quinta-feira, agosto 31, 2006

AVTO DA VISITADVRA











Clicar na imagem para ver 'em grande'.

Mil razões boas
para virem ao meu blogue,
trinta mil para voltarem,
cem mil para o recomendarem,
um milhão e trezentas mil
para o elegerem como
fixolas!

Oh, que uploads criativos e criativos posts
um gajo pode fazer nesta vida!


(Vou já artificializar uma polémica visitantíssima com
O Franco Atirador).

Joaquim Santos

quarta-feira, agosto 30, 2006

LAPID'ARTE












Primeiro atada,
depois semissoterrada,
finalmente os misericordiosos pedregulhos que me anulem,
adormeçam, afundando-me o rosto,
empapando de encéfalo e sangue o paciente solo
onde, estacada, me encomendam ao Inferno.

«Adúltera», dizem os adúlteros que me executam.
«Pecou», murmuram, afadigados os pecadores à minha volta,
preparando-me as núpcias com a morte.

Que hei-de fazer senão gemer e chorar por mim e por eles?

Inclinada como um míssil de carne condenado ao nada,
em nome de um regime filho da puta
que reagiu contra a colonização ou o ascendente
cultural norte-americano em cios de crude,
o Grande Satã, liberalizador, libertário e libertino,
mas para nos devolver isto,
esta pureza exterior,
este pesado jugo que nos julga?

Irão, Pérsia, terra que rejeita,
regurgita, refuta, puta,
a misericórdia bendita!

Joaquim Santos

terça-feira, agosto 29, 2006

Cínica Apologia do Homem Íntegro



















O homem íntegro é a praga do silêncio na sociedade
dos bons exemplos e das pessoas bem.
O homem íntegro casa festivo nas igrejas em burburinhos pagãos durante os casamentos,
não atraiçoa os bons costumes com relações dúbias.
O homem íntegro não fuma demasiado,

diante das outras pessoas.
O homem íntegro não arrota à mesa
nem peida em Ré # Maior perante um público reunido em assembleia formal

jantando descontraidamente.
Escatologias sórdidas como

«merda» ou calão como
«foda-se»,
«cabrões»,
«caralho»,
nunca saem da boca pudica de um homem íntegro,

que está muito ocupado somente a pensá-las.
E, perante o pensamento e a visão herética de um ânus,
é benzendo-se todo e ajoelhando-se muito
que o homem íntegro se confirma do bom gosto e do bom caminho,

enquanto se encosta à parede para retomar ar,
aflito.

Porque o homem íntegro é susceptível e sensível perante coisas feias;
porque o homem íntegro faz parar
o trânsito com o seu ar correcto e
a sua correcta gravata, bom comportamento

à procura de um reforço positivo que se lhe atire
ósseo.

Os Bancos
têm como gerentes e subgerentes homens íntegros
assim como os hipermercados
e as lojas do bairro têm como donos sujeitos simpáticos nas contas de cabeça.
Porque os ministros são homens íntegros e correctos e
não assediam ninguém e nada sabem de pressionar a imprensa,

a boa e a má.

Porque um homem íntegro não pode passar-se e não se passa,
se insultado, cuspido e maltratado: pelo contrário, acomoda os golpes
com um sorriso pando e vai-se à vida contente,

conformado de que o mundo é como é
e não há nada a dizer,
quanto mais a fazer.

Joaquim Santos

segunda-feira, agosto 28, 2006

Sarpar













Ancorarei ainda
à beira-praia,
o rosto em mansa luz, oscilantes aquosos rebrilhos,
na fatigada renúncia
de reembarque e remo.

Ao rumor vivo do sossegado marulho ondulante,
cadência de embalo,
pousarei a senecta mão na memória,
revisitando afectos.

E terei certezas de Porto,
afagos de Fé Forte
para a última e íntima
enxárcia
donde aparelhe
Vela.


Yehoyaquim Santos

sexta-feira, agosto 25, 2006

Pente Três*

O inimigo existe e alojou-se entre nós.
O inimigo reza várias vezes por dia e não pronuncia um palavrão.
O inimigo educa no ódio, na repressão religiosa, no cruel policiamento moral, na vigilância canina
do teu blogue e no castigo corporal,
e pretende exportá-los para o amolecido e tranquilo Ocidente
acavernizando a nossa paz de espírito com a bem-aventurança do Terror.

O inimigo conspira dentro do Ocidente, num fermento malígno de atentados no metro, no comboio.
O inimigo sonha derrubar a podridão moral ocidental para instalar a podridão da hipócrita irrepreensibilidade moral,
por isso, nas arábias, o inimigo corta pescoços em público em grandes espectáculos sanguinários e moralmente exemplares, lâmina alta rebrilhando ao sol duro
e ao terceiro golpe carrasco é que as cabeças se separam só para dar o benefício da dor às multidões ululantes de impaciência.

O inimigo orquestra espectaculares atentados suicidários sobre o oceano,
urde novas acções tenebrosas nas escuras caves europeias,
onde vive,
onde estuda e aperfeiçoa Química e Física
numa criatividade maligna,
enquanto aparenta civilidade e bonomia,
saudando-nos sorridente e pacato pelas nossas ruas.

O inimigo cresce-nos dentro, imigrando para cá em massa,
construindo mesquitas aos milhares em França e exigindo regimes de excepção
aos seus lenços-mulher numa pureza exterior toda textil e por isso mesmo eficiente
na dissuasão cobiçadora dos olhos.

O inimigo lapida, degola, persegue e tortura quem, nas arábias, não subscreve as suas teses teológicas
e não obedece à tirania unívoca do Corão
e a mulher,
o judeu
o cristão,
o infiel
são somente máscaras do demónio que se vai em procissão calcar e apedrejar.

O inimigo decapitaria, se pudesse, as lideranças democráticas ocidentais,
só com esse poder de colocar em causa a confiança que os cidadãos nelas depositam
de os defenderem.

O inimigo existe e conspira por dentro.
(Remordem-se lábios e rangem dentes por trás das barbas,
por trás dos blogues).

O inimigo!...

Depois há as reacções democratizantes napoleónicas na ponta dos fuzis ocidentais.
Depois há as invasões libertárias no Iraque
e a alegria estúpida das bombas,
a estúpida festa da metralha,
da cavalaria aérea em helicopteriana poeira,
da eficácia bélica como espiral de ineficiência inútil sobre uma resiliência vietnamita.
Depois há o medo ocidental que impele ao uso fraco da força e os negócios ocidentais que restringem
a exigência da Justiça dos Direitos Humanos também nas Chinas.
Depois há o negócio das armas de ponta e o argumento por que se espera
para usá-las e vendê-las.

Mas dão-me licença que considere execrável
toda a espécie de morticínio como resolução de problemas e ridícula
toda a veleidade de alguma vez pulverizar o inimigo?
Permitem-me que considere inúteis quaisquer tácticas violentadoras da vida humana,
os danos colaterais infantis, a esventração bombista das mulheres e das casas
sem que passe eu por isso, e só por isso, a ser considerado um poeta mau ou o pior poeta blogoesferiano em que o infalível Máquina-a-Soro, o papa da prescrição bombística
e da solução musculada, tropeçou ultimamente?

Deixam-me ou não ser anti-religião-unitária, anti-pensamento unitário, pró-pluralismo,
mas desarmadamente?
Será que poderei acreditar no fim da impunidade local e planetária, mas por um caminho policial e não militar?
Posso discordar da bala e da bomba por princípio sem significar com isso a avestrucização da minha consciência, a fuga da questão ou a falta de atitude?

É por ser preciso quebrar o circuito.

Não ruíu a seu tempo o rígido, proselitista e ameaçador muro de dogmatismo marxista
castrador da pessoa?
Por que não há-de ruir também a seu tempo este muro de fanatismo,
destes detentores e administradores exclusivos da ira divina, destes cultores da morte,
assassinadores do próprio Deus nas vítimas que assassinam?
E por que não haveremos de fazer com que esse muro caia mediante trocas comerciais,
parcerias, o diálogo, o conhecimento cultural recíproco mediado pelas pessoas concretas
e pelo poder da amizade?

Os publicamente enforcados, as adulterinas lapidadas, os torturados de Teerão,
os silenciandos compulsivamente nas arábias e mais além
esperam de nós muito mais que a resposta da bomba,
esperam de nós muito mais que este silêncio petrolífero
que nos mantém reféns do Terror por tempo indefinido.


Joaquim Santos

*Em homenagem ao blogue Maquina Zero, que não diz palavrões e é muito pudico e exemplar enquanto faz a apologia do sangue em nome da defesa das nossas liberdades.

terça-feira, agosto 22, 2006

Programa

Nasci numa terra litorânea portuguesa em pleno noroeste ibérico e, antes de olhar para o mundo todo, já ganhava raízes e apegos apaixonados a essa pequena parcela dele, sonhando em voar só com a força da vontade e sem motores, enquanto olhava um céu sempre povoado de aviões comerciais, pardais e outros pássaros num voo baixo ruidosamente invitativo.

Quando entrei para a Escola Primária e aprendi as primeiras letras, logo fertilizei as folhas brancas de papel com quanta imaginação me habitava. Depois cresci e aprendi que as folhas escritas ou em branco é que me fertilizavam a mim e me pediam voz que as vivificasse num drama de alma lido ou edificado. Por isso, profetizei-me poeta e profeta num mundo onde por fim o voo não se corte e os muros um a um se derrubem. Depois a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras do Porto, o ensino do Português, e agora mestrando em Literatura e Cultura Comparadas, antes, mais tarde e sempre, o texto com alma e sabor dentro.

A sátira e a verrina interessam-me como discurso e como disparo, mas sobretudo como resposta ou provocação se perante violações da ética e do bem comum planetários: os obesos interesses corporativistas, armamentistas, exclusivistas globalizadores, estão a entediar o mundo de injustiça crassa e é preciso intervir, denunciar, alargar, de corpo e alma, começando por dentro, a fronteira de bem-estar e desenvolvimento gerais, a fronteira, portanto, de pacificação das sociedades mais confltuosas.
Cocktails Molotov? Só os de entusiasmantes ideias feitos. A crónica e o poema sejam as únicas baionetas que penetram a carne de vida, os únicos mísseis admissíveis que até podem errar o alvo na sua queda aleatória, mas abrem em fogo e beleza. Explosões suicidárias? Só se forem, depois dos orgânicos, orgasmos espirituais, mas apenas por serem pequenas mortes em que nunca se deveria pequeno-morrer só, mas a sós, ele e ela, tu e ele, tu e ela, e é com tais armas e a esse combate que vou, que estou aqui, de post em post.

Pela mahatma-ghandização do mundo e, portanto, também pela sua urgente desbushização cowboyesca!


Yehoyaquim Santos

sexta-feira, agosto 18, 2006

Assumpto



















Fazes alguma ideia,
do quanto o misericordioso acto da escrita,
húmido tacto, tendões, músculos, ossos,
fisiológico abraço,
insólito coito,
me faz falta à mão
à carne?

Compreendes que só assim subo ainda mais a pique
a escadaria-escrita, se pelo meu pulso,
e que ascendo ainda mais por dentro
a essa luz no fim
e que mato ainda mais a sede
de voz muda
por estes degraus cinza,
de deriva
quando, errante, tenho fé
e na cegueira vejo?

As palavras surgem-me
metabolismo
de momentos cúmulo em monte,
montículos momentâneos
entesourados dentro.

Subir sorve-me ainda mais para dentro
para avistar
o silêncio, toda a imperturbabilidade,
toda,
amniótica,
da essência
do íntimo.

Grita-me por isso a mão pelo labor oleiro no torno vértice
que tinge,
que tange a folha mar
branco,
a linha tinta, tanta.

Palavras couro que couraçam.
Palavras zebra que listram.


Joaquim Santos

segunda-feira, agosto 14, 2006

Vala Incomum










De pá na mão,
obliquando para cima as pupilas
desta cova mandibular,
abre-se ainda, rectangular,
um Céu para onde eu olhe, por um pouco.

Branco, fechado.

O tempo é breve, multicolor, alado em alas anjo.
Mas por que se me faz tanta paz agora
e nenhum frio e nem ranger os dentes ranjo?

No topo ou bordos dela, da tumba vala,
pirâmides terrosas com terrões em despique rolando.
Ao meu lado, os homens do meu povo,
são já um só corpo comigo e,
entre o suor, o bafo entrecortado,
e o tremor de mãos,
pelo esforço coveiro e vítima havido,
é corpo cabisbaixo como eu e como eu mudo.
Por trás, a obediência férrea ao crime,
vozes de comando, pressa voraz.

Voltar-me-ei antes do multíplice dedo engatilhado.

Assim.

E que se danem,
que se revejam no meu rosto morituro
mesmo antes da rajada,
saturado espelho e suturado
nos fios da memória esbanjada.

Quando vier esse som que é gume,
vá este sangue manando,
alastrando quente,
como um degelo rubro na neve
vaporosa,
sem queixume.
.

Joaquim Santos

sexta-feira, agosto 11, 2006

Verde Acrídio













Uma brisa de leste,
onde se mistura pinho e eucalípto incinerados
numa indefinível secura sã e odorosa,
deixa-nos, nestes dias, as portadas do quarto em suaves partos de lua,
e o acesso franqueado ao sereno ventre da noite.

Ondulam cortinas em arrancos doidos
(estremecimentos, espasmos,
como quando se rompem águas),
e o drapejante som delas
ouve-se,
velas pandas às visões visionárias,
competindo
com o deflagrar longínquo de motores em trânsito,
ou o rodar cadenciado, binário, em lentos carris, de metálicos longes.

Por vezes, algo em nós ousa ter ouvido um remoto campanário,
afagando a longa densidade de uma memória.

Subitamente, um ortóptero errante, verde, delicado,
invadindo o quarto,
vem beijar-me, macio, manso, sonoro, o flanco,
asas de seda apressada me roçaram.
Despido, estava eu de bruços e falava-te,
despida, com um entusiasmo de menino,
sobre um sonho qualquer acordado
e tinha o teu olhar no meu em flamas vivas de atenção cravado.

Chamaste-lhe esperança. Chamei-lhe gafanhoto.
(Era toda uma meiguice feita insecto juvenil, tão delgado).
Mas concordamos na mensagem que nos trazia:
fosse o que fosse, era coisa boa...

E foi.

Porque, numa fulguração de essencial,
me apareceste tão reaparecida,
que pude ver-te ainda melhor
na explosão de doçura,
ventura resumida,
da tua mão
ardendo na minha.


Joaquim Santos

domingo, agosto 06, 2006

Reduto













Procuras-me. Eu sei.

Sei que não posso desiludir-te quando vens aqui.
Não é justo que dês com a cara na porta
fechada a qualquer nova postagem paisagem minha
onde te recreias e reencontras
no fogo da palavra que manuseio.

Sei que tenho de te dar também a justa ração de entranhas,
íntimo que te cative,
que te prendam aqui, e ajudar-te no que te der a dizer de cada post que faço
para que assim regresses a mais um copo de alga,
marulhado em maré amiga,
e rompas o silêncio
entre um silêncio e outro.

Entrar. Sair.

Sendo sair o teres metido nariz onde melhor visses
o que de melhor desejas
e se apossa de ti.

Pronto, eu paro com impessoalizações e duplicidades.
Interrompo a política que, se é nacional, fede,
mas o fedor reduplica se é internacional
por emanar de sob os escombros
quando nos desenterramos inteiros,
na indefesa criança esmagada
e estamos ainda confortáveis e vivos,
na inocente decapitada.

Bem sei, blogar é sempre indecente e narcísico, mesmo na solidariedade.
Mesmo na indignação.
Bem sei que a guerra já é este desastre natural, tsunami furacão tufão,
com que se limpa naturalmente o cu da terra deste dejecto da evolução
chamado Homem
precisamente na sua mais abjecta actualização.

Entra, entra sempre, tu que me procuras e que regressas e me exiges de novo.

Seja ódio, seja merda, é o que sai que sempre suja o por onde sai.


Joaquim Santos

quinta-feira, agosto 03, 2006

Geovagina



















Território de nada, onde corre sangue e fel.

Ó saga territorial perdida nos milénios, a tua.
Território reentrância,
território vagina,
V púbico,
(onde o deleite de uma Fé e de uma Esperança universais, transtemporais,
se fez Homem, se fez Carne repartida)
com um Jordão,
fio de urina,
gotejando
Vida num Mar
Morto.
Ou precisamente o contrário.

E não és tu um povo maior que só uma terra usurpada?
Não cresceste nos teus filhos mais que mil jerusaléns?
Não será cada circuncidado teu toda uma Yerushalayim em carne e osso?

Babilónios, Assírios, Gregos, Romanos, Árabes e Europeus
todos puseram o pé, a teus olhos canino, sobre esse solo reservado a ti somente,
perante a tua impotência e rebelião a seu tempo esmagada.
Não seria para relativizares o solo
e absolutivizares uma vida e um território ainda Além?

Não coleccionaste sobejas tragédias?

Tu, que sofreste e sangraste como poucos, tens terrível, tremenda,
responsabilidade
quando usas a errónea espada.

As valas dos teus fuzilados,
as cinzas dos teus gaseados,
o emudecimento em grito dos teus filhos perseguidos e ultrajados,
vítimas máximas no meio das nações
só clamam por que aprendas outra coisa,
uma coisa nova que não aprendes:

Só há uma humanidade kadosh.

Cativa os teus inimigos com vero amor.
Não consintas na miséria, não a promovas à tua porta,
com muros, humilhações, ó usurpador de pastagens.

A miséria do teu vizinho
é a morte da tua paz.


Joaquim Santos