terça-feira, novembro 28, 2006

BENTA SÍNTESE LAMINADA














Para além de todas as facas
de esta gente pacífica, bem intencionada
e ignorante, hábil no grunhismo infernal,
para além de todas as lâminas recurvas,
do vício da indignação alarve,
de todas as ameaças desdentadas e barbudas,
de todos os desdéns que afinal o que querem é comprar,
de todas as teologias de contraditação:
(«Jesus não é o Filho de Deus.»)
de todas as facas recurvas,
em crescente lunar,
de toda a ferrugem nas facas-meia-lua.

Para além de toda a mentira,
de todo o preconceito,
de toda a violência pacífica
e de toda a paz violenta,
de toda a guerra,
de toda a arma,
de todo o grito,
de toda a bomba suicidária...

Para além disto e de mais do mesmo...

Em todo o sítio e lugar,
no Cosmos e para além do Cosmos,
é Cristo que Reina,
é Cristo que Vem,
Cristo é que é Deus,
na unidade Trinitária,
é Ele a glorificação do Homem AGORA
e em gérmen por explodir de Vida,
aos olhos de todos,
Belo e Viçoso!

O resto é o que há de retardatário e impaciente neste pó mundano.
O resto é só o uso da baioneta da estupidez,
gastas as munições do medo.

Joaquim Santos

sexta-feira, novembro 24, 2006

DIXIT DOMINUS DOMINO MEO
















Não há fúria que sempre dure
nem meandros de dor
pelo que todo o teu ser
vê e é mentira.

Ah, como é longo para nós este processo de submissão dos inimigos
até que se tornem escabelo dos Seus pés!
(«Dixit Dominus Domino meo,
Sede a dextris meis,
donec ponam inimicos tuos
scabelum pedum tuorum.»)
Ah, como é delicioso Handel ter feito a música que fez para isto em 1707!

Nem sempre espumarás de raiva
pelas pulhices de que se faz a vida
ou com que se dá a morte.

Haverá, sem dúvida, outras horas,
onde o teu amor,
onde a tua música,
onde os teus livros,
as tuas amizades,
a doçura da tua voz na conversa amena
o calor da tua benevolência antiga e incondicional,
o teu bom humor,
de Orfeu apaziguador, de Orfeu sedutor,
excedam tudo.

Joaquim Santos

quarta-feira, novembro 22, 2006

PAPEL-HIGIÉNICO OU A METAMORFOSE














O que eles querem é que sejas o papel-higiénico
que limpa o cu à Sociedade:
os casais separados,
os casais litigados,
os pais presos,
os pais desempregados,
as madrastas putas,
os enteados que odeiam as putas das madrastas,
os putos pelo meio,
limpa o cu, se és professor, à Sociedade,
aqui, no sítio do costume, onde se entretece a riqueza da relação pedagógica
por excelência, no espaço por excelência da relação pedagógica.

Exigem-te disciplina? Tu mostras o papel-higiénico
da complexidade de tudo e a fome de permissividade toma conta de ti.

O que eles querem é que te fodas,
que trabalhes, que atures do pior
transversal, vertical e obliquamente,
que ganhes cada vez menos com isso e a todos os níveis,
porque és um problema orçamental,
um número que pesa no balanço das contas.

Querem que te abastardes, que te desumanizes,
que dobres o pescoço, que aceites o jugo,
que faças a transumância do território por um pasto magro onde calhe,
concurso a concurso,
que fiques pobre, paralizado, separado de filhos e de esposa,
que te humilhes, que sejas nulo.

Calmamente, os hábeis secretários de estado do ministério sorriem
e vomitam demagogia para as TV's. São técnicos na proporção da hipocrisia e da cara de pau.
São técnicos, sem terreno, sem campo, sem experiência com a massa humana.
Só sabem ser cabrões com teorias nórdicas para este sul renitente a putices.

Enquanto isso cada vez mais entre ti e o papel-higiénico
nasce uma relação não metafórica, não simbólica:
tu que te fodas, que és um número,
tu que te fodas, que és um problema de finanças.

Tu que te lixes, que já não és gente,
já não contas como pessoa, docente,
agora és número, és papel e o mundo todo olha-te de soslaio,
burocratas da merda,
submissos à merda,
criativos apenas no rumor
e nos respectivos derivados de merda.

Quando a maquiavélica merdanistra
faz de ti papel-higiénico, àspero, de terceira,
Portugal já pode redentoramente limpar o cu
e poderá também vir a limpar as mãos trágicas,
mas à parede.

Os técnicos não reformam nada. Fodem tudo.
São técnicos. São burros que sorriem e têm calma.

Joaquim Santos

quinta-feira, novembro 16, 2006

O HOMEM QUE BERRA MAIS ALTO













Sócrates é uma coisa nova em Portugal.
Guterres, o bonzinho, tinha Cícero a correr-lhe misturado no sangue
e era eloquente e claro a argumentar
e tinha certezas infalíveis de papa, de buda: «PIB?... é-só-fazer-as-contas».

Cavaco nunca teve nada de importante a dizer, a não ser o chavão «estabilidade»,

que em Portugal é igual à estagnação do país, enquanto a classe dirigente engorda diligentemente a respectiva máquina partidária,
e esteve a maior parte do tempo calado, como ainda hoje.
É um homem sério e hirto com alguns genes bushianos
porque as ideias, tal como a língua, também se lhe entaramelam
e saem com queda ou para o ridículo ou para o óbvio.
Por isso, o silêncio, tal como o fato castanho ou preto ou cinza,
fica-lhe bem.

Mas Sócrates não. Sócrates berra mais alto que alguém alguma vez,
a não ser o palhaço do Jorge Coelho, que é democrata,
mas nazi nos berros do púlpito. Dá-lhe um frenesim e é todo um blá-blá estrídulo
que nos galvaniza de tédio e de um entusiasmo aborrecidíssimo.
Por vezes temos de levar com ele porque as TV's gostam do seu número de circo.

Veja-se a mole de gente que ousa achar estar o Estado

a sonegar-lhe direitos sociais e rendimentos do trabalho,
uma multidão que desfila, que tem palavras de ordem e justificados pruridos
contra os tiques autistas e tiranóides de alguns ministros.

Perante isto, o homem, Sócrates, minimiza, desvaloriza,
tolera pouco, mostra-se democrático ao contrário;
primeiro calmo naquelas entrevistas com sorriso estrategicamente dentro;
depois, sobretudo no Parlamento, é que se larga a ser arruaceiro,
aí é que peixeira inteiramente o discurso
porque grita,
porque dá pancada velha nos deputados opositivos,
agride-os, humilha-os, enxovalha-os, opõe-se ferozmente à oposição
num encarniçamento de hiena.
Homem impiedoso, agressivo. Perigoso.
E grita, grita mais alto: se pudesse,
com um megafone na mão, mais alto seria ou não houvesse muito de selva
numa zanga de bichas que se arranham muito e gritando,
gritando sempre, se atiram coisas.

Sócrates é mesmo uma coisa nova em Portugal.
A fama de reformista reforça-lhe os tiques unanimistas e a auto-legitimização metodológica.

Vê-lo é sabê-lo ainda a tomar conta da turma enquanto a professora, que só confia nele,
vai fumar um cigarro; é sabê-lo ainda o melhor aluno da Escola Primária,
bem penteado e de bibe irrepreensível;
o mais bem comportado dentre tanto aluno ranhoso e lento;
o mais impostor dos alunos, implorando, no final dos períodos,
que a sua excelência de facto seja ainda mais milimetricamente incontestável.

Sócrates tem um projecto para Portugal: deportar-nos da portugalidade

para a norte-americanidade; desportuguesiar-nos, ou melhor,
'gasear-nos' de USA.
Sócrates é o timoneiro de um amanhã novo,
quando passarmos a ser em tudo os primeiros norte-americanos europeus
na maior reviravolta social e cultural jamais vista num país, a não ser no Japão:
gente produtiva,
onde agora é mais beber de mais e bater nas mulheres até ao gozo sublime do homicídio,
gente trabalhadora,
onde agora é mais jornais desportivos e investimento podre no sector imobiliário,
gente tecnologicamente inovadora,
onde agora é mais papelinhos, agrafos e clipes para tudo,
gente economicamente agressiva,
onde agora é mais coçarem-se as partes apiolhadamente púbicas,
gente economicamente oportunista,
onde agora é mais distração do essencial com o nome oco, choroso e dramático do Vieira-Mártir da pureza desportiva no Benfica,
gente dinâmica e empreendedora,
onde agora é mais registos do Euromilhões, na Lotaria, e noutras fraudes sociais simpáticas,
gente com um arsenal, um paiol, em casa,
onde agora é sobretudo armas brancas de cozinha,
serrotes e machados ferrugentos na garagem.

Como o povo está errado e o país impossível,
claro que só podemos norte-americanizar-nos
e é para lá que, a ferro e fogo, Sócrates, o MIT, o Silicone Valley, da política com rumo,
nos quer levar
e aonde chegaremos mortos ou vivos!

Joaquim Santos

terça-feira, novembro 14, 2006

POLÍGONO VACA













Ó vacas científicas,
vacas sensíveis, encurraladas nessa liberdade
de pastar um pasto farto e verde!
Vacas, amigas, vamos olhar o Comos! Juntos.
Vacas fraternas, científicas,
de bosta aqui e ali quente, fumegante,
odorosa, fecunda,
honesta e sinceramente odorosa,
como sois justas, de grandes olhos, de caudas giratórias,
anti-mosquedo,
e tendes o automóvel,
e tendes o telescópio,
a paisagem serena,
e estais à chuva,
ao sol,
e podeis espreitar,
e podeis cheirar.

Vinde, fraternizemos!

Ó vacas outras merdanistras,
sardoniscas,
putas, cínicas, sérias, funéreas,
ministras,
vacas responsáveis, educativas,
sub-secretariais, negociais, estatutárias,
vacas de pose hirta e voz metálica,
vacas sentadas, ruminando decisões,
fingindo atender súplicas, indignações,
mas bem a cagar d'alto a bosta poderosa
para quem sofre e se afadiga as concretas situações,
vacas pomposas no mediático das TV’s chocalho,
vacas mentirosas, falsas, comó caralho!

Vacas a gerir metódicas, meticulosas a gerir,
sádicas a gerir como os doutores de Birknau
entre injecções, Monóxido de Carbono e Zyklon B
porque o que tem de ser tem muita força,
embora irracional, criminoso e mula.

Vacas dos sorteios puta,
Vacas das mentiras públicas,
das manipulações contínuas,
das encomendas e controlo rigorosíssimo da sorte e do azar,
vacas da sorte,
vacas da morte,
santas vacas, casa sem misericórdia!

Estais bem para todo o ridículo que uma mente humana conceba

quando vos lembrais de ainda fazer publicidade e mentir, mentir, e mentir!

Vacas que se aputalham naturalmente

com quem tenha,
com quem renda,
com quem cheire,
com quem vista,
com quem muitos cavalos,
vacas de hemorroidal tão intacta quanto a respectiva moral,
sempre em sangues e em dores aqui e ali,
quando tiveram dedo, especiaria ou a surpresa lubrificada,
que por amor não perdoou,
além do aspecto babuínico, convexo,
numa prévia experiência geriátrica debalde humildante.

São vacas que se aputalham,
fezes felizes, rostos que riem, no caminho de uma longa lista de enganados.

Joaquim Santos

terça-feira, novembro 07, 2006

DOR DE URNA


















Uma derrota feliz
à boca das urnas seria hoje ou amanhã
saber-se isto:
que o sniper de Bagdad nunca deveria ter tido como alvos
os pobres patos sentados militares norte-americanos;
saber-se isto:
que o erro tem de ser reconhecido, sim,
mas também corrigido
e que o erro pode ser não invadir já
a Coreia do Norte,
não intervir já no Darfur,
não caucionar já o TPI,
não assinar incondicionalmente já o Protocolo de Quioto.

Uma vitória feliz seria saber-se isto:
uma democracia que inchada vai sangrar as tiranias do mundo
pode é ficar bem quieta que atrairá quanta merda imaginar se possa.

Joaquim Santos

sexta-feira, novembro 03, 2006

BENTO, NÃO VÁS!


















Não vás à Turquia, Bento.
Não vás. Fica por casa. Permanece entre os tomos e os jardins
da tua cidade-estado.

A Turquia é território hostil e lá o laicismo
precisa de cem anos mais para criar a tolerância e o relativismo cultural e religioso
que sobram e são dormência já no Ocidente há muito em Coma aí.

Não vás. Temo por ti e pelo que te façam.
Pensa se não será melhor vindimar oculto numa terra qualquer e ter paz,
vê-te com o lenço ditoso na cabeça entre parreiras e cachos fartos,
carnavalescamente travestido numa velha de espírito endiebrado, por que não?
Pensa se não será melhor veranear noutro hemisfério
entre coqueiros e cabanas de palha.

Mas, pronto, sei que estás sereno e que vais.
Haja a violência que houver por causa de ti,
dos que representas
que é o Nome que a tua boca defende,
toda a violência alheia será sinal de vitória nossa.

O sangue inocente que alguns estão dispostos a verter é tão ridículo e feio e hediondo,
tão derrota para eles mesmos o terror que alguns pretendem desencadear,
tão inútil a chantagem em que uns poucos se apostam sobre o mundo,
que me parece dever eu ter calma e confiar sereno todo o tempo,
como sempre fiz.

Portanto, boa viagem, Bento.
Ficarei aqui a torcer por ti.


Joaquim Santos

quarta-feira, novembro 01, 2006

MONÓLOGO DA IRMÃ DÚVIDA














«Não aborteis, que diabo!
Por que abortais, imorais? - penso eu cá comigo,
de essas mulheres ricas e putas, de essas mulheres putas e pobres,
pois o meu pensamento ecoa-me como uma vergastada
de indignação santíssima e imaculadíssima,
torre de marfim, diadema,
de abjecção ao pecado dos homens!
Cuspo, cuspo na cidade dos homens e nas suas corrupções lúbricas
que conduzem direitinhas à perdição danada do fogo do inferno.

Tanta irresponsabilidade, porra,
e em sexo anal contraceptivo ninguém pensa!
Fodem todos como coelhos,
até formam associações,
mas afinal não se lembram da camisa-de-vénus.
Pensam todos no parque de diversões da foda,
e depois vê-se,
não pensam é no diafragma e no espermicida.
Isto é um deixar o carrinho mesmo à portinha do cemitério,
mesmo à porta do empreguinho,
mesmo à porta da lojinha,
mesmo à porta do depois vê-se.
Andar, usar as pernas, é para os outros.
Abortar brada aos Céus e este povo é um povo preguiçoso,

com o corpo mole.

Então o verde? Quero atravessar logo esta merda!

E agora atravessa-se outra vez à nossa frente
isto de votar no Referendo Abortivo!
Mas então não foi o outro Referendo já um aborto?!
Foram todos para a praia e ficou tudo igual,
menos o custo do exercício da cidadania, que foi caro e inútil,
continuou a penalizar-se, e, de vez em quando, a penalizar-se mediaticamente
com as mulheres do PC e do BE a fazerem solidários
broches aos longos micofones negros das TV's

e a empunhar cartazes libertários:
"No meu cu mando eu".

Se é para penalizar, é para penalizar.
Se não é para penalizar, não é para penalizar.
Que achais, Senhor? É crime, bem sabemos.
O Cardeal diz que é um problema de cada consciência,
mas se se fala em consciência é porque é mal abortalhar.
Será? Deve ser. Só se pode até às dez semanas, mais ou menos,
para se ser rigoroso e científico no torcer do gasganete.

Tem de vir agora um paneleiro de um governo fascizóide,
tecnologicamente obcecado,
intolerante com os legitimamente indignados no protesto, na greve,
um governo mentiroso nas desculpas e brutal nas taxas,
nos impostos,
nas coimas,
no caralho,
um governo insolente com os fracos,
sempre primo-ministerialmente sorridente e com papos sob os olhos,
assim como um parlamento vassalo, acrítico,
o parlamento da anomia,
blaterar o agora é que é Referendo!

Um governo reformista, mas elefantino e porcelanês.
Um governo da política selvática com os pequenos.
Um governo da política safari com os professores

da socióloga funérea e triste.

Os caminhos do mundo,
ai os caminhos do mundo,
Senhor!

Bem, é melhor atravessar.
E Deus que me perdoe.»



Joaquim Santos