salários, nos seus direitos, espremido de impostos, impostos que pagam a permanência barata e atraente do grande investimento, só terá como caminho reproduzir toda a espécie de dificuldades nas gerações que vão surgindo.

Mas os Bancos e as Seguradoras, esses como estarão em 2050? Calculo que os principais grupos portugueses serão poderosíssimos no contexto mundial e um exemplo de eficiência na grande família mundial do dinheiro. Calculo que, devido aos seus miraculosos e adoráveis lucros, não terão dificuldades para lançarem os primeiros balcões em Marte e na Lua, entre slogans caros como: «Ganhe a Lua com as prestações mais baixas do sistema solar. Falhou uma? Isso não tem gravidade!» Ah, ah, ah!!!

Quando perguntei ao Sr.Magalhães, um grande amigo, uma enciclopédia viva e um meigo afagador de meias macieiras, por que motivo os empresários portugueses não estimulavam os seus empregados, pagando-lhes bem melhor, tendo em conta a vantagem sobre o aumento dos consumos e da procura, na economia? Ele respondeu como um derviche, interrogado sobre o porquê de o homem existir:- A lógica que rege o empresariado português é tão simples como isto: cada um deles acha que não tem o suficiente, sente que tem de ganhar muito mais. Ora só se ganha cada vez mais se se consegue pagar cada vez menos.

Fiquei a pensar que, em 2050, haverá alguma coisa em Portugal que não será 'último' e alegrei-me: seremos os primeiros na pobreza e na falta de crescimento; seremos os primeiros na falta de poder aquisitivo; seremos os primeiros a chorar por não sermos os primeiros.

Mas haja esperança. Um dia destes aparecem-nos projecções acerca do nosso crescimento em 2080. Com certeza que já se notará uma inversão da tendência miserável em que estamos. Em vez de últimos, que tal penúltimos em alguma coisa não sei quê na Europa?

Joaquim Santos

(Não me lembrei de falar nos hipermercados como outro motivo para sorrir em 2050... Ganham dinheiro, também têm lucros porque jogam o jogo do tempo: recebem a pronto; pagam a prazo. Ora assim também eu.)