quinta-feira, janeiro 31, 2008

MISS SNIQPER, BOM TOM E HIGIENE DISCURSIVA



Talvez pudesse argumentariamente quebrar-te as cartilagens
e apertar-te a garganta metafórica de me vires aqui dar lições
de boas maneiras e demonstrar-me precariamente a falta de chá, Miss Sniqper!
Talvez, com um golpe de rins brusco, te puxasse por um simbólico braço,
apertasse contra mim, nariz ante nariz, bafo de alho ante hálito a doninha,
e te mostrasse o que é dançar o tango de ter toda a razão sem espinhas
por contraponto à razão zero do teu desporto de rebaixar a alteridade
tal como é, Miss Sniqper, com os retoques que lhe queiras apor!
lkj
Não sei o que te diga do teu discurso abominável em torno do Bom Tom,
do Nível Elevado e da Decência-Decoro no discurso que, quanto a ti, me faltam!
Com o Decoro, com a Decência exterior, formal no meu discurso,
não passaria de uma besta anónima e sensaboria bosta,
obediente e servil aos Homens, muito a sós consigo mesma, como tu
e como outros muito a sós consigo mesmos e esquecidos nos seus blogues esquecidos.
Haverá algo mais sensaborão que o Kolmi? Não me parece!
Haverá algo mais injustamente relegado que a Geração de 60? Não me parece.
E porquê? Porque lá, onde parece haver a hipertrofia do bom tom e a ruborização virginal
com um par inócuo de caralhos e um feixe inofensivo de foda-se's
e um grupo inerme de puta-que-os-pariu, ditos e sublinhados com o meu afinal ar seráfico
de desterrado da Confortabilidade Social Tranquila e Proventosa
e do Elevado Estatuto Social
e da Pose de Estado
e do Cu-rrículo Intelectual,
há a Atrofia Completa do Sabor e do Insólito no dizer.
lkj
É por isso mesmo que essa tua 'classe' e esse teu 'nível' bettygrafsteiniano
é do mais piroso e inautêntico que imaginar se possa e me organiza espontâneo
um protesto dentro contra o encerramento urgente da minha urgência-maneira-de-ser
e de dizer, tal como são ambas.
Esses teus vestidos engomadíssimos
e essas tuas jóias ostentatórias de eu, joshua, é que sou doente do juízo
e excessivo e conspurcador da Razão e Ofensivo,
essas sentenças de salto alto de que eu é que sou maledicente,
essa maquilhagem requintada,
essa base barata, que enxameia de crosta o teu rosto, de que eu devo tirar o link Kolmi
da minha lista de links moribundos e irrelevantes, é de uma insegurança atroz,
insegura e frágil como estar vivo.
lkj
Caríssima e irrelevantíssima Miss Sniqper,
foi uma grande vitória poder beijar-te na boca opinativa,
onde mora sempre um desdém comprador e um asco que adora.
Pois se gostas de mim tal como sou, qual é o problema em admito-lo?!
Para que hei-de corrigir o perineo do meu verbo inconoclasta, porque o sugeres?
Para que insistes na vaginoplastia da minha maneira de ser, regulamentando-a?
Porquê a vulvoplastia do meu discurso com "foda-se's" dentro e "vai-te foder's"?
Para que hei-de reconstituir o hímen do meu dizer com sabor, só por tua causa?
Para que hás-de prescrever-me a lipoescultura da minha região púbica essencialmente minha?
Podias ter mantido e dar-me o benefício da indiferença,
mas não resististe a declarar-me a tua atenção por mim, e a definir-me,
não podias resistir a prescrever-me tratamento, internamento e a declarar-me sujo.
Tal espírito de intrusa invasão e de pressuposição abusiva dos outros
é que é notoriamente degradante e poluente em ti, Miss Sniqper e gente equiparável!
lkj
Vires até aqui poderia parecer o pegar pela ponta dos dedos num dejecto canino,
acto civilizacional excelente, agora tão em voga e sob a lei, por essas ruas citadinas,
onde os solitários mais míseros ainda passeiam um atenuador cão, vá lá!,
para o colocar, ao dejecto, no lugar prescrito para tal.
Mas não. Foi um acto amoroso. Foi uma condescendência submissa.
Rompeste a barreira do encantatório temido e vieste aqui
e eu tive pena e orgulho: pensei que o facto de declarares não gostar de mim
era a antipaxião apaixonada que melhor me convinha.
Pensei que dar-te antena e permitir-te a hemorróida moralóide altiva
contribuiria para a completa caracterização indirecta da tua feminilidade equivocada.
lkj
E assim foi.
Porque tudo é ofensivo e excessivo
a quem se plastificou e desumanizou: quem pretende manter o nível,
esse filho da puta que se interpõe ao que somos e nos atropela no que somos,
quem preferir a monocordicidade repetitiva e estereotipada ao rasgão e ao fim das tretas,
quem não consegue filtrar de isso outra coisa que isso,
pode realmente ir para a puta que o pariu como quem vai para o Céu dos Animais,
um lugar celeste para quem ficou isento de raiva, de inveja, de peste, de ódio,
de desequilíbrio, de misantropia, de misoginia, de cansaço desta humanidade injusta e cruel,
isento de fúrias, isento de fodas grosseiras, isento de excessos, isento de bebedeiras,
isento de ter sido homem, de o ter assumido. Prefiro o Céu para os Homens,
essa promessa indelével, rasgada pela crassa estupidez Republicana e Racional vigentes,
onde ainda há espaço para falhar clamorosamente sem quaisquer descomposturas divinas.
çlk
Ai dos que nos confinam pelo que dizemos.
Confinar-nos-iam em tudo o mais.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

PREDATÓRIA VOZ DO NADA


Gosto de ler os sábios que ainda nos restam:

Baptista-Bastos é um deles. Tão sensível quanto nós
às acções secas e às malfeitorias dos que nos governam,
tão atento e reactivo, como nós,
em face das construções-de-imagem desumanas e artificiais,
lembra Nestor, na Ilíada,
voz prudente e equilibrada, nas consultas aos deuses, nos conselhos aos homens.
O tempo deu-nos novas preocupações, quase inesperadas: o Oco, o Falso,
devoram-nos todos os dias,
transformam o cidadão em presa fácil em quase todos os planos da vida,
salvo para aqueles que se alienam ou subscrevem que sejamos presas fáceis
em todos os planos da vida.
lkj
Grassa em Portugal uma lógica de opressão e de silêncio.
Há quem navegue nela.
Há quem não a queira ver.
Há quem não acredite que exista,
mas todos os tiques absolutistas e sebastianinos e salazarentos,
plutocratizando tudo o mais possível, se concentram hoje nessa opressão e nesse silêncio.
Se concentram num homem.
Se concentram numa voz. Voz desenhada, maquilhada, sob a plástica do esgar pelo sorriso.
Uma voz além-gente, não-gente, apesar da gente.
lkj
A VOZ NA TELEVISÃO
ÇLKlkj
Sentei-me para escrever um texto saudoso e álacre sobre a Ava Gardner.
Acabara de rever, em DVD, A Condessa Descalça,
o filme em que Mankiewicz iluminou, vital, os seios míticos
e as ancas essenciais da então chamada "o mais belo animal do mundo".
lkj
Pensava ilustrar a beleza renascentista da imensamente adorada,
aplicando, à imaginada crónica, um breve toque intelectual,
com uma citação de Shakespeare,
que, no Hamlet, faz dizer a Horácio:
"Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia."
çlk
Há; melhor: havia - a Ava Gardner, síntese de todas as deusas voláteis e etéreas.
Os adjectivos não eram maus, pensei,
sacudido por áspera nostalgia de mim próprio.
Preparava-me, pois, para comover, levemente embora,

os leitores da minha geração, acaso de outras,
com estes abandonos líricos, eis senão quando uma voz na televisão,
lá dentro, atraiu a minha malvada curiosidade e desviou-me do saudoso intento.
lkj
Que dizia a voz, assim tão importante,

que sobrelevava as instâncias dos meus impulsos de autor de imprensa?
Era um homem. E fazia troça cruel de quem dele desacordava:
de sindicatos,
de jornalistas,
de comentadores,
de todos os partidos que não o seu,
mas também de alguns daqueles, iguais comungantes,
em atrito com o que ele fazia.
çlk
Não percebi muito bem onde o homem falava: congresso, reunião, assembleia, igreja?
Sei que o homem estava a deixar-nos para trás;
e não há nada mais penoso do que sermos deixados para trás.
çlk

O homem na televisão era somente voz:
voz que apenas a si mesmo ouvia;
voz inevitável para ela própria;
voz impessoal, velha, fatigada como uma solenidade, inconvicta,
em pleno processo de desumanização.
O homem falava para se ouvir. Falava; não estava a dizer nada.
çlk
Elogiava-se e ao Governo que dirigia.

Na Saúde, na Justiça, na Economia, na Cultura,
no Emprego, na Educação, nas Obras Públicas, tudo deslizava,
com suavidade, para o irreversível ponto de exclamação
que será a sociedade próspera e abundante.
O absurdo atingia a dimensão da inconsciência abjecta.
O homem na televisão deixara de o ser: era, unicamente, voz.
Voz efémera, que desembarcava numa auto-admiração inviolável;
voz de catálogo turístico.
çlk
As vozes humanas possuem cor, luminosidade, magia,

transcendência, grandeza, música, presença física.
A voz do homem na televisão era dissimulada, quadrada e cava.
Uma mentira instantânea que se repetia sem perdão. Um eco do oco.
lçk
Regressei à Condessa Descalça e à memória da frase de Bogart:

"A ilusão procura sempre dar solidez ao vento."
Ia para continuar. Mas o meu espaço é este.
Que o homem fique com a sua voz; eu, com a minha repulsa.
E por aqui me fecho, como diria mestre Camilo.
kljlkj
Baptista-Bastos, in «DN», 30 de Janeiro de 2008

Hot Line (INEM-Bombeiros de Mafamude)

Adeusinho à toada insensível, piadística com mortes, do fechar primeiro e prover depois, ultra-liberalista, inexplicada, desumana, exclusivamente técnica e mesmo aí mal! das políticas correia-de-campesinas. Adeusinho! Não deixa saudades.

terça-feira, janeiro 29, 2008

BLOND WOMEN (PSEUDO INCLUÍDAS)


Doutoramento? Somente no Encantatório, Marilyn.
No resto, em estado-deriva de Vida
esmaecendo nela entontecida, perdida.
De macho DiMagio efeminado em efeminado macho-qualquer-outro,
semelhante a um pai por ter,
que todo o homem no desejar-te, possuir-te e venerar-te,
efemina-se, afinal, de submissão fêmea
a ti, Fêmea Ilustre ao Espelho Resplandecente
entre as fêmeas.
çkl
Que a tua própria luz te encandeava labiríntica,
já outros o escreveram.
Que a suposta medíocre atriz em ti era o colosso em ícone que se impunha,
já outros o disseram.
ljk
Falta dizer da velhice esplendorosa que não tiveste
e que a todas as sobreviventes sepulta de oblívio e partes sobressalentes,
peles,
esticadas membranas interdigitais intrafaciais.
É um golpe de génio acabar cedo e em beleza!
Talvez a Morte namore e flagre qualquer ego desmesurado em Ego.
Talvez ela trague, inesperada, só, como tu, Marilyn, aprendizes de Divo.
lkj
Mas, que se saiba, estás bem viva em Relâmpagos de Luz,
materializações imateriais de Onírico, à mão de sonhar,
sempre posando e sorrindo, acabada de acordar, embevecido coração,
sempre posando e sorrindo, acabada de, em Coito, suspirar
e estremecer-frémito e suspirar gemendo daquele Gozo-Som
que Gozas em cerebral Gonzo Retinir e te entontece Doido.
lkj
E assim me rouquejas, rendida: «Foi Bom, foi Mesmo Bom!».

domingo, janeiro 27, 2008

ESSÊNCIA REPOSTA EM RESPOSTA À BLONDEWITHAPHD


Minha querida Blonde, desde o princípio que sabes quem sou no âmago
e por isso mesmo não te deixas cegar de rejeição apressada e timorata de mim
em face da hegemonia por vezes desse meu lado Sáurio,
reptilianamente Tirano que parece só violência e aspereza.
lkj
Eu, que passo os meus dias a enternecer-me com os seres humanos
sob a limpidez de um amor divino, manso, embebido em Cristo
e dos Sentimentos que Havia n'Ele, quando porém escrevo,
rasgo todos os véus e abro todas as feridas como quem, em desespero,
quer ir mais além, até mesmo ao limite do Revelar Total
de quanto margina ocultamente esse Rio de Amor Represado
que deveria jorrar dos corações. Eis tudo.
lkj
É um instinto básico meu.
É uma predação sem peias, cruel, e ela, sim, Cega,
e, no entanto, preside-lhe a demolição permanente do supérfluo
que se interpõe coração a coração.
lkj
No que à Fé Comunitariamente Celebrada diz respeito,
atravesso uma fase eremítica, como Antão, lembras-te?
A vida comunitária era-me fonte de um sofrimento e de uma ânsia dilacerantes
em face do que via discrepante com um amor incondicional pessoa a pessoa, caso a caso.
Não via delicadeza. E a minha delicadeza
era lida como esbatimento da exigência dos critérios da Fé ou frouxidão moral.
Tive por isso mesmo de me preservar, antes que morresse de desgosto,
(não pude preservar-me de enlouquecer perante tanta ingratidão!)
e aguardo um Tempo Novo,
um Grande Recomeço: há sempre um Santuário
onde tudo é Frescura-de-Alma e Consolo Íntimo.
lkj
Na verdade, toda a nossa tradição de Fé,
desde a sua origem, é o mistério de um Amor Dilacerado.
O Pai entrega-Se, mas quem O acolhe?
A sua Palavra é oferecida, mas quem responde?
O seu Espírito é difundido, mas ainda não partilhado.
çlk
A Criação é puro dom, mas ainda à espera do Acolhimento.
Nesse Very First Princípio, tantas vezes ignorado por nós,
o Deus Vivo experimenta a sua primeira kenose*:
o seu amor já se revela aí, mas na penumbra duma promessa ignorada.
lkj
Ora, o meu coração de ADORADOR DO DEUS ALTÍSSIMO
é um grito de impaciência por que haja esse Acolhimento em mim, claro,
e no cerne das pessoas,
por que essa Resposta seja dada,
por que todos vivam uma permanente Parusia
e uma profunda KENOSE HUMANA.
A minha grande tónica instintiva é a vivência de essa KENOSE.
lkj
Eu sou também um homem sofredor:
às minhas mãos e às mãos dos outros seres humanos com quem me foi dado cruzar-me,
mas isso é o labririnto da minha história pessoal
com a qual estamos sempre a tentar reconciliar-nos.
lkj
Minha querida Blonde, hoje, agorinha mesmo,
e para ti SEMPRE!, Joshua, só Joshua = Deus Salva!
lkj
TODA A TERNURA!

*KENOSE: cf. Fl 2, 7. A expressão «esvaziou-se de si mesmo» ou «aniquilou-se»
tornou-se substantivo na nossa língua. O Filho permanece Deus ao incarnar,
mas despoja-Se da sua glória a ponto de ficar «irreconhecível» (cf. Is 53, 2-3).
lkj
A kenose é a maneira divina de amar: tornar-se homem até ao fim, sem se impor nem forçar.
Trata-se, em primeiro lugar, da kenose do Verbo na Encarnação,
que se completa na kenose do Espírito Santo na Igreja e revela a do Deus vivo na criação.
O mistério da Aliança está por debaixo do sinal da kenose:
quanto mais profunda for, mais total é a união.
A nossa divinização é o encontro da kenose de Deus com a do homem,
e traz consigo a exigência fundamental do Evangelho:
seremos um com Cristo,
na medida em que nos «perdermos» por causa d’Ele.

sábado, janeiro 26, 2008

DEIXAR ALOURAR EM LUME BRANDO E JUNTAR CARALHO E LOURO


Não concordo nada contigo.
Pode não ser por orgulho mefistofelicamente-induzido-em-Fausto
que se prolongam artificialmente vidas claudicantes ou em falência,
mas por um imperativo que nos é congénito:
viver mais, aprender a viver mais, melhorar o viver mais,
compreender melhor o por que se morre.
lkj
Se toda a técnica de ressuscitação e conservação de toda a vida precária,
continuamente aperfeiçoada, é uma tendência exercida de forma sádica para com alguns,
há-de ser também justamente exercida de forma vital para com outros
e o critério geral norteador deverá ser o Vital
e não o Mórbido por negligência eticamente fundamentada,
que é um perfeito absurdo pelo descontrolo e arbitrariedade que faz pressupor.
lkj
Agora, o que me parece grave é a Morte-em-Vida dos Orgulhosos
e dos que têm Pose de Mais e Posição Social e Status Social de Mais na Vida:
Advogados, Certos Professores Com Pés de Barro Incrustados na Carreira,
Docentes Universitários, afinal Mortais, como todos os outros,
mas que se habituam a uma forma de infravida:
sonegam-se as emoções,
odeiam as lamechices, mas no fundo traem a dimensão autêntica de si mesmos
como Seres Humanos que se desfazem em Merda em certas alturas intestinalmente desfavoráveis. Não choram em público.
Não peidam distraidamente em público sem enrubescer de pudor,
pela buzina do peido e pelo respectivo fedor,
não beijam em público:
são um esfíncter esfíngico de hiperCONTROLO de si-mesmos.
lkj
Vão para o caralho! Se os pusermos a cagar Leis
e a cagar Avaliações de Desempenho,
em pouco tempo transformam-se nos Drs. Mengele das sociedades modernas,
experimentalistas geradores de triagens e torturas,
despoletando a revolta geral, a inveja geral,
a insatisfação geral e geradores precisamente do próprio pesadelo de violência
que a todos há-de (ou pode!) reflexa e consequentemente tragar,
como já aconteceu no passado, lição desaprendida.
lkj
Até o seu Catolicismo é Pose, é uma marca-Bem,
um ferrete Social-Bem e sem mais fundura
que a crosta Social Privilegiada que a enquadra de Chique,
cheia de A-Condizer Catolicismo com muito Ismo dentro.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

DESIDÉRIO MURCHO


TOLERÂNCIA E OFENSA
lkj
«A tolerância é uma das noções mais difíceis de compreender.
Confunde-se geralmente com o relativismo epistémico
e esta confusão denuncia incapacidade ou até falta de vontade para aceitar a tolerância.
lkj
Os pensadores pós-modernistas são responsáveis
por contaminar a cultura contemporânea com esta confusão grave,
que acaba por tornar impossível a genuína tolerância.
Ser tolerante é aceitar o direito de alguém afirmar
o que pensamos firmemente ser falso ou errado ou inaceitável ou ofensivo.
çlk
Isto é de tal modo difícil de assimilar
que os pensadores pós-modernistas se sentem na necessidade de declarar
que não há "verdades", mas apenas "construções sociais da realidade".
E, por causa disso, todas as diferentes "construções" são igualmente aceitáveis.
Pensa-se então que esta atitude é tolerante, quando, ironicamente,
torna impossível a tolerância.
çlkj
Pois se ninguém pode realmente estar errado
nem dizer coisas falsas nem inaceitáveis,
não podemos realmente ser tolerantes:
limitamo-nos a aceitar todas as perspectivas
que reconhecemos à partida serem tão aceitáveis como as nossas.
klj
Pior: a falsa tolerância abre as portas ao fanatismo,
cada vez mais presente na sociedade contemporânea.
O fanatismo consiste em usar sistematicamente a noção de ofensa
para silenciar os outros. Assiste-se assim à imposição de um discurso falsamente politicamente correcto, proibindo-se seja quem for
de dizer seja o que for que possa ser ofensivo seja para quem for.
lkj
Não se pode dizer que o cristianismo, o islamismo,
o budismo ou o judaísmo são basicamente tolices supersticiosas,
porque isso é ofensivo. Não se pode dizer, como James Watson,
que os negros são menos inteligentes do que os brancos.
Não se pode fazer cartoons a gozar com Maomé.
E, numa reviravolta digna dos Monthy Python,
os docentes da Universidade de Roma La Sapienza
declaram-se ofendidos com as opiniões do Papa sobre Galileu
e os estudantes encenam protestos mediáticos
análogos aos protestos contra os cartoons do Maomé.
lkj
A tolerância pressupõe a convicção do erro.
Só podemos tolerar o que estamos convictos que é um erro inaceitável,
uma falsidade patente, um absurdo ofensivo.
Tolerar é tolerar humanamente.
Não é tolerar epistemicamente,
no sentido de defender que qualquer afirmação é igualmente justificável epistemicamente.
Não é epistemicamente justificável a opinião
de que o Holocausto não existiu ou que qualquer negro
é menos inteligente do que qualquer branco
ou que os seres humanos descendem de Adão e Eva.
ljk
E é precisamente porque tais opiniões são claramente falsas,
claramente injustificáveis, que podemos ser tolerantes relativamente
a quem as defende. Ser tolerante é defender as pessoas que têm ideias falsas,
idiotas ou inaceitáveis e atacar essas ideias;
não é atacar as pessoas para evitar o incómodo de provar
que as suas ideias são falsas.
E, se tais ideias nos ofendem, paciência.
Não é possível garantir a liberdade de expressão
e ao mesmo tempo garantir que não seremos ofendidos».
lkj
22 de Janeiro, Público

UM ESTRANHO ESPÍRITO DE BLOGA


Há um certo modo de ser blogue com que não me identifico.
Ele aparece no nosso sítio desolado, de passagem, e convida, convida.
E nós vamos, arrastados por um braço ou por uma trela psíquica cheia de curioso.
E até pode valer a pena. Mas a compressa de convidar, de forçar as coisas,
esbarra com a minha natureza livre e intuitiva, mas sobretudo insubmissa.
Não estou a dizer que quem muito convida não tenha um mérito infinito.
Estou só a dizer que força e comprime a minha delicada liberdade de iniciativa,
que é afinal uma coisa sagrada,
e estou só a dizer que sou incapaz do mesmo ímpeto arrebanhador.
lkj
Às vezes, muitíssimas vezes, sei e sinto que fiz um belíssimo e criativíssimo texto,
não importa o seu tamanho porque, se for lido a sério, não tem tamanho:
eu babo por ele, sei que é bom, é intenso, é ácido e doce, a um tempo, o meu texto,
sei que tem fruta madura, sei que arrebata, que faz formigar o estômago, o meu texto,
sei que é como preliminares ao bom sexo, o meu texto,
sei que é como quando se beija muito na boca, o meu texto,
sei que é como penetrar com gosto e perder a cabeça de prazer e de orgasmo, o meu texto,
sei que é um ataque ao convencional e um insólito convicto, o meu texto,
sei que dá um tesão de aço lê-lo, ao meu texto,
porém, quem me lê, além dos meus queridos amigos que valem por um milhão,
quem acede ao prazer engastado na minha Palavra Ultra-Poética?
kjlkj
Eu sei que tenho estes desabafos por vezes como quem o lamenta,
e que a quem os lê soará talvez a dejá vu,
mas não se pense que descreio de mim e que o meu é um desânimo pelo desânimo,
um desânimo sem alento, sem orgulho, sem Fé, sem entrega.
Não é. Acredito no acesso LIVRE ao que escrevo,
sem convite nem compressas de ter de vir aqui,
que um dia conquistarei.
lkj
As melhores conquistas começaram pelo potencial extraordinário
da minúscula semente da mostarda.
O mesmo Foi Dito da Fé.
E do que Foi Dito da Fé nada se perdeu!

quinta-feira, janeiro 24, 2008

OBSCURANTISMO/FUNDAMENTALISMO LAICO DOS "SÁBIOS" DE ROMA


«Há dias que quase toda a gente os anda a condenar.
Parece-me que chegou a altura de lhes agradecer.
Falo dos “sábios” que a semana passada,
guiados por um velho estalinista e apoiados pela polícia de choque da “antiglobalização”, dissuadiram o Papa de visitar a Universidade La Sapienza de Roma.
lkj
No fim, deram-nos a todos um pretexto para rever matéria
sobre teoria e história da tolerância. Não era esse o objectivo? Foi esse o efeito.
E permitam-me que também aproveite a boleia. Quem sabe?
Talvez os “sábios” tenham aprendido alguma coisa
e não nos proporcionem tão cedo outra oportunidade.
lkj
Parece que há gente, na Europa,
a quem as religiões voltaram a meter medo.
Depois do 11 de Setembro, a religião tomou o lugar
que o nacionalismo tinha no tempo da guerra da Jugoslávia.
lkj
[...] Enganaram-se de século? É por hábito?
Ou dá-lhes mais jeito mostrar contra o Papa
a coragem que lhes falta perante os jihadistas?
Pois: morrer pelas ideias, mas de morte lenta.
Sim, na Europa, até ao século XIX, as igrejas de Estado resistiram ao pluralismo
e à sua expressão. Mas a intolerância e a perseguição
que milhões de europeus sofreram nos últimos duzentos anos
não se ficaram a dever às religiões tradicionais,
mas às modernas ideologias laicas.
Os deuses dos que não acreditam em Deus foram sempre os mais sedentos.
Em nome do Ente Supremo, da ciência ou do racismo pagão, republicanos jacobinos, marxistas-leninistas e fascistas “moralizaram”,
proibiram e abasteceram largamente cemitérios e valas comuns.
lkj
Os que prezam a liberdade de “errar” (e não apenas a de pensar “correctamente”)
têm uma dívida para com quem criticou os velhos dogmas,
como Voltaire, mas também para com quem resistiu aos novos,
como João Paulo II. Neste mundo, a liberdade de pensamento não tem pais exclusivos.
O fundamentalismo laicista trata toda a convicção religiosa
como o vestígio absurdo de uma idade arcaica,
intolerável fora do espaço privado.
Mas a fé não é fácil, não é uma opção primitiva
nem simplesmente um preconceito.
Ou antes: pode ser tudo isso,
mas pode também corresponder à mais forte exigência intelectual
e à disponibilidade para enfrentar profundamente as mais difíceis de todas as dúvidas.
lkj
Exactamente, aliás, como o ateísmo: há quem o viva
como um dogma beato, muito contente consigo próprio,
ou quem o tenha adoptado como a forma mais conveniente de não pensar.
Muitos são hoje ateus pelas mesmas razões por que teriam sido beatos no século XVII.
E se mandam calar Bento XVI é porque, há quatro séculos, teriam mandado calar Galileu.
kjlkj
[...] O jihadismo, como argumentou John Gray,
deve tanto ou mais às ideologias laicas europeias do que à tradição islâmica.
lkj
[...] Nos EUA, a religião pertence ao espaço público,
sem que o Estado deixe de continuar separado de qualquer igreja.
lkjlkj
[...] Numa cultura intoxicada pela hubris da ciência e das ideologias modernas,
certas religiões conservaram, melhor do que outros sistemas,
a consciência e o escrúpulo dos limites.
O mesmo se poderia dizer da questão da verdade,
que a ciência pós-moderna negou,
sem se importar de reduzir o debate intelectual ao choque animalesco de subjectividades.
lkj
Não, não é preciso fé para perceber que das religiões reveladas
(e doutras tradições de iniciação espiritual)
depende largamente a infra-estrutura de convicções e sentimentos
que sustenta a nossa vida.
O seu silenciamento no espaço público não seria um ganho,
mas uma perda. No dia em que não pudermos ouvir Bento XVI,
seremos mais obscurantistas e menos livres.
lkj
Obrigado aos “sábios” de Roma por nos terem dado ocasião para lembrar isto.»
lkj
Rui Ramos, Obrigado aos “sábios” de Roma, (excertos), in Público

PORTUGAL, PAÍS ADMIRAVELMENTE SALOIO-ZEN


Há textos fabulosos, pelos quais se sintetiza, em autópsia e em antítese,
o estado de maturidade nacional
e de intervenção cívica em Portugal: ZERO. NADA. NIHIL.
Esta Merda é uma dormição de Branca de Neve sem beijo de Príncipe ressuscitador.
Esta Merda tem uma Bruxa Má à frente e os Sete Anões assobiam para o lado.
O Governo é um portento de controlo obsceno de tudo e de intrusão inédita na esfera privada.
O Governo faz propaganda e zurze à força toda no parco navegar do simples cidadão.
A Oposição menezista é uma imitação em Fraco e em Frouxo do Governo,
anuindo mais que contrastando.
A Oposição é uma tragédia de Burro, com Menezes a desastrar sucessivamente
num abrir de boca sempre desastrado, porque, no seu caso, ou Moás ou Portugal.
E Moás tem tido mais 'sorte' que Portugal
com o Menezes que poderia interpretar e escutar as bases,
mas que afinal cortou com elas e decalca todo o posicionamento político
com o que está a fazer-se com invisíveis demarcações Morais, Éticas, de Forma e de Fundo,
ficando-se pela grande mercearia dos lugares pluto-interessantes
e o surf pontual das pequenas aparições pontualísticas de oportunismo inconsequente.
Parecia outro Menezes, aquando da eleição para líder, em sintonia com o Povo.
Se existiu, evanesceu-se! Não é mais!
País confrangedor!
Constança Cunha e Sá surge extraordinária neste artigo de Opinião,
modelo de observação e de consciência penetrante de Isto Improvável chamado Portugal:
lkj
O RAPTO DE MARILU*
(Transcrição via Portugal dos Pequeninos)
lkj
«Há pequenos incidentes que, na sua aparente insignificância,
valem pelo mundo que revelam.
Não é necessário chegar aos excessos do ministro Mário Lino,
onde o advérbio francês "jamais" compete efusivamente com "desertos"
a preservar a todo o custo e com a irresponsabilidade das decisões governamentais.
çlk
Às vezes basta a auto-satisfação miúda
com que um ministro alardeia o "pluralismo" do PS
e a generosidade de um governo que se dá ao luxo de "permitir"
que um militante socialista se apresente numa televisão privada a criticar as políticas apadrinhadas pelo primeiro-ministro e chefe supremo do partido.
çlk
Perante um exemplo tão magnífico como este,
o dr. Santos Silva não se conteve: desafiando adversários
e dois ou três socialistas que primam pela ingratidão e pela excentricidade,
o ministro, sempre atento a qualquer tipo de desvio na informação, pegou numa pequena entrevista na SIC-Notícias, dada por Manuel Alegre,
para cúmulo, em "horário nobre" e não madrugada dentro, como seria de esperar,
e fez deste simples episódio uma prova irrefutável do "pluralismo"
que floresce na maioria que nos governa.
çlk
Manuel Alegre? Na SIC-Notícias? Com direito a horário nobre?
E, ainda por cima, a exigir a demissão do ministro da Saúde?
Como se comprova pelo esfusiante arrazoado do ministro,
é nestes pequenos nadas, nestes inesperados episódios
que o "pluralismo" socialista se revela em todo o seu esplendor.
lkj
O dr. Menezes, que preside, agora, com mestria à desagregação do PSD,
devia seguir estes exemplos de democracia e de liberdade interna,
em vez de andar, por aí, com o dr. Santana Lopes,
a insultar os seus opositores, ameaçando-os com as próximas listas de deputados
- que, ainda no último congresso, no início do descalabro,
iam ser feitas pelas "bases" do partido:
esse mito do aparelho que preserva os seus interesses
e promove a menoridade dos seus caciques.
çlk
No PS, como se depreende das declarações do ministro Santos Silva,
o "pluralismo" resplandece sempre que uma voz desalinhada irrompe
num canal de televisão onde, aproveitando o pequeno espaço que lhe é dado,
sacode umas opiniões incómodas, perante a satisfação do Governo
e a impassibilidade das sondagens.
lkj
Como é óbvio, se a "prova" apresentada pelo dr. Santos Silva fosse um facto banal,
como é em todas as democracias,
o alarido do ministro não só não se justificava
como o levava (quem sabe?) a reflectir sobre o rumo do Governo e o papel do PS.
É o carácter excepcional da entrevista, a inexistência de espírito crítico num partido que,
hoje em dia, se caracteriza pelo conformismo e pela unanimidade
cada vez mais forçada que permite a apresentação desta "prova"
como sinal de um pluralismo
- que se existisse não se deixava obviamente apresentar como prova!
lkj
Só o autismo de um ministro,
que vive na sombra do eng. Sócrates,
é capaz de transformar uma crítica interna num mero trunfo de propaganda.
Porque parte de um princípio contrário a qualquer tipo de pluralismo:
ou seja, que toda a crítica é inócua a partir do momento em que se considera
que a única alternativa à política do eng. Sócrates é o próprio eng. Sócrates, independentemente do fracasso da sua política e das suas promessas por cumprir.
lkj
Afastada, durante seis meses, da política nacional,
por motivos pessoais, seguindo à distância as inúmeras celebrações do Governo,
os vários "escândalos" nacionais,
as desgraças da oposição,
os novos fundamentalismos que, por aí pululam,
as previsões económicas para 2008
e o invariável falhanço das reformas anunciadas,
fui vendo como o país se fazia e refazia, diariamente,
ao sabor das últimas notícias, perante a fragilidade de uma opinião pública
que se indigna com facilidade e se esquece com rapidez do que é, de facto, essencial.
lkj
Ao fim de pouco tempo, tudo se mistura e se esvai
numa amálgama de factos nivelados pela falta de memória,
donde nada sobressai: da eleição do dr. Menezes que,
num momento alto de patriotismo, garantiu que só correria, em território nacional, nomeadamente na Avenida dos Aliados e na Avenida da Liberdade,
ao optimismo do Governo perante o quadro desanimador da economia,
da miséria das reformas ao aumento do desemprego,
da Ota e do que lá se gastou inutilmente à nova polícia dos costumes,
da intromissão do Estado na vida privada dos cidadãos
aos negócios obscuros que, mais uma vez, serão investigados "doa a quem doer",
da contínua degradação da Justiça à farsa que se vive na Educação,
do referendo ao Tratado de Lisboa que não se vai fazer
à amena cavaqueira sobre as promessas dos políticos que ficam por cumprir,
da agonia pública do Banco Comercial Português (BCP)
à sua transformação numa espécie de delegação governamental,
da reacção do PSD que, em nome de uma justa repartição de lugares,
exigiu que um militante seu ficasse à frente da caixa Geral de Depósitos (CGD)
à vontade expressa do dr. Armando Vara querer ir para o BCP,
permanecendo, ao mesmo tempo, nos quadros da CGD,
ficou apenas uma impressão difusa,
subjugada pelo desejo permanente de novidade
e pela forma esmagadora como ela nos cai em cima.
lkj
De um dia para o outro, a fragilidade do capitalismo português,
a dependência dos grupos económicos do Estado,
a promiscuidade entre o sector público e o sector privado
e todos os grandes negócios que ficam por explicar
são substituídos por umas intrigas no PSD
e pelo rapto da Marilu.»
lkj
*Por Constança Cunha e Sá, editado na edição do Público de 24.1.08

CRISTIANO RONALDO vs BUGATTI VEYRON - NIKE MERCURIAL VAPOR IV

Recentemente, a Nike lançou no mercado as suas novas chuteiras desportivas Mercurial Vapor IV, promovendo-as de uma maneira muito original ao colocar Cristiano Ronaldo, futbolista do Manchester United de Inglaterra, num duelo de velocidade e de tracção junto ao carro Bugatti Veyron.

Diga-se que estes dois elementos são considerados os expoentes de suas respectivas áreas.
O futbolista, há pouco foi avaliado pelo seu clube em 147 milhões de dólares, o que o faz o jogador mais caro da história, enquanto que o automóvel é o mais rápido do mundo, alcançando uma velocidade de 407 km/h.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

LET IT BE BEE, DESENTUSADA HORA


Sobrevivência, sobrevivência, sem dúvida.
Aos mais diversos níveis da Cadeia Alimentar Nacional, CAA:
se aos portugueses nada os molesta
dos besouros e abelhas diligentes na arte de açambarcar,
dentro da Lei, mas fora da Moral,
e o problema dos de Anadia é lá com eles,
não estranhem que tudo possa acontecer ou o pior esteja por vir
no magno processo geral de sobrevivência.
lkj
Isto é todos a fazer por si mesmos e uns mais que outros nesse processo expedito.
Deus me perdoe, mas, pela minha parte, por vezes rodeado por filhos da puta autoritários.
Não quero abusar do calão, não quero chocar os meus novos leitores com os leitões do calão,
mas há raivas que por vezes sobem por mim acima por causa disso: um caramelo,
um perfeito caralho vem - sem mandato para tal! - perguntar se
«sim, senhor, e os cartões e tal?» São migalhinhas de nada, aqui no Pub,
o sobrinho do meu Patrãozolas é um anão mimado, com a mania do mando-em-garnizé,
e de vez em quando lembra-se de andar a pastar uma autoritarite
que nem o Tio lhe autorga, isso, além da ciumeira ridícula da namorada brasileira
com vigilâncias de completo tóino que não se manca. Há poucos minutos,
veio, todo cabrãozolas, desancar na tóxico-Manuela, tratando-a abaixo de cão,
o filho da putazinho, só por se acercar de mais da sua benfeitora do sapatinho vermelho
e da porta do Pub.
lkj
Mas são estas coisas que, sendo milgalhas passageiras, por vezes se agigantam à minha
sensibilidade de professor exilado do lado sádico e envenenado da profissão,
veneno, diga-se, inoculado pela Ministra Maria de Lurdes Rodrigues e seus sequazes,
e que está basicamente, sem que ninguém pense muito nisso, a equiparar a docência
à magnífica actividade profissional das Empregadas de Limpeza,
com o aplauso de umas quantas luminárias docentes que sempre se remoeram
contra certos colegas não lá muito zelosos ou cuidadosos a lavar loiça.
Isto porque o espírito de caça às bruxas e de limpeza do sistema, agora em curso,
que, como costumo dizer, nenhuma Noruega viu, só é mesmo possível no Inquisitorial Portugal,
o velho Portugal dos Bufos, dos denunciadores, dos grandes Autos-da-Fé,
agora exclusivamente para certos grupos profissionais
que é politicamente correcto limpar de excedentes teimosos
e que é um belo pretexto de Poder e nada mais:
sempre me pareceu que muitos professores
causaram mais danos íntimos que algum bem perene
aos alunos sensíveis à cretinice (pressão compressora) de uma aula tensa,
mas este assunto, com os Sindicatos Roucos, cada vez me interessa menos.
lkj
Sinto-me encurralado. Vi também Vitor Constâncio encurralado,
arrastando de seca e sono o seu discurso soporífero no Parlamento bocejante:
boa táctica auto-branqueadora, não há dúvida!
De mansinho, foi avisando que em todo o mundo era igual e tal
e que o excesso de desenterramento de factos poderia ser devastador para o Sistema.
É óbvio que todos se calariam, se descobrissem que por aí viria
um portentado banqueiro internacional qualquer a comprar os bancos de merda nacionais
e os seus 70 mil milhões de euros de dívida à Banca Estrangeira.
É a sobrevivência, a tal sobrevivência que obriga a ilícitos e à vista grossa
para com certos favorecimentos caseiros.
Um dia, talvez tudo seja possível e se prove melhor como a democracia,
tal como está, é uma completa tirania plutocrática que se disfarça o melhor que pode.
Como boa parte da população é idosa, não há esperma para revolucionar insurgências.
Como boa parte da população activa é indiferente e passa bem com a opressão,
desde que se exerça com os outros, não há espírito de mobilização social.
O Pão e o Circo entra-nos por casa adentro, morfinizando-nos as dores e as faltas.
lkj
Mas fodido ando eu. Não preciso de engolir pseudohierarquias e humilhações
por migalhentas que sejam. Expludo de Orgulho. Peco de ele, devo dizer.
Estou no meu limite. Por todo o lado, o cerco fecha-se, aperta-se, canino, em matilha,
apertando os colhões à minha sensação de 'Basta!'. Uma sensação que deveria ser geral.
Não me apetece ter medo, não estou para isso.
Darei o meu passo em frente, arriscarei falar tal como o Ministro Pinho,
encantador de serpentes e de equívocos e de azares-Opel.
lkj
A tóxico-Manuela, de quem tantas vezes escrevi e que ronda aqui o Pub,
vem dizer-me, feliz, que vai começar a trabalhar. Exulto, embora incrédulo, pessimista!
Há, a propósito, por aqui um campeonato de benfeitoria para com a Manuela:
uma cliente destaca-se nessa caridade ostensiva e por grosso à tóxico-moça:
veste bem, tem toiletes variadas e chiques - deve ser um espírito bondoso e endinheirado,
como quase todos as clientes que pastam as suas plásticas silicone-beiçudas
e rosto-esticadas por aqui, idosas ardentes,
mas esta ainda é jovem, tem frescura na sua perna porcina dançante
que me omnifita.
O certo é que dar-lhe ouvidos
é garantidamente ter de aturar: pertence àquele tipo de pessoas
intragavelmente auto-encomiosas pleonasticamente de si e dos seus.
Elogiam a sua casa, elogiam o seu gato, elogiam os seus filhos, elogiam o seu marido,
elogiam o bom gosto na escolha da amante pelo seu marido, elogiam o próprio penteado,
elogiam os antepassados que apodrecem sob as melhores pedras tumulares do mundo
e o resto, o que está além e de fora, não lhes pode prestar. É-lhes lixo!
lkj
Ter de ouvir esta seca, estando tão por baixo em tudo!
Secar-nos esta gente no vendaval monótono de si mesmas!
Numa hora virem dar-nos solícitas o sapatinho sexy vermelho,
clitóris de si mesmas a desabrochar para nós,
e na outra hora simplesmente não haver aqui dentro paciência para aturar tanto exo-EU!
Ó esse EU-tóxico e não é o da Manuela-rente-ao-chão!
Ó esse besourar, zangão-abelha em torno dos Favos de Mel dos meus ouvidos!
Ó gente enterrada no abismo de si exclusivamente mesma, como me dóis!
Desiste, Joshua, essa Hora vai passar!
Let it be... Bee.

terça-feira, janeiro 22, 2008

SCORPIO, ESCORPIÃO, ESCRITA


Quererás procurar-me, um dia, entre o fumegar do meu Poema,
e não descortinarás nada de meu vestigial, embora o creias encontrado.
No espelhar do meu Vinho Ensanguentado,
ante ele, meu Cru-Poema,
fumegar do meu Disparo,
pedes-me, agora, outros temas, outras coisas, enfadado?
lkj
Como ousas?! Nada te peço.
Criativo é não pedir. É aceitar.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

HISTÓRIA SOMBRIA DE UMA SOMBRA


Mumiamente, ele germinava a sua doença no segredo do seu lugar
desertado por todos. Houve um tempo em que o seu segredo estivera sepultado:
era terrivelmente feio.
Tinha uns olhinhos pequeninos, enterrados numa face gorducha
e o efeito de se olhar para ele era o de se olhar para um sapinho que,
porque usava uns óculos escuros, talvez Ray-Ban (era um homem rico!)
convidava a que se lhe chamasse genialmente Rabo de Bane.
ljkh
Por razões complexas com toca e caverna de vida dentro,
de o terem atormentado em pequenino, não sabemos!, Rabo de Bane,
sentia-se sempre perseguido, sem o ser de facto,
e nomeara-se messias laico anticorrupção
e pró-justiça, sem mandato e desproporcionadamente histérico.
çk
Por isso mesmo, boa parte da sua vida fora passada a coligir dados de supostos inimigos,
a coleccionar quezílias, a roçar o traseirito ocioso e flácido por tribunais,
a apresentar queixas e queixinhas, a desassossegar a vida de tanto pai de família,
arrolando vítimas, amontoando queixas, acusações, acumulando currículo de Chato na Justiça,
porque o seu grande passatempo era, afinal, arranjar problemas para os outros
e ficar na sombra a esfregar as mãos nesse prazer sombrio de desassossegar,
de levar aos outros as custas filhas da puta da Lenta e Injusta Justiça Portuguesa.
lkj
Tinha também um lado letrado, pomposo, a par de um lado 'agente infiltrado'.
A dado passo, convenceu-se de que construíra uma obra literária extraordinária,
cravada de rimas e versos e que não podia, a obra, ser manchada por quaisquer corruptelas
da sua imagem de deus imaculado denunciador dos maus,
mesmo que tais corruptelas inadvertidamente autocorruptoras e automanchantes
lhe descaíssem por própria mão.
lkj
Na verdade, Rabo de Bane bipolarizava à força toda. Parecia de esquerda,
mas moralizava e dava sermões como os da direita. Tinha uma predilecção especial
de assediador por Alberto João Jardim, e satirizava-o de uma sátira pomposa e ridícula.
Parecia medianamente culto, mas era sofisticadamente malévolo,
o lado 'agente infiltrado' enchia de indecências e anonimatos os seus ciúmes
e acessos de assédio: um dia deu de frente com o PALAVROSSAVRVS REX,
inicialmente amistoso, começou a perder na competição,
e concluíu que lhe era obstáculo e concorrência intolerável a que deveria pôr cobro.
A escrita PALAVROSSAVRVS encandeava-o, hipnotizava-o de fascínio,
ao mesmo tempo que o deixava tenso, desarranjado,
perturbado da raiva que lia como raiva apenas.
Ler o PALAVROSSAVRVS era-lhe antídoto de quantos xanaxes tomasse.
çlk
Foi no tempo em que a Internet entrou por ele, Rabo, adentro e se tornou magno visitador,
magno lisonjeador, tão omnipresente até à náusea que, quando uma vez, sôfrego,
tentava anonimizar um insulto, saíu-lhe o nick para a verdade,
denunciando-o, desmascarando-lhe a sanha na minha caixa de cometários.
Reduzido à obviedade do seu maligno agir encoberto e covarde,
Rabo de Bane tentou convencer-me a apagar o deslize que o comprometera de sincero,
encolheu-se todo defensivo e, muito temente do Mundo todo, nunca mais
se atreveu a andar de blogue em blogue, de nick descoberto e cabeça,
na safra da lisonja,
mas determinou-se a tentar desmoralizar e destruir o cerne PALAVROSSAVRVS
do seu problema de ciúme com obstinação canina.
lkj
Uma personagem doentia e demoníaca passou a atormentar anónima de insulto
o PALAVROSSAVRVS até ao cansaço de ler, até ao hábito conformado de apagar sem ler.
Perante as minhas desventuras, exulta silencioso, esquecendo o prazer com que,
na escrita, catarse me gero tanta além desventuras. Ao saber-me Amado,
Feliz, Mais Reconhecido, incha de raiva e enlouquece.
Nessa altura, adjectiva, explana arrazoados queixosos
que aparecem como espectro do Mundo das Sombras
- tem os nomes, tem o discurso armadilhado com ânsias de ser muito vítima
e nada lhe cura a sua alma, o seu espírito de toca a cavernar,
cara de Rabo de Bane, sapinha.
lkj
Um dia também me acusou a mim de o acusar a ele de ser sombra
e de agir na sombra contra mim, macerando-me de insulto.
O processo tramitou e destramitou,
incomodou-me, foi na GNR que ouvi ler o seu argumentário cerrado urdido contra mim
e que lhe vi o rosto de sapinho pequenino e escondidinho sob a prótese ocular escurecida,
levou-me a gastos com advogado, o qual, quando foi desenterrar tudo aquilo,
constatou que Rabo de Bane, afinal, não deduziu acusação particular contra mim
e o Ministério Público determinara já há algum tempo o arquivamento do auto.
Foi aquele desfasamento temporal que conduz a prejuízos o pobre cidadão desvalido.
Missão cumprida: Rabo de Bane cumpriu o seu propósito lesivo de mim, na alma e no bolso.
Depois, sombrio, tratou de regressar às intermitências sombrias de sai por vezes.
çlklkj
E não me larga, e não me deixa em paz,
e não esquece que apanhou antes que esboçasse dar,
e, se deu, deu só à tração, especialista sombrio em tão bem arquitectados escondimentos,
arquitectada sombra, Ser e Lugar, de que só sai para verter fel
e para ser o mais vítima possível,
mas na sombra, sempre na sombra.

domingo, janeiro 20, 2008

ZAPATEIRO INTERCESSOR DOS PORTUGUESES


Se mais nada tivesse sucedido na Cimeira Ibérica,
a edição deste ano teria servido para conhecermos um novo Sócrates,
um Sócrates compreensivo e tolerante,
capaz de se decidir por alterar rapidamente uma lei injusta.
lkj
Na verdade as regras do imposto automóvel, para além de injustas em relação aos espanhóis residentes que trabalham em Portugal,
eram inaceitáveis do ponto de vista da livre circulação.
Sócrates não só percebeu isso como mostrou ser capaz de ter um discurso dialogante.
lkj
A partir de agora em vez de protestarmos contra as muitas injustiças deste governo, vamos meter uma cunha a Zapatero e esperar pela próxima cimeira.
lkj

sábado, janeiro 19, 2008

FORAL DE FOR EVER


A Bloga pode ser uma Carta de Marear até ao cerne autêntico do outro
e um jantar somente o pretexto para confirmar esse Íman de Amizade
que nos arrebatou, mal nos encontrámos por aqui, num longínquo dia,
e começámos a interagir de modo constante e leal,
barra de aço que se desloca para aqui e para ali
numa amistosa construção cúmplice.
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Certo é que o Oceano das Novas Descobertas que valem
é este Aqui-d'el-Blogue. Aqui somos nós as Naus
com que se rasgam estas Virtuáguas,
com que se corta a escuma rumo às Índias Novas de fazer Amigos
ou descobrir Amigos
ou reparar que eles existem para nós
e nós para eles e é esse o Milagre do Tempo Áspero Presente.
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As Tempestades e os Equívocos são um risco,
conjunção de ventos e de sentimentos mesquinhos
que se abatem sobre nós, mas contra os quais, e apesar dos quais,
há que navegar, singrar, rompidas as velas.
A nossa nau tem de seguir.
Há um porto acolhedor e aprazível nos que nos são amigos,
nos que nos são benévolos,
nos que relevaram aqueles pormenores nossos que, de tão nossos,
se tornam verdadeiramente especiais para eles.
E eram só Texto antes de serem tão Gente.
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Não acreditamos em perseguições, em eliminações,
em que se possa banir quem quer que seja.
É preciso que não se confundam patamares.
Buscar a Verdade, tê-la Nua e vivê-la Pura
não é andar com a Marreta Moralizadora e Exemplar atrás.
É antes um exercício de delicadeza com as pessoas concretas,
mas de ousadia e de lucidez com base nos factos que, conhecidos,
não lesem a Ética para com elas.
A Arte roça os limites,
mas é a Arte e satiriza ou hiperboliza
porque quer emocionar e gerar contraste,
não quer humilhar nem apoucar Gente.
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Foi este o Espírito subjacente ao nosso Jantar
sem que o convencionássemos. Eis o que somos.
Eis em que cremos.
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E eu gostei de à mesa de jantar ter junto a mim,
na mais agradável Nobreza e Lealdade,
o António-Implume, o Tiago-Com-Fixadores e a ti,
Tarantino, que és todo Fibra, Acção, Energia, Vivacidade
e Experiência de Vida.
lkj
És também Lealdade. Quem vier poluir de falsidade o que és, mente!
Quem vier atacar de supositórios e estimativas depreciativas o que sejas, mente!
Conversámos de Tudo, é verdade.
A Lealdade, a Transparência e, repito-o, a Nobreza,
corriam paralelamente às nossas palavras.
E não idealizo nada. Falo do que sinto, do que observo,
do que estimo, caso o detecte.
lkj
E ainda bem que se pode celebrar uma coisa Bela e Perene,
como gostar das pessoas de quem gostamos
por elas mesmas e pronto. Porque gostarmos delas
está para além das razões, embora acumulando-as intermináveis.