terça-feira, maio 20, 2014

REINCIDIR A CAMINHO DO DESASTRE

Não posso subscrever os apelos à passividade, branca ou nula, a propósito da próxima oportunidade eleitoral. Agora que a campanha para as eleições europeias se esgota, sem que a União Europeia estivesse no centro, uma vez que a refrega eleitoral não passa de um ajuste de contas e uma luta de galos entre o PSD e o PS, o debate e o combate é pelo melhor resultado possível como aferição de um ensaio pré-legislativas 2015. Por isso, no próximo Domingo só na aparência se escolhem os representantes de Portugal no Parlamento Europeu: o que se plebiscita é o Governo Condicionado 2011-2014 ou o Partido-Máfia da Bancarrota 2005-2011. 

É, porém, a Abstenção que vai ganhar. Nas europeias, entre 1987 e 2009, passou de 27,8% para 63,2% e vai voltar a crescer desta vez. No entanto, toda a gente deveria recordar que a demissão do exercício mínimo do voto abre a porta aos extremismos de Esquerda e de Direita, tal como abre a porta a possibilidades grotescas, a oportunistas e aos oportunismos que permitiram o trajecto despesista e insano 2005-2011. Votar também é, senão escolher, evitar males maiores, repetição de males maiores, reincidência em males maiores.

O pior desastre de um Povo é dar de novo o benefício da dúvida a daninhos, rapaces e sociopatas, cujas obras más gritam todos os dias e perseguir-nos-ão ainda por algum tempo, enquanto não lograrmos um País superavitário, de contas sólidas, capaz de crescimento e poupança. Temos a obrigação de construir, finalmente, um tal País, aberto ao Ocidente e ao Oriente, no Euro. 

terça-feira, maio 13, 2014

OITO ANOS DEPOIS


Acho que perdi algum do fulgor e da energia motivacional para uma escrita diária, criativa, com o fôlego habitual. Celebrei há dias oito anos de Palavrossavrvs Rex sem sequer os celebrar. Perdi algum fulgor, não. Suspendi o meu fulgor aqui para o verter noutro lado. Fiz escolhas novas enquanto me desintoxicava de escolhas e dedicações zelosas de que saí desapontado e traído. Mas o meu projecto continua a fazer inteiro sentido para mim. Há tanto sobre que tentar reflectir, tanto para exprimir, e porventura muito mais recepção, hoje, um número maior de leitores a quem agrade a minha forma de ser e de dizer. Não é, porém, ainda o tempo de um regresso a uma volumosa produção aqui, conforme foi sendo habitual. 

Há impasses que me retraem: tenho uma profunda sensação de desadequação ao meu País, àquilo que me oferece e eu deixei de lhe oferecer, tendo eu investido tanto no Saber, na Cultura e na Língua a fim de ensinar outro tanto, quando enchia a sala de aula da paixão portuguesa que me transpassa. O amor e a alegria não se me eclipsaram. Nem a esperança. Dir-se-ia que perante o absurdo que se abateu sobre o meu País [as escolhas dos políticos, muitas delas malignas: foram capazes de sacrificar a esmagadora maioria antes e durante o Ajustamento em vez de sacrificar os interesses incrustados no Estado e sanar milhentas injustiças e parasitismos], pude encontrar uma réstia de fé numa saída pessoal à medida dos meus sonhos, fé nalguma coisa de bom no sentido da minha sobrevivência e da rentabilização dos talentos que possuo. 

Acredito que algo de bom me sucederá. Talvez mais rápido que o movimento da corda sobre o ramo d'árvore com que Papageno quis terminar consigo mesmo, antes de compreender que tinha uma vida feliz e fecunda à sua frente, não só, mas com a companheira perfeita para si. 

sexta-feira, maio 02, 2014

O DEFUNTO





No ano de 1474, que foi por toda a cristandade tão abundante em mercês divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas. Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao lado e na sombra silenciosa da Igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, para além do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias, que já na madureza da sua idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos cor de sol-claro, e colo de garça real. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem se conservou devoto e fiel servidor; ainda que sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e pichéis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara ele o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as manhãs, à hora de prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três ave-marias, a benção e a graça. Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebreus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de vésperas, murmurar docemente uma salve-rainha. E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e cuidado galante, em frente do altar da Senhora.