sábado, setembro 30, 2006

SABOR A PROVA













Serve a presente para provar a maravilhosa congruência de tudo,
a fantástica coesão que preside ao aveludado cosmos que se desenrola
diante de nós como uma folha escrita a vários comprimentos de luz
sob uma distribuição da matéria inteiramente proporcional e homogénea.
Serve a presente para lembrar a invenção do tacto e do sabor,
a magnífica capacidade de ver isto,
e de, mesmo na dor, não perder a alegria
por causa da esperança.
Serve a presente para provar que, sim,
todos proviemos do pó gerado da fusão
no seio das estrelas de há milhões de milhões de anos,
que, sim, todos somos pó estelar organizado em vida,
que tudo isto cósmico tem ordem e finalidade por trás,
que tudo isto cósmico é uma fábrica de deuses,
que tudo isto cósmico é um gerador de imortalidade,
que toda a criação é processual e evolutiva
como o plano que faz da árvore árvore
passa pela irrisória haste, irrisório estame,
antes do plátano de majestosa copa
onde cada folha é uma galáxia prenhe de vida.

Serve a presente para provar que tudo isto é belo,
que tudo isto é vida em trânsito
ao oceano do Amor,
aos braços de Deus.


These two beautiful galaxies, NGC 5905 (left) and NGC 5908 lie about 140 million light-years distant in the northern constellation Draco. Separated by about 500,000 light-years, the pair are actually both spiral galaxies and nicely illustrate the striking contrasts in appearance possible when viewing spirals from different perspectives. Seen face-on, NGC 5905 is clearly a spiral galaxy with bright star clusters tracing arms that wind outward from a prominent central bar. Oriented edge-on to our view, the spiral nature of NGC 5908 is revealed by a bright nucleus and dark band of obscuring dust characteristic of a spiral galaxy's disk. In fact, NGC 5908 is similar in appearance to the well studied edge-on spiral galaxy M104 - The Sombrero Galaxy.

sexta-feira, setembro 29, 2006

A RIMA REUMATÓIDE


















Rimas, quadras tetraplégicas
e todo o reumatismo
da emoção em má prótese poética aqui.
Mas também aqui a arte bolor de bajular babosamente.
Mas também aqui a pobreza dum pensar sem sabor a novo.
Mas também aqui a decadência da dignidade
e a falência bafio do para que serve um blogue
no mesmo estilo inconfundível
dum anonimato que todo se abre
e desvenda.


Joaquim Santos

O babuíno de serviço mandou dizer que existia
e lá veio beber a este oásis blogueano,
mirando-se camelo
no reflexo destas águas em espelho
e vendo-se burro
na miragem reverberativa do horizonte em fornalha.
A miséria poética dá origem a muito mal disfarçados assediadores doentes como este.

quarta-feira, setembro 27, 2006

BRASA QUE ABRASA


















As montanhas não dizem nada.
Os mares não dizem nada.
Nada diz o céu,
nada a terra,
mas a mensagem
passa na mesma.

A mensagem que interessa passa por entre
e passa para além,
e abraça
e abrasa
e une e casa
e suspira e é clara e é baça,
concessão ou negaça,
de ardor, de doçura rasa.

Joaquim Santos

terça-feira, setembro 26, 2006

MNEMÓNICA CAGADEIRA















A paisagem não mente.
Entre o caos e o verde, edifica-se.
Mas a paisagem nunca mente.
Ela denuncia, no meio da luz, um local adequado para os homens das obras
tomarem as refeições,
mudarem de roupa
e outro local também,
mais afastado em destaque ermo,
projectando uma sombra gémea,
para evacuarem.

Nada contra a demolição da paisagem que tinha por minha.
Nada contra a disposição caprichosa do pó empreiteiro
exportado cá para dentro e cá dentro respirado.
Nada contra a ruidosa maquinaria por meses argamassando,
peidando e cagando, cimento armado,
tijolos empilhados,
para no meio e no fim
haver casa.

Uma casa onde outrora odorosas vacas bostantes
pastavam exemplarmente
e rebanhos de perfumadas ovelhas caganitativas
acumulavam rotunda grenha
para extremo consolo dos meus áureos olhos
em serena mediocritas.

segunda-feira, setembro 25, 2006

JEJUM POR MARX











Jejuo por Marx
e por Engels também,
numa fome em chaga:
que ambos entrem no Céu
e vejam a esplendente democracia com que reina Cristo
e os Anjos voam e os Santos cantam
hossanas de louvor e glória,
música na abóbada divina
em festa por isto,
pelo fim da economia.

Jejuarei por Marx.
Que entre barbudamente no Céu
e haja odores a jasmim e pinho de fragrância intensa,
e haja o rir infante proletário
com a mão já livre, não já opressa .

Todo me acabe em fomes e fraquezas por Marx
que também tem direito a Céu
e precisa de sufrágios
e sacrifícios
como aqueles pelas alminhas do purgatório
que nos levam uma cera paciente,
joelhos em ferida,
litradas de suor
e moedinhas pela ranhura-caixa
das esmolas.


Joaquim Santos

domingo, setembro 24, 2006

AL GORE* vs. G. W. BUSH**


















Um homem* de causas,
que perspectiva as questões da humanidade como um todo
e da crise planetária, na sua complexidade e reversibilidade, como causa comum
de máxima e urgente ponderação

nada tem a ver

com um homem** corporativista, interessista,
apocalipticista, belicista, maniqueísta, com o qual Deus fala,
mas cuja voz é no mínimo ignorada, pela morte que se promove ou consente,
ou não servisse um 'reino' dividido, como o Iraque, por exemplo,
ainda melhor a tal abutrino bico.


Joaquim Santos

*Está absolutamente de parabéns o documentário Uma Verdade Inconveniente e também Al Gore, que surge como o presidente de que o mundo afinal necessitava para menos invasões e mais respeito pelas instituições internacionais, por uns Estados Unidos menos fora-da-lei e mais concertados com as nações.

ANÚNCIO DA INTERROGAÇÃO


















Morto ou vivo nem por aqui o saberemos.
Mas ele e todos os sanguinários,
(os de fato e gravata e de acenos ao vento,
os de sandálias e kalachnikoves pela bandoleira
e turbantes
e vestes complicadas
e barbas hirsutas,
e pregações armadas...

Também terão verminosa terra que os coma.

Joaquim Santos

sábado, setembro 23, 2006

ORA ENTÃO QUE MEDRES!














Hoje foi um dia produtivo.
Partiste a fim de que medres noutro lugar
onde se paga melhor, diz-se,
o suor de um homem como tu,
disposto a vertê-lo de qualquer maneira,
e nós ficámos por cá a torcer por ti
e a torcer-nos num último torcicolo por ti,
num último tributo a César e ao que é de César.
«Boa viagem», dissemos-te.
Sorriste e foi a sorrir que pediste desculpa por alguma coisa.
Que é que havias de dizer tendo, mais uma vez,
um novo mundo tão desconhecido à tua frente?
Mil quilómetros são mil quilómetros
e cada um uma incerteza que haverás de vencer
para que logo nos dês essas novidades de muitos euros
por que tanto lutas.

Depois regressámos ao teu reduto abandonado.
Varremos o teu chão.
Despejámos o teu mijo.
Recolhemos o teu lixo,
disperso criativamente por lugares
que a tua criatividade e desperdício inventaram
para que ríssemos ao mesmo tempo que as costas nos doem,
para que chorássemos, enquanto a paciência nos sangra,
ferida reaberta nesse desporto desconhecido, a não ser para ti,
que é dispor e precisar sem limites do nosso saco sem fundo.

Organizámos os teus papéis.
Preenchemos de sentido a tua dispersão caótica de objectos.
Fizemos as tuas contas,
carpimos o débito e cantarolámos fino
(castrati monteverdiano mesmo) o crédito.

Lavámos penelas, pratos e talheres,
remetemos ao esgoto essa tua comida bolorenta
e fora de prazo,
abandonada mal-cheirenta
onde te deu para a deixares, distraído.

Matámos a tua roupa suja e velha,
guardámos a tua faca gigante
com que haverias de matar quem tanto amas
ou o intruso que se atrevesse
a transpor os teus tão ténues limites.

No fim, era a transpirar e a latejar de alívio
que contávamos as horas
para finalmente mandar de reboleta
o caralho destes pastéis
mai'la rua desse azarado
Papa luso multidisciplinar,
mortinho por obras fatais.


Joaquim Santos

CASTRO VAPOROSO














Olha sempre para o céu
ainda que não dê dinheiro, não alimente nem vista ninguém.
Olha continuamente esse panorama,
sobretudo à passagem desse batalhão de nuvens
numa cruzada jihadista contra a secura dos campos
ou numa insistência de encharcamento deles,
sente e compara gratuitamente
a miséria da política terrestre
(os nomes dos homens avaliados e verberados)
com o azul e a nívia nuvem gratuitos que te foram dados a respirar.
Só por olhá-los se transforma o teu íntimo,
só por eles logo te acalmas todo por dentro.
Então, por um momento, não valorizes
o braço de grua do que de humano feda na paisagem.
Não mais te esqueças
dessa porta, por onde entras com os olhos,
desse lar, onde se senta e repousa o teu coração
desse forte, onde és absolutamente inexpugável.


Joaquim Santos

NEBLOGOSA














Nebulosa de emissão,
sem névoa, sem nuvem, sem bruma,
luz compósita da radiação estelar
em escultura de formas
fantasmáticas, fantásticas
da Central IC 1805.

O pasmo existe a cada momento
face a este mundo em silhueta.
E o que vejo é uma avestruz,
uma galinha, de longa crista
caminhando, articulada marioneta,
na majestade deste avistamento.


Joaquim Santos


Cosmic clouds seem to form fantastic shapes in the central regions of emission nebula IC 1805. Of course, the clouds are sculpted by stellar winds and radiation from massive hot stars in the nebula's newborn star cluster (aka Melotte 15). About 1.5 million years young, the cluster stars appear in this colorful skyscape, along with dark dust clouds silhouetted against glowing atomic gas. A composite of narrow band telescopic images, the view spans about 15 light-years and shows emission from hydrogen in green, sulfur in red, and oxygen in blue hues. Wider field images reveal that IC 1805's simpler, overall outline suggests its popular name - The Heart Nebula. IC 1805 is located about 7,500 light years away toward the constellation Cassiopeia.

sexta-feira, setembro 22, 2006

CORPO D'ÁGUA


















Que cavalgadas,
que transfusões de saliva ou massagens
por ti abaixo;
que penetrações vigorosas,
taurinas, brutas, abruptas,
acertadas de propósito, de propósito desastradas,
de gume resoluto;
que esquecimento de preliminares
ou que demora neles,
que rasgação de vestes
enchem de sorriso e verdade
o nosso belo
meridiano de luz!


Yehoyaquim Santos

quinta-feira, setembro 21, 2006

A ÁGUA QUE PASSA















A água vapor-de-água oeste-leste que passa ou não passa
por sobre esta paisagem-face
fitando o mar,
num desejo
solto de se pene-despegar
e pene-flutuar
(até preferivelmente à Costa Leste
norte-americana e ir chafurdar numa poçilga de dólares)
é parábola do anti-movimento
cadente pluvial,
presente embrulhado e com fitas,
do aquecimento global.


Joaquim Santos

NA HORTA DA VERDADE


















A Verdade não é volúvel entre matar e não matar.
A Verdade não é relativa entre torturar e não torturar.
A Verdade não é hipotética
entre trair e não trair,
entre roubar e não roubar,
entre invejar e não invejar,
entre cobiçar e não cobiçar,
entre mentir e não mentir,
entre amar e não amar,
entre viver e não viver,
entre perseguir e não perseguir,
entre compreender e não compreender,
entre alegrar-se e não se alegrar,
entre acolher e não acolher,
entre perdoar e não perdoar.

A Verdade não é um recôndito particular relativista,
mas um Universo de plenitude para que o meu amigo exprima em absoluto o que é
e eu e todos sejamos em absoluto o que somos chamados a ser,
desde já ou mais a jusante.
A Verdade,
além de tudo,
é Gente
e ISTO não deveria irritar ninguém
muito menos os campeões da tolerância,
que toleram mais à esquerda.


Joaquim Santos

É DE COMER? É!














Gostar de aviões é pouco.
O A380 é o batido de leite
no meu gostar de aviões.
É um espectáculo cremoso de formas trincáveis
enquanto se dissolvem na boca aveludadamente,
e onde a língua se perde em danças do ventre para línguas.
Olhá-lo é já imaginar-me nele de pernas esticadas, dormindo,
ou no bar com a palma da mão abraçando um alusivo shot aviónico qualquer
rumo a qualquer longínquo destino sem escalas.

Pode ser a Austrália.

Pode ser o Japão.

Gostar de aviões é pouco.


Joaquim Santos

quarta-feira, setembro 20, 2006

O BRAÇO













Não me responsabilizarei pelo teu ninho de rato, amiga.
Não farei do teu pulhómetro o meu pulhómetro, amiga.
Não ficarei aqui como bacalhau na seca de peixe,
retesado, de braços esticados e pernas esticadas,
esventrado até à magnífica configuração de uma folha de cartão,
salgando e secando até ao ponto comestível
e cozinhável.

Não vergarei ao peso das tuas murmurações,
nem ao carácter papal infalível e conspirativo da tua bichinha de rabiar,
fazedora de opinião e exigindo lealdades obedientes em troca,
não serei susceptível às tuas tácticas
de sítio.

É bom estar aqui, em órbita, pensando
somente na doçura de te ter mandado foder
só por teres sido tão muralha da China,
inútil e ornamental, grandiosa e arqueologal
perante a minha humilde mão estendida.

Joaquim Santos

ESPANHOLA












Quando às vezes a humanidade não vale a pena,
quando é uma lâmina afiada este sumo asco pela maldade nojenta dela
e pelo sangue que dela se derrama prontamente,
já na bala que limpa e liquida,
já nos perdigotos de uma voz, pretexto do protesto em ódio acre,
deve pensar-se em gripe.

Pense-se numa gripe devastadora,
uma tosse cagarrinhosa de enxofre,
que varra em epidemia os poluidores,
os militaristas, os terroristas domésticos,
os filhos da puta egoístas,
os filhos da puta só filhos da puta sem adereços,
os torturadores, os guantanamistas,
os abu grahibistas,
os fundamentalistas,
os democratas parciais,
os democratas com veia autoritária,
e parêntesis torturadores,
os fascistas dos blogues absolutos,
as pessoas más, aquilinas na sua maldade selectiva.
Há-de tanto inocente perecer de uma forma ou de outra
como se a sua transição para o nada ou a Pátria Prometida
fosse lógica, suave e natural,
então que pereçam mesmo
todos os indecentes e todos os decentes
numa orgia de internamento sem esperança.

No resto do tempo, há prados verdejantes,
céu azul e um mar ainda mais doce que como o imagino,
murmurando «paciência, meu filho! Paciência».


Y'shua Santos

terça-feira, setembro 19, 2006

CATALISADOR


















A Verdade é o catalisador.
A Verdade, uma vez dita ao de leve, como uma brisa imperceptível, torna-se o rastilho de pólvora
que enche de um explosivo ódio prévio
os já previamente indignados e indignáveis,
os sempre prontos a indignar-se,
como umas personagens de O Idiota, de Dostoyevsky,
que tinham esse ar de prontos a zangar-se imenso
com uma pluma branca de passagem pela frente dos olhos,
sempre prontos a violentamente declarar-se não-violentos,
enquanto fuzilam a dignidade humilde de Deus, Allah, Iaveth,
em cada humano livre e inocente.

Ela, a Verdade, não se vergará à violência,
mas dará a vida, só por ser o que é,
porque é necessário que assim seja,
porque o pior de tudo não é que se perca a vida,
mas que se descure o âmago
e mercadeie o íntimo,
e se suje a alma.
Ela, a Verdade,
tem o triunfo completo por promessa,
ainda que os brutos se insurjam e vomitem ameaças,
atraídos como mariposas pelo lucilar dela, da Verdade.
Há uns homens que se dizem cristãos,
mas vivem fracturados nas suas designações
particulares, adormecidos no vazio,
quase mortos, enquanto o seu Senhor não regressa.
Porém, unidos em torno de um pólo coesivo, verão a Verdade,
agora insultada e pisoteada,
irradiar então uma Luz jamais vista.

Joaquim Santos

ÓLEO EM FUGA














Doçura de fêmea
que resguarda e mostra
a seda que cobre outra seda, invisível jade
lhe roça a pose, aposta
luminosa num gosto que gosta.
Óleo luzente
desse tecido vivo,
foge-te a própria alma
fremente.


Joaquim Santos

CORNOS GÉMEOS


A interioridade geográfica (Garmsar ou New Haven, Connecticut) gera por vezes gente assim,
com enunciados e actos de baioneta intransigente em riste,
arrolando com eles uma multidão de sacrificados e de sacrificáveis.

HELENA 3 GORDON 2













Vento forte, muita chuva e grande ondulação,
espera-se que as penas das gaivotas as levitem
para longe de onde o furacão desabará,

que os peixes se postem longe do ventoso chicote
e da ira das águas revoltas.

Para os homens, quanto mais quente melhor,
mas não para o planeta.

CORTE E COSTURA

Não tenho vontade de me voltar para ti e inquirir-te seja do que for e sentir-me bem naquela pureza encantada inicial com que te conheci. Pura e simplesmente esfriaste-me a vontade e, seja no simulacro da tua indiferença, seja na tua indiferença ela mesma, recuso-te a partir de agora e pronto. Porquê? Porque toda a tua pessoa já está feita. Não há mais tijolo sobre que cimentes alguma coisa de inesperado a partir de outrem em ti. Olho-te à luz afiada da tua palavra fugitiva e só vejo um balão inflado, um peixe-balão, inchado de «já sou e já tenho o que quero» e a luxúria de um poder lorpa e de um controlo em baba das variáveis todas. Ora que se foda a tua imobilidade e a tua petrificação dentro do teu quadro cristalizado de referências, de amizades e de certezas absolutas, que se foda também a tua tendencionite, que confessaste, censória, assim também pereceu Tróia e ao Cavalo enganoso serás tu, a seu tempo, a dar-lhe tracção para dentro da tua fragilidade distraída de segurança. Já que tu é que és a pessoa mais importante para ti mesma, vai-te foder que eu vou ali matar com facadas de raiva este assunto (e o ter gostado de ti de peito aberto!) por agora e para sempre, amén.
Yehoyaquim Santos

segunda-feira, setembro 18, 2006

RETRATO OPACO DO CAOS













Horas de vazio em que apetece reverso do mundo visível
e um não mais às energias soltas, cataratas de oco, cascatas de nulo.
Dormem então os poros e afadiga-se o coração em estar parado
porque o sol está refém da hora. Parva, a medusa persiste em recrudescer um tem-de-ser irracional, tentacular, sendo as coisas já tão tristemente álacres,
(quem tem despachos, tem a faca provisória e o queijo provisório numa mão que morre)
na desocupação alarve em grito, em ruído, da canalha por moldar.
Subam pássaros,
gralhem ministros,
sádicos, legislem, e depois apodreçam na desistência que semeiam.
A mentira dos números continua a rir de nós
e continuamos a encurralar realmente o desenho de um quadrado no chão,
como um prego visível de ar perfurando a palma
presa ao tronco
nu torso
de esta tácita espera entre sombras.

Joaquim Santos

domingo, setembro 17, 2006

LACTANTE LUZ


















Nasça o dia,
luz suave que desliza à beira névoa,
transparência láctea, nívea,
deste cio desse seio
por sumo,
mamilo,
montículo gémeo,
carnação de fogo,
arfando luminosa por vindima.


Joaquim Santos


(Agradeço toda a solidariedade manifestada pelos meus leitores, através dos emails que me enviaram, alguns dos quais corroborando a identidade conspiratória e desinformante do vil duende pseudo-anónimo que, por qualquer razão de-inferno-feita, assediou por tanto tempo maliciosamente, mais que ao meu espaço, a minha pessoa. Asseguro a todos os que gostariam de comentar os meus textos imperturbadamente que tal galfarro foi reduzido à mais absoluta nulidade.)

OS IRASCÍVEIS

Quem for ler este pertinente discurso, notará uma rica argumentação perfeitamente pacífica, destituída de polémica e onde apenas se ressalva a ideia urgente e justa de que não pode haver violência na propagação de uma qualquer fé, em nome de Deus, e que a violência é uma irracional deformação da natureza do homem e da natureza de Deus. Justamente a razão é a única base possível do diálogo inter-religioso e inter-cultural. Isso mesmo, articulado com uma análise da crise europeia, já fora abordado aqui.

Logo se mobilizam os irascíveis islâmicos para bradar um fim-do-mundo de indignação, para queimar efígies, bandeiras, fotografias, apenas porque o homem corajosamente citou um texto antigo, que já denunciava o sangue vertido em nome da expansão do Islão como a velha e fundamental novidade em matéria de religião trazida por Muhamad.

A seguir, os pedidos de desculpas ou explicações vaticanistas repetem uma rotina cansativa de cedência à profunda e terrível susceptibilidade islâmica, sempre ameaçadora e sempre retaliatória, vindo nestas alturas à superfície, talvez em todos os seus sectores, um cunho jihadista, no resto do tempo dormente, mas sempre pronto a ser feroz e, como bem sabemos, consequente.
Joaquim Santos
O problema desta coragem ratzingeriana são as minorias cristãs nas sociedades onde o Islão predomina, que sofrerão as consequências das palavras proferidas, talvez os habituais actos homicidas às mãos dos mártires suicidários habituais.

sábado, setembro 16, 2006

MAIOR QUE O COSMOS TODO É O MEU OLHÁ-LO


















Olhar o céu nocturno
é hábito de pequenino.

Por grande que o Cosmos seja,
há-de ser menor que o meu vê-lo,
menor ainda que a vontade fascinada,
rendida,
de, conhecendo-o, amá-lo mais,
de lhe saber a Mão por entre,
por fora e por trás.

O que se vê é pouco,
imenso o adivinhado,
mas tudo, tudo,
se condensa neste Saturno revisitado.


Joaquim Santos

sexta-feira, setembro 15, 2006

BEM-VINDO, REACÇÃO CULTURAL!

Acaba de ser lançada uma feliz iniciativa: a publicação Reacção Cultural, um projecto transatlântico, transpacífico e transíndico por que a liberdade e a opinião livre se exerçam lusofonamente (segundo a sensibilidade e a mundividência mediadas pela lusofonia e pelo que cada qual bem entender). Não nos imporemos limites de quaisquer espécie no tratamento das matérias que ao Brasil, a Portugal e ao mundo digam respeito. Eis, portanto, o primeiro número onde se encontra também o meu primeiro contributo.

MÍNIMO MINARETE GÉMEO

















Por muito que ruísseis,
estais de pé,
insuportável ruptura da fotografia com a vida,
estais de pé porque nos lembramos,
lembramos a perpetuação
intolerável dessa retaliação,
lembramos o ocluso beco intransitável
desse golpe e do convite aceite
de retribuir às cegas.

E para quê, se o mundo inteiro
nunca será almádena donde se grite,
«Alah u akbar» porque tudo em absoluto o grita
multiplicemente, multicolormente?

Extinguem-se os sítios esguios e altos donde se apela à oração,
e ao apostolado da morte Hizbollah:
a esguia e alta torre donde se avista somente o deserto
e as planícies
e, num burburinho formigueiro,
o humano mercadeando especiarias
e armamentos
vai desmoronar.

Nunca mais haverá um só credo nem uma só cor:
no cerne do ódio, cúpulas douradas rebrilham,
jerusaléns fragmentam-se em igrejas e sinagogas deflagradas
e muitos minaretes têm também um minarete gémeo.


Joaquim Santos

ÁS, NO ENTANTO...

O monstro golpeava e escondia a mão, fingia omnipresença:
nas trevas era um ás,
no entanto, deparou-se com uma resistência luminosa.
Esse facínora insistia na aleivosia, mas só contundia o ar com os seus golpes:
na maledicência era um ás,
no entanto, encontrou um não resoluto ao seu putativo terror, à ameaça sua putativa.
Esse desertor da humanidade revisitava o prórprio veneno depositado:
na basófia psíco-psiquiátrica era um ás,
no entanto, nunca levava a melhor.

Inesgotável esgoto, o energúmeno foi, no mau cheiro, um ás,
no entanto...!
Um pára-lamas fora de prazo em vez de cérebro.
Um ás, no que em vão queria.
Um ás, no que debalde empreendia.

Ás no lado negro, sem sentido de humor, sem o contraponto de um rubro coração amoroso face à minha, muito minha, Arte!

Sim, esse monturo de fel foi um asno,
um completo asno enquanto pôde.


Joaquim Santos

(Derradeira metabolização textual, ou exercício retórico, relativa ao sobejamente conhecido anónimo, acidente-feito-homem e pseudonimista, Gaydes, Xico Gaydes).

quinta-feira, setembro 14, 2006

EXTINÇÃO DO LOBO MAU



















Para onde foi o camelo do lobo mau?
Coisa chata,
que seca sem tamanho que um lacrau,
um homúnculo lobisomem,
habituado ao lixo e ao esgoto,
venha aqui exercitar e esbanjar aqui
a liberdade que lhe foi dada para perseguir impune
um simples capuchinho blogueano
como outro qualquer,
um capuchinho que apenas se concentra em criar,
em abrir a sua alma
e levar os bolos e os doces fresquinhos da Palavra Mansa,
da Palavra Feroz,
à Avó-Quem-Quiser!

Joaquim Santos

NA DORMIÇÃO DOS DIAS

















Decrescem os dias,
decai a luz e, de mansinho,
cede o calor à frescura.
O olhar regressa mais vivo
às memórias de outrora,
e o ardor havido, o gemido, o silvo,
gritam silentes por ora.


Joaquim Santos

DELITO COMUM



















Krönungsmesse silenciosa,
pasmo de seda lustrosa,
encanto dos encantos:
a hora ceda à refulgência tua de deia,
e coruscantes teus olhos varem de diva.

Ó delito comum para qualquer um,
pela criatura, pela criação,
magnificat anima mea Dominum.


Joaquim Santos

quarta-feira, setembro 13, 2006

METABOLIZAR A DOR INFLIGIDA



















O importante é que há ainda subida a pique,
há imenso o que se explore, pense e diga.
O importante é que ainda há mistério,
assim como bondade,
assim como alegria
e por onde te evadas sempre livre.

Sem dúvida que o teu perseguidor-visitador-mor,
o teu indiscutível vigilante-mor RB,
a única entidade conhecida com perfil para obsessões,
para aflitas recordistas vistitações (agora estrategicamente extintas para se concentrar numa ainda mais perfeita vigilância e perseguição exclusivas)
e desdobramentos negadores proporcionais à respectiva malícia e vontade exagerada de se justificar,
que se enterra todo nos ataques que te faz
e sobretudo no modo como os faz, na sôfrega vontade de provar de ti não se percebe bem o quê, muito menos para quê,
peleja, ameaça, insiste e insulta,
procura arrastar-te para baixo, desacreditar-te e nivelar-te pela sua sórdida medida anónima.

Percebe-se porquê. Porque deixou registado neste blogue a assinatura de todo o seu fel,
da sua baixeza, onde anteriormente era mais um anónimo demente,
demonstrando explícita e ridiculamente por A mais B, ponto Um e ponto Dois,
o pecado capital de um lapso ortográfico,
que te tivesses defendido, que tivesses contra-atacado, que tivesses resistido.
Essa sua auto-denúncia explícita de insultador experimentado,
queda de uma insustentável máscara,
fez deste blogue um alvo a abater.

Mas o importante é que nada pode.
O importante é que será completamente inútil.
Quanto ao facto de que te irrites e uses o calão,
é suma hipocrisia condenar aquilo que nos é a todos conatural:
niguém escapa a um ou dois excessos de linguagem.

A única diferença está em fazer ocasional poesia também com isso,
assumindo-a inteiramente,
como quem exorcisa ou metaboliza a dor infligida
e outras toxinas.

E outros besouros.


Joaquim Santos

(Não acredito em 'amigas' que não tenham uma perspectiva de conjunto do que tem sucedido a este blogue e me minimizem não apenas a mim, mas às minhas razões, às minhas convicções dedutivas, que invertam a lógica toda, fazendo de mim o peseguidor, quando tenho sido eu o perseguido; fazendo de mim o obcecado, quando tenho sido claro objecto de fixação da malícia alheia. Muito menos acredito em 'amigas' cujo rosto ou nome permanecem ocultos, disfarçando as razões verdadeiras da sua falsa intervenção sincera).

segunda-feira, setembro 11, 2006

DEZ SEGUNDOS












Já não abrasado,
que por um pouco eu ainda viva
dez segundos de eterno nulo,
e me extinga à brisa da paz,
num alívio de frescura rendida
ao nada ou ao tudo



Joaquim Santos

POEMA OBSCURO















Ainda que te rejeitem, persevera.
Ainda que te amaldiçoem, resiste.
Ainda que te digam que não consegues, segreda-te que Podes.
Ainda que façam a injustiça de te desperdiçarem a experiência e a sensibilidade, manifesta-as.
Ainda que te liquidem, sobrevive.
Ainda que te desprezem, considera-te acolhido por Quem te ama e por quem amas.
Ainda que te minimizem, brilha.
Ainda que te visem destruir, manifesta-te inabalável.

Ainda que, mentindo, digam que não tens valor, sorri consciente do que vales.

sábado, setembro 09, 2006

O INTIMIDADOR














As coisas estão negras, estão muito negras.
E vão piorar ainda mais.
E a razão é amarela e canora.
E a razão é obviamente perigosa,
conforme se pode ver.

Cuidado com este pássaro tenebroso!


Joaquim Santos

A solidariedade na verdade não existe. Sob ataques injustos, fica-se só. Perante ofensas e calúnias, os amigos e conhecidos assobiam para o lado e é ao lado que passam. Mas é bom que se atravessem tais situações para ganhar couraça, para perceber até que ponto a tua identidade, a tua especificidade, a tua originalidade, a tua ousadia, mexem com certos indivíduos nas catacumbas dos sentimentos mais sombrios, das motivações mais abjectas. É bom sair vencedor precisamente aí, a partir de essa constatação fundamental num projecto criativo. Sair vencedor é seguir sendo como se é, tal e qual.


A INVEJA

«A inveja, amarga e amarela, é a planta maior do horto dos homens.

Dizem que é a reacção típica infantil. Talvez seja.

Se assim é, de facto, temos de concluir que boa parte da humanidade navega ainda em mares infantis. Não é raro surgirem manifestações de inveja entre irmãos de sangue.

No trabalho, na oficina, nos grupos humanos, nas comunidades, na arena das lutas políticas e sindicais, no mundo dos artistas, da ciência e da profissão...

A inveja puxa a cada momento do seu florete com que ataca pelas costas.

Ai daquele que triunfa! Muito em breve as vespas lhe cairão em cima. Os que encantam, os que brilham, os que conseguem ser queridos que se preparem para serem crivados de picadelas.

A inveja existe nas relações humanas em doses mais elevadas do que em geral se crê.

E digo isto porque a inveja, como se sabe, é tão feia, tão feia, que faz esforços enormes para se disfarçar. É uma espécie de víbora, que busca sempre um canto para se esconder.

Quanto mais feia é a sua cara, mais bonitos os disfarces que utiliza.

Por outras palavras: a inveja é sumamente racionalizante, ou seja, procura «razões para se disfarçar».

Diz a inveja: «aqui vos apresento cinco razões para demonstrar que fulano é um falhado».

Mas as cinco razões não passam de fachada; a verdadeira razão é uma sexta, a inveja.

Diz a inveja: «fulano não está a sair-se tão bem como vocês dizem: não se deram conta de que lhe falta brilho nos olhos, que exagera isto, aquilo e mais aquilo, que a sua entoação não tem o vigor exigido...».

Diz a inveja: «fulano não serve para esse cargo: a sua pedagogia não está actualizada, o seu poder de persuasão é relativo, a sua capacidade de comunicação medíocre; hoje, a sociedade precisa de homens com outras ideias, etc., etc., etc., ...».

Assim se disfarça a inveja, nunca ataca a descoberto, mas sempre encoberta das "razões". E desta maneira, sob a capa protectora de uma aparente racionalização, vegeta e engorda dando bicadas, minimizando méritos, apagando todo o brilho.

Muito se sofre por causa da inveja.

É porque vais ou porque não vais; porque fazes ou não fazes; porque dizes ou deixas de dizer...

E o povilhéu, à volta, começa uma série de interpretações e suposições: veio para se encontrar com tal ou tal pessoa; não veio para não se comprometer com tal ou qual coisa; foi lá com essa intenção; disse isto, mas o que queria dizer era aquilo...

E as pessoas vão projectando em ti os seus próprios mundos, o que eles fariam, as suas interpretações completamente subjectivas e gratuitas, que, com frequência, se aproxima da calúnia.

E, deste modo, começa a formar-se uma imagem distorcida da tua pessoa, imagem essa que vai tomando corpo até se converter na tua caricatura, o que é injusto.»

Ignacio Larragnaga, in Do Sofrimento à Paz


Em homenagem ao inofensivo RB.
Leiam-se ainda os abundantes e tão bem-humorados comentários anónimos neste e no post anterior.
(Avisam-se os mais susceptíveis que o risco de se escangalharem perigosamente a rir é real.)

CRIAÇÃO NA PROCESSUALIDADE

















Por que não haverá criação na processualidade,
na gradualidade, num sentido progressivo de expansão da vida,
desde a condensação ascendente do pó estelar disperso
ao estuto da consciência
e desta à eterna
subversão da
aparência?


Joaquim Santos