sexta-feira, setembro 19, 2014

RASGADA

Gaivota de asa rasgada
pena intermitente, desdentada,
voa, pia, à bolina
contra o vento sul,
à bolina, contra o vento sul,
entre o cinza e o azul,
entre o cinza e o azul.

segunda-feira, setembro 08, 2014

RADIOHEAD INTEGRADOS

Thom Yorke, Jonny Greenwood, Ed O'Brien, Colin Greenwood e Phil Selway
Foi durante uns dos meus voos intra-brasileiros pela Avianca que, dada a oferta em entretenimento a bordo incluir a vídeo-audição de The King of Limbs, in the Basement, me senti inspirado e instado a recobrir, ouvir e conhecer, toda a discografia dos Radioheah, não apenas no plano musical, mas também no plano poético e no das artes gráficas que acompanharam a produção dos sucessivos álbuns. Para começo de conversa, a submersão na atmosfera musical resulta numa impressão de intensidade, envolvimento e um que de desconforto kafkiano, dada a linha questionadora e provocatória que medula toda a obra, desde Pablo Honey, 1993, passando por The Bends, 1995; OK Computer, 1997; Kid A, 2000; Amnesiac, 2001; Hail to the Thief, 2003; In Rainbows, 2007, e, finalmente, mas espero que nunca por fim, The King of Limbs, 2011. Estão integrados, in toto, na minha sensibilidade.

sexta-feira, setembro 05, 2014

LISTA DE DELÍCIAS NO MEU BRASIL

Na Roça, se silenciares a cidade que há em ti, renascerás rural,
místico, íntimo do Criador, sensível ao Seu
Sopro, dócil ao Seu Cristo.
Aquele enxame farto efémero de libélulas, voando à caça de moscas, numa vertigem rectilínea, obliqua, para trás, para diante, em torno da velha odorosa baraúna lá de casa; aquele beija-flor, mínimo, supersónico, em voo brusco, de arbusto em arbusto, entre pétalas rosa, roxo, encarnado; aquela profusão de pássaros sonoros e multicolores, laranja vivo, preto e branco, encarnado, o pica-pau de penugem à moicano, mas especialmente o pássaro azul, sempre só, sempre a solo, entre os demais, todos bicando os nossos restos de arroz, feijão, cuscuz, nenhum deles medindo demasiado distâncias com humanos; aquele sol tão ardente, mal o dia nasce, e ainda ardente enquanto se põe; aqueles crepúsculos de fogo no fim da tarde ou ao romper do dia perante os quais é preciso rezar; a hora intensa do amor, quando a hora do amor intenso chegou; aquele último suspiro da madrugada, o alfange lunar, dois planetas em conjunção; as minhas costas nuas, meu peito, embrenhado na caatinga por horas sentindo os cheiros umburana, quebra-faca, perscrutando chocalhos, revirando cristais, pontapeando espinhos; sol posto, abelhões zumbindo religiosamente como que em adoração ao Criador, entre os ramos e as flores da grande árvore; aquele silêncio místico à hora rubra do horizonte rubro; aquele céu nocturno absoluto, silente, repleto de estrelas desnudando sem mácula a Via Láctea; aquele meu reclinar na rede defronte a quase tudo isto e repleto disto tudo. Este meu encontro com o Criador, à brisa da tarde, e o Seu Santo, lá, no mais completo abandono filial, sem ânsias, sem medos, sem passado, sem futuro, absorto no Momento, fora do mundo, submerso no Cerne.

terça-feira, setembro 02, 2014

DEAF-INIÇÃO

É um espirro
É um espasmo
É um respaldo pasmo
esponjoso e espraiado.

É um esmifrar esmagante e estuprado.
Sal, quanto do teu mar é um latrocínio crocodiliano-lacrimoso em Portugal?!
O caralho do bom-nome e a puta da honra
que os foda!