segunda-feira, janeiro 29, 2007

BIBLIOGRAFIA



















Consultar-te-ei, livro,
por índice, capa e contra-capa,
folhear-te-ei com a polpa dos meus dedos,
apontando a frase inteira,
aberta em lambe-me,
em pétala-beijo.

Marcar-te-ei, livro,
para outra altura,
no longo resguardo,
no silêncio longo,
maratona de te ler enroscado em hera,
entre o tirar e o meter.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

AKON FEAT. EMIMEM - SMACK THAT


O que é preciso é 'smack that', por amor e por tusa, 'smack that'...
Bom vídeo!

SECURA REGRESSIVA














Apareces com frases curtas
e dizes qualquer coisa viciado.
Pesa-te o mundo inteiro,
pesa-te que eu coma assim e que não coma assado,
falas mal da minha barriga,
que está tão bem,
tenho sempre algo de censurável para ti,
nem que seja estar constipado
e eu nunca constipo.
Atacas, contra-atacas
e tens um argumentário sôfrego
em defesa seja do que absurdo for,
mesmo em defesa de que é nada e sem dignidade para ti,
um Homem semeado
ou um enchido defumado.

Ah, o cansaço que mora em ti rio riste,
espada que brandas, sono, gume, estrada,
riqueza morta de sonhos, picada de pulga em pêlo de cão.
Pêlo de gato.

Dêem-me algo com que me enfureça,
algo com que esperneie, estrebuche, espume,
a adrenalina da palavra, dêem-ma!

Já que me não vejo agora mesmo extático em pleno Museo del Prado,
parando e pasmando a meu bel-prazer,
já que ainda não voei nem estou onde quero,
dêem-me a palavra e o pretexto,
que explodirei verbonuclear,
farei uma hecatombe,
amplificarei, contagioso,
uma gripe vocabular
com vírgulas, pontos e acentos
a apontar à esquerda-febre e à febre-direita.

Pensei que caminhávamos noutra direcção.

Por séculos, imensos, séculos de mais, a mulher não valia nada,
sem direitos, desigual, ainda mais carregada de trabalhos domésticos
e de outros trabalhos,
sempre fodida a gosto e a contragosto,
menos importante que um filho,
mais assassinável por maridos cabrões
por estar gorda e ser adúltera,
por estar feia e ser adúltera.

E assim é em tantos sítios ainda.

Como não valha nada e use burkas e oclusivos lenços
é como se nós, nesta despovoada e pedante Europa, todos nós,
quiséssemos exercer o direito a uma quota-parte de barbárie,
entre matar crianças, coisa em que Portugal se destaca todos os anos,
e poupá-las ao pavor de existir,
não haja dúvidas,
que não haja dúvidas!

RIHANNA - PON DE REPLAY

TU GATO, MIM HOMEM














Meu amigo,
seduzes as pedras e as árvores,
macio e silente, atravessando
de algum lado para algum lado.
Tu e certos animais estranhamente humanos
não param de se pensar homens,
mas é preciso de uma vez por todas definir:
tu gato, mim homem.

O quê, não concordas?
Mim gato, tu homem?
Como quiseres, bichano!

AO LEITOR, LEITE E LEI, O POETA














É fodido ser poeta,
necessária, irreprimivelmente poeta,
ir à caça das palavras,
amá-las
e vê-las raras,
extintas
ou em pleno cio, sono,
a copularem, adversativas, poeta,
com a verdade vera
e a verdade não ser o sim
nem o não, mas qualquer coisa de além,
muito além-poeta mais perto de ela.

Fica ao teu critério, leitor-vampiro, leitor-rato, leitor-pulga, do poeta
julgares-me excessivo.

Dir-te-ei que sou excessivo, sim, que tenho arroubos furibundos,
arrancos de touro,
que vou bramindo e bradando como que de longe
sons ingénuos e sentimentos como zangas infantis,
dir-te-ei que crucifico e que redimo
num mesmo verso-poeta,
que evoco e vivo nele só, no verso.

Se eu fosse a postar a pequena prosa jornalística mordaz
ou o ensaiozinho literário verboroso, em vez de isto-poeta,
pereceria em texto e o meu leite segregado
não seria esta aspiração a perenidade.

A sensibilidade,
a puta da sensibilidade, faz das suas, fecunda,
liga-nos e isola-nos poeta.
Vida de pescador é ser poeta,
num mar acanzoado de vagas...´
É ir todos os dias muitas vezes ao matadouro frio
e matar e ser rês emocionada,
escorrer desmanchado, comestível,
num fio rubro
vaporoso,
esgoto em poça.

Esgoto inesgotável de vida-poeta.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

TEMPO DE SOPA














Depois de ter visto hoje
na estação General Torres, em Gaia,
uma família a fazer a sua higiene matinal
num fontanário que, por cima, lá está,
borbulhante, rico, municipal, alegre,
depois de ter visto a gorda mãe, o pai gordo e o moço magro,
os três - eram sete e quarenta da manhã -
fungando e cuspindo,
passando água gélida pelos rostos e o cabelo,
- era uma manhã muito fria -
chapinando e espirrando,
enquanto a pé, de metro, de carro, de autocarro,
um resto de povo idoso,
uma minoria de juventude,
todos em geral reformados da realidade,
meneava a cabeça
e descaía os beiços desaprovadoramente;
depois de ter compreendido que eram romenos
ou ciganos, ou as duas coisas, os que se lavavam,
ficou claro que o nosso mundo estilhaça de infantário,
ficou claro que a sopa dos pobres transborda
e é para comer fronteiriça toda.

terça-feira, janeiro 23, 2007

JULIET - AVALON

ORA FODA-SE, NORTE-AMÉRICA!








Ora foda-se, norte-América. Que sabes tu do mundo?
Que napalm filho da puta resolveu o Vietnam?
Conteve-o? Matando massivamente o insecto chino homem!!!
Que metralhadoras salvaram a Somália e redimiram o Sudão?
Que dólares valem um cabelo das lapidadas do Irão

e dos publicamente degolados da Arábia
contra o que não levantas a voz política ou diplomática,
esganada em petróleo?
Que negócios da China e que porra de transigência é essa

com os trucidados e eliminados pela crassa injustiça oriental?
Mas que puta de moral é que a tua administração demente

tem para limpar o mundo dos maus?
Onde estão os espelhos na tua casa?

Branca!

Onde os venenos e os facalhões?

Ora foda-se, América.Tu, que és eficiente, avançada, livre, rica e obesa,

que trabalhas e enriqueces, depradando o planeta comó caralho,
ainda não deste férias às tuas frenéticas bombas?
Que cabrões esses armamentistas que em ti se acoitam!

És o centro do universo,
afinal o planeta é norte-américocêntrico e o resto é paisagem!
Que pena de morte anulou as matanças suicidárias nas tuas Schools em liberdade?

E como ainda veneras essa orgia armada por todo o território?

Ora foda-se, América, dizer-te o nome é pensar em armamento.

Armamento muito velho, a apodrecer de velho a precisar da dentadura,
da placa dentária de um último sorriso mortífero.

Realmente a paz no mundo é uma coisa muito perigosa e pouco rentável

e a diplomacia mais eficaz é a que chega a vias de facto.

Ora foda-se, América. Tens dentro de ti quem se ria perante essas invasões

e esses aviões e essas cirurgias caras na carne em cratera dos povos,
povos que não têm nem metade do teu ass de típico agente policial donoutiado,
mas também são gente.
E tens também dentro quem salive por mais sangue,
mais limpeza, mais rumsfeldização dos demónios humanos,
os outros, evidentemente.

Ora foda-se, América. Blinda-te como puderes lá dos atentados,

cuja ameaça se sente, como faremos nós também,
europeus pacientes e condescendentes,
segundo o Maquineta Zerone, sem os teus guerreiros colhões de chumbo,
depois e durante essa inquinada loucura iraquiana,
violência em rédea solta,
depois de esta imitação de norte-América 1 Iraque 0 sobre o Líbano,
mas lembra-te de que se a estupidez armada que te lidera agora
semeou uma chuva de fogo,
há-de vir também uma chuva de merda-manure-estrume
que de tal maneira te humilde e envergonhe
que finalmente te aconteça o poderoso Ghandi que te falta
ou um Cristo desarmado
que nos falta a todos.









BOMBA INTELIGENTE E O AÇO



















Charlotte - Hoje acordei assim, meio zonza e doida por aço, compreendes?
Corta-Pilas - Como quase nada do que tu dizes,

de modo directo ou através da música que nos dás,
é excessivamente específico da tua personalidade,
o desalento que nos atinge pode bem ser partilhado por cada blogo-visitador.
Apetece dizer que a absurdidade do teu blogue
(se esta expressão não parecer muito enfática) é alcançada
em virtude da tua lógica minimalista, e que a tua escassa qualidade dramática está na efectivação de um confronto fantasmático de ti contigo mesma,
com a tua presença auditiva, com essa voz que vem de longe e carrega
ingenuamente um balanço condenado a dissolver­‑se no tempo de te aturar.
Charlotte - Não se pode dizer nada, pá, sinceramente. Bolas!

segunda-feira, janeiro 22, 2007

BLACK BOX - RIDE ON TIME



A cavalgar é que a gente se entende!
A poesia tem ritmo,
a música tem ritmo,
tem tempo, tem andamento.
É preciso cavalgar como quem sabe
de música, de tempo e de ritmo.
O apelo está lançado!

VILNIUS














Tombando lenta
a lama lambe na vala aberta
o sprit de corps retirante
acomoda corpos de pedra, esmagados de marcha,
pesados despojos,
de infindo gelo, profusa morte.

Cadaverizara-se gente em camadas, nas bermas.
Le cocq cambaleia, cai e petrifica. Moscovo
negreja em cinza, lá atrás,
ardida por inteiro quase
e mal provida inútil.

O insólito queima de loucura
o Generalíssimo imperador.

E Napoleão nova lição herda:
depois da suma glória
vem o pó e vem a merda.

O VIAGRA SENSÍVEL


















Viagra - Não achas que estás a exagerar-me?
Pinto da Costa - Ui, olha a fartura, uma vez por mês...
Viagra - Seja como for. Parece que achas lindo ficares ali, aflito,
a arfar taquicárdico nas urgências.
Pinto da Costa - Bai-te mas é foder, impostor de merda!
Viagra - Vai tu.

domingo, janeiro 21, 2007

ARMAND VAN HELDEN FT. TARA MCDONALD - MY MY MY


Convite aos prados do verbo,
onde pastamos raiva e esperança,
à febre da festa,
à febra-da-fêmea,
alegria de um churrasco privativo
em multidão
à beira verso.

sábado, janeiro 20, 2007

O «SIM» VAI NU














Maria José Morgado
e Maria Fernanda Palma,
respectivamente procuradora-geral adjunta e juíza do Tribunal Constitucional,
como verdadeiras e corajosas democratas,
aparecem de peito feito a mudar as fraldas ao PS,
o partido das hemorróidas do progresso mais progressista,
mas mesmo, mesmo, progressivo.

O Estado mostra as unhas e a profusa base nas bochechas:
está a ficar ainda mais perverso e fora da lei.

«Que a tripa morra porque um ovo não é um frango.»
Eis como, mais ou menos isto, a lógica da batata atacou de escuridão
cérebros tão ilustres.

Façam como entenderem,
assim como sempre se fez o que se entendeu,
matem a tripa,
extirpem o quisto,
tirem a verruga,
extraiam a hérnia,
maltratem à vontadinha o Tumor da Vida,
seus cabrões de topo,
seus bem-postos de merda,
façam de conta, coniventes, que é lindo,
humano e desenvolvido dizer e exemplificar o «Sim»,
só porque já não sois tripa, mas podeis, ouvido o povo,
legislar da tripa alheia,
fazendo de conta que não é gente.

Pois a tripa é gente!

Abomino-vos, Pilatos modernos,
velhos sáurios arrogantes.
A Lei actual não é pedagógica?
Não norteia ela um caminho sensato?
Não estabelece ela os devidos limites?
Não salvaguarda o que / e quem deve salvaguardar?

Santa Matilde Sousa Franco, tem piedade deles
porque não sabem o que fazem.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

O BIGODE DO FELINO














Ele não se conhece ao ponto
de saber largar alegre o coração às oportunidades
que lhe vêm ao encontro.

Fica ali, numa espera tensa, aflito, aterrado, belo,
encurralado, enquanto a criança, dentro,
festeja a inocência completa
e faz o que quer.

Ele, sôfrego de fêmea.
Fêmea? Tomada de crias.

Ele está ali, hirto, engolindo a culpa
de agora não se alegrar com coisa nenhuma,
de sentir somente a privação de uma coisa vaga
parecida com liberdade e despreocupação sonodocelenta.

Ele é tão leão na sua deambulação pelos outros espaços.
Engaiolado, passeia-se solitário entre aquelas paredes,
tem a juba crespa, imaginária,
juba de homem sitiado.

Gato que se pensa homem, ele,
banqueiro, ele, jornalista, ele, executivo de topo,
ou pelo menos padeiro,
não passa de um leãozinho onde desponta a gloriosa juba banal,
imaginária, com que enfrentará, perdendo,
a concorrência
das crias anti-cio.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

LARVA DE VESPA















Há vezes em que a árvore pútrea,
putrida
do ensino
floresce pétrea,
anárquica e agreste a cada dia.

Selváticos e mansos,
como bons mansos portugueses inócuos,
eles, o público-alvo,
está-se nas tintas
e abusa
e excede-se
e é o inferno à solta,
servido a horas certas de previsível tédio.

De quem é a culpa?

A sociedade agoniza de oco
e o poder ministerial deseducativo
legisla,
emite despachos,
faz leis,
caga TLEBS
e inventa a toda a hora
a mais hedionda burocracia tenebrosa,
fajuta,
que alimenta de gordo
uma pequena multidão de mamões,
de teóricos, de doutores murchos.

Ó grupos de trabalho,
ó comissões de investigação,
ó reformadores TLEBISTAS,
gente do tacho fácil e do inútil trabalhoso,
chupai aqui!!!

quarta-feira, janeiro 17, 2007

OMD - ENOLA GAY


A blogoesfera pode ser animada assim:
livremente a gente
posta texto,
opina,
inventa,
dá-se ao desabafo,
e ainda pode pôr vídeomúsica a propósito ou sem a-propósito
para gozo e entretenimento de quem nos lê.
O importante é que as possibilidades são imensas
e nunca cessamos de surpreender o auditório
entretanto cativado.
Por albergar poesia, as palavras semeadas
podem ganhar múltiplos sentidos e efeitos de impacto diversos.
Este vídeomúsica dos OMD tem a energia de excitação intacta

segunda-feira, janeiro 15, 2007

DIÁLOGO DA SERIEDADE














- Ser sério, isso é o que falta ao senhor.
- Mas por que se exalta, que lhe fiz eu para pôr em causa a minha seriedade?
- O senhor não é sério nem coerente.
- Mas sério em quê? E coerente em quê?
- Então o senhor espalha impropérios nos seus posts medíocres
e depois escreve sublimemente sobre o Espírito Santo e acha isso normal?
- Acho normal que eu seja dono e senhor do que me apeteça escrever. O amigo não acha?
- Não acho que caibam no mesmo lugar as suas tretas obscenas e os seus devaneios religiosos. Isso fere a sensibilidade. Pelo menos a minha fere.
- Mas então o meu amigo não admite que a nossa alma seja incoerente, contraditória e inconstante, desassossegada na infelicidade e sôfrega por felicidade?
- Admito.
- Não me admite que o exprima conforme mo dita a mente?
- Admito-lho, mas custa ver a conjugação de tantos contrários
e por vezes uma linguagem brutal, baixa...
- Vá-se habituando ao vórtice do efeito provocatório da palavra que,
mesmo baixa, puxa para cima e não se compraz na baixeza.
- Isso é ser lírico.
- Isto é acreditar na ascensão da humanidade e na catabase da Cidade Celestial.
Não é fácil viver num mundo onde de um lado há laicos raivosos,
trucidando ideologicamente a pessoa por lhe verem somente a materialidade
e o respectivo lastro no ecossistema, gente para quem um embrião é já só tripa,
fáceis amígdalas, acessível adenóide,
e, por outro, os religiosos
que no seu proselitismo visam uniformizar a bem ou a mal as opções políticas e religiosas
dos povos do mundo, islamizar-nos pela bomba, pelo medo e pela demografia.
Nem é fácil criar literatura em tempo real, arriscando biografar uma frase que nada tem de biográfico...
- Compreendo...
- Não. Não compreende. Não há nada a compreender.
É, aliás, necessário que nada compreenda.
O amigo leve-me a sério. Leve-me muito a sério.

domingo, janeiro 14, 2007

sábado, janeiro 13, 2007

DISSE O SENHOR (DIXIT DOMINVS)


Ando a comer esta obra de Handel há mais de dois meses
porque é bela, porque é Messiânica,
porque me revejo inteiramente nela
no seu ritmo,
na arte que encerra
e sobretudo no texto que recobre,
o Salmo 109(10)
da Sagrada Escritura.

Faz-me meditar no processo histórico aberto pelo Senhor Deus
pela Ressurreição do Seu Filho,
Grão amoroso que cai e germina,
Trigo amassado que fermenta
para Se dar em alimento a todos...

«Disse o Senhor ao meu Senhor:
"Senta-Te à Minha direita"»
até que ponha os inimigos como escabelo de Teus pés...
e o último inimigo é a morte, diria Paulo mais tarde.

O Amor Incondicional e Misericordioso como Lei.
O Espírito Santo, Deus Ele Mesmo!, como hóspede dos nossos corações.
A Vida Eterna como Herança.

É um Processo.

Há o Trigo.
Há o joio.
Mas eis a ceifa.
Eis a Crise.
Eis o Crivo.

Não, não e não: não pode estar nos meus projectos, sangue e consciência
caucionar que a morte se naturalize
e dê por legalmente facilitada seja a quem for,
seja em que estágio de desenvolvimento for.

Hipocrisia é recusar o conceito de inviolabilidade,
salvo se se trata do próprio coiro.

A Fernanda Câncio (e os 'sinocas') ainda não exercitou a imaginação o suficiente
para regressivamente observar-se como indefesa,
ali, naquela placentária paz aquosa,
já de coração palpitante,
de repente succionada,
de repente perfurada,
de repente compressa
sem haver quem a defenda,
um Estado que a tenha em consideração.

Quando é que se é gente?

Perguntar isso é uma bizantinice.
Gente alucinada na sua suficiência faz cálculos desses.
Mas na Lua não perguntariam isso.
No longe dos desertos marcianos não perguntariam isso.
Em face da imensidão do Cosmos,
do que há a descobrir e a conhecer deslumbradamente,
não perguntariam isso.
Diante de pais que perdem,
que anseiam, que tentam, não perguntariam isso.

É muita petulância arrogar-se a decidir
da vida alheia.
Típico de um positivismo kamikaze,
o mesmo que nos trouxe o Verão no Inverno
e que, quando o Verão-a-sério chega,
nos vai pondo a assar num espeto climático
cada vez mais sufocante.

(Subscrevo amplamente o que JPP escreve sobre a questão do aborto
na análise que tem vindo a fazer
sobre o discurso e percurso de Ratzinger e da Igreja que defende).

quinta-feira, janeiro 11, 2007

NA MORTE DE YURI NATALIVIELICH BOGDANOV














Maldito sejas,
Anatolievich Gagarinenko Dournotsenov.
Tinhas de apunhalar, mortífero,
Yuri Natalivielich Bogdanov
e por isso cuspo-te nessa cara pálida de eslavo
mais pálido que a negra morte.

Ali ficou o pobre, rosto colado ao chão num olhar mumificado,
as mãos enclavinhadas no vazio, a boca retorcida,
as tripas pendendo,
e aquela poça de sangue oval contornando vidrinhos pequenos,
como um vestido rubro e acetinado.

És fodido, meu bandido maldito!

Naquela noite, vodka voou das garrafas para os copos.
Cantastes. Dançastes. Quebrastes-los até acabarem.
Era já de garrafa na mão, na mais pura alienação abraçada e cambaleante,
que as palavras se trocavam, alternavam e misturavam.
E só porque ébrio te disse que eras um bom cabrão cornudo,
a ti, que lhe emprestaste 1200 euros
que nunca mais viste
e nunca mais verás;
a ti, que lhe ofereceste um dia o carro, as luvas e as botas
com que se agasalhou para se exibir nas putas,
tinhas de o abrir, sangrar,
derramando-lhe as entranhas!

Porquê? Porquê 7? Logo sete!
Sete naifadas de raiva.

Não sou Stefania Anatolievna Gourianova não sou nada
se não te rogo uma praga
que te apodreça esses dentes onde rebrilha o ouro,
que te deixe com inúmeras e inexplicáveis caganeiras,
dores de corno e lágrimas por um bolso sempre vazio;
que te tire esse tesão de garnizé com que festejas glorioso
tristes coitos curtos e ocasionais,
tão curtos,
tão ridículos
e ocasionais
como os de animais impotentes como tu;
que te faça doer tanto o cu que nem sentar tu possas;
que te apareça aquela que te cortará rente esse caralhinho tímido e friorento
e fiques tão desgenitalizado como a pintura de passenta mulher que vês.

Considera-te perdido, Anatolievich Gagarinenko Dournetsov.
Se mais ninguém sabe,
se mais ninguém quer saber,
neste pequeno país de mierda,
eu sei que foste tu!

Não tenho corpo para ti.
Mas tenho unhas com que vare e esgane
essa alma de pobre diabo.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

MIRWAIS E A CANÇÃO INGÉNUA


Gosto muito da música
e do fêmeo corpóreo plano de fundo.

Gostei da adequação de este vídeo ao meu
pensamento
padecimento de um longínquo tempo,
entre as espinhosas silvas
de uma parva perda lerda.

Gosto da ironia da lyric.

Por vezes, o desencanto

é sincera e clownescamente glorioso.
Por vezes ouvimos e vemos o que precisamos,
quando mais precisamos.

terça-feira, janeiro 09, 2007

A CARNE DO POEMA












Errante, procuro a Suma Arte
e ela, aquosa, altíssima, borbota-me feroz como a mandíbula do felino,
como o fácil estalar de ossos entre os dentes da hiena.

Derivo ao faro da beleza e do sublime
e ambos me eclodem como a brusca inflexão
natatória do grande tubarão branco
ao mínimo sanguíneo odor.

Conheço o oásis, os fios de água que esbranquiçam espumosos pela rocha,
mas é o punhal e o longo canino
o que se me desembainha da alma.

Não me negarei a torrente nem o degelo.
Não estrangularei este cio de fome
tenebrosa que se me aninhou
no âmago.

Não conheço sossego
senão no devorar maciço do verbo carne
que acontece acontecer-me.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

JANGADA DE PODRE


















Já Pessoa se lamentava,
sem se lamentar de todo,
do seu excesso de lucidez,
do seu extremo de sensibilidade racional,
olhando para o barco encalhado do século
e da própria vida púrpura.

Fácil lhe era desenhar a depressão e o vazio num dia de bom humor.
Era-lhe simpático hamletizar a palavra,
ser o Louco
e ao mesmo tempo o Espectro,
ser Lear e Gloucester,
o verme e o místico
no palco oco da alma alada.

Quanto ao poeta,
a década e o século são sempre póstumos
porque aquele já os resumiu,
já os viveu,
já os antecipou.
Podemos acusá-lo de tudo, menos do armistício perante o podre,
porque o toca e autopsia,
menos de tréguas dadas à noção de si mesmo,
corroído de ânsias,
e à de tudo em volta
corrompido,
menos do desencarquilhamento coronário,
enovelado e reenovelado por e para dentro.

O século tem podre!

Fazem escola os padres de pedra na sua quadratura cruel afiada,
que não amam os homens para além das missas,
nem as pessoas para além das ficções comunitárias,
grassam os políticos de pedra e os pétreos chefes
que vêem o povo
como gente-artigo com defeito
ao sair da fábrica,
gente lançada a bons preços
na grande feira enlameada e desprotegida da Nação,
onde ciganos enrouquecem pregões no ar frio da manhã
e crianças romenas colam o corpo a transeuntes em movimento,
num implorativo, insistente, querer euros por adesivos.

Já Pessoa lambia a solidão como uma morfina
que, chegada aos quarenta, aguarda pelos cinquenta
para que o cio seja todo aguardente!
E que bem se enfurece a pena com a fúria ébria daquela!

Entretanto, boiando, o País apodrece de decadência em decadência,
o lapso e a indecência contaminam-no de negro
e de vazio.

Sócrates, pugilista em campanha.
Cavaco, afónico árbitro.
Gama, bandeira no mastro.

Com mulher, Pessoa talvez nunca viesse a ser hepático-suicidário,
hepático-insuficiente, nem ascítico, e muito menos
paracentésico de contidas águas mortas,
prenhe de um finar-se próximo.

Sem mulher, é agora esta estéril glória morta,
judeu triste que de contraditório nos vivifica verso a verso.

LEI DO GRÃO












Aprender, aprender sempre.
Seja a lição látego,
seja a lição lâmina,
aprender o fruto da dor,
aprender a dádiva da complexa simplicidade
de um ou dois traços
no espaço da incerteza prenhe de esperança,
opção dura, mas talvez no fim feliz,
aprender a lição, a lei, do grão,
em que o menos dá mais,
em que o sereno pouco resulta muito melhor em imenso,
que o sôfrego muito em alguma coisa que valha a pena.

Aprender com o lanho,
com a lixa de gato língua,
com o cutelo da frustração.
Aprender com o silêncio
de uma consciência que grita.
Aprender que é o sonho que triunfa
e nunca a resignação;
que é o sacrifício e o passe de loucura mágica que triunfam,
não esse encarneiramento passivo
na massa desatenta e bruta.

sábado, janeiro 06, 2007

QUEIXA A PEIDOPROPULSOR














Ó literatura inócua, diáfana,
ó literatos macrovendedores
de transparências e suavidades,
de estes dias, como sois fenómeno de roço!

Roçam-se os aspirantes à publicacionite em papel:
roçam-se
nos dotados de alguma penetração social,
de alguma influência capital,
de estatuto universitário,
de acesso à sociedade,
aos círculos chiques
e a mariquice de esse roço dá fruto.

Roçam-se.

Terem alguém de peso que os caucione,
terem os favorecidos pela notoriedade mediática que os caucione,
terem os bafejados pela notoriedade jackpótica para que portas e janelas
da leveza escrita lhes fiquem abertas,
merece que rocem muito.

Eu é que náuseabomino esse caminho.
Quero distância do meio académico tal como o conheço e reconheço,
no que às lógicas de poder e estatuto diz respeito,
dá-me irritação púbica haver o pus do estatuto para me vir dizer
se valho ou não valho no meu verbo,
se há ou não há em mim dimensões
de delicioso inaudito
que possam ou não agradar.

Qualquer poder que se foda!

A universidade nacional é o território do roço e do tráfico de roço.
O jornalismo nacional é o território do roço e do tráfico de roço.
A política nacional é o território do roço e do tráfico de roço.

E a sociedade bloguítica, sendo acima de tudo um lugar de liberdade,
é onde também se pratica o modo mais sofisticado e subtil de roço,
de tráfico do roço,
a escola do elogio mútuo,
o broche à erecção de muitos egos
pelos aspirantes a literatos e a intelectuais,
aqui é onde o favor opinial dos estatutados
baba de baba quem os babe de baba.

A pax blogueana é impossível.
Todos querem ser lidos.
Todos querem ser adorados.
Todos permutam bajulação e paulada.

A Verdade está morta. Viva a Verdade!

A NUDEZ EM BORAT



Momento Fabuloso!

sexta-feira, janeiro 05, 2007

BORAT E AS DUAS MISÉRIAS














Para se gerar algum humor, é preciso enlouquecer.
Borat é uma ideia louca, com momentos, do meu ponto de vista,
do mais puro e inesperado riso.

Ele conduz duas misérias a um confronto
cujo contraste as faz imensamente gémeas:
a miséria do obscuro e paupérrimo Cazaquistão;
a miséria da opulenta e imperial Norte-América.

À excepção do Urso, certas personagens norte-americanas capturadas,
arroladas na acção quase aleatória do filme,
possuem uma pureza maniqueísta,
uma obscenidade justiceirista tão natural,
emitem enunciados tão desportivos em se tratando da guerra,
da caça à gaytude,
ou do politicamente correcto il faut à mesa, na cidade, nos hotéis,
que o efeito é desvelador
e magnificamente corrosivo.

O mundo precisa de quem se digladie completamente nu
nos halls e câmaras dos hotéis por causa de Pamela Anderson,
de quem rompa violentamente
com os quadros de decência convencional,
revelando a indecência mental vigente.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

VERRINA A HIP-HOP-PATA














Pata,
está calada e cala-te.
Claro que, sim, és terrorista,
és nazi no teu laicismo,
és danada na arte cínica,
acre no apostolado
nihilista e hedonista, mas acima de tudo,
de uma frieza caralhesca,
nostalgica de pau-feito, presunto.

Pata,
tira a pata do que ignoras.
Já sabes que és pedante comó caralho,
altiva com'á piça,
que de História Lata não pescas nada,
só da história restrita dos crimes eclesiais é que apanhas bivalves:
lá por seres frígida e desdenhosa em tanta coisa,
incluíndo Espiritualidade Cristã,
já te achas no lado certo da vida?

Há vários lados incertos da vida.
O teu é um deles.
O meu é um deles.

Mas, Pata, não te armes em ratzinguericida,
que quem quina na defesa integral de ti és tu.
Humilda-te, para variar.

Pata,
Hiper-Pata,
Hipo-Pata,
o Papa apaparica-te nasal,
a ti,
que foste zigoto.
Nazi és tu e estaminal.

Vai-te foder com esse 'sim' parolo,
básico, simplista de campestre perdigoto.

VARIAÇÃO EM AZUL MENOR

terça-feira, janeiro 02, 2007

ARCO QUADRIDIMENSIONAL














Pons, pontis,
pôncio,
ponteiro agudo, angular,
ponta extensa por onde, sob onde, vou velando,
transcursos, trânsitos,
trespasses.

Por vezes o tráfego colestroliza-te:
uma avaria, um toque de nada,
uma cabriolada em cadeia,
e és-nos cabra, Ponte, por horas.

Os que se derribam de ti,
num finar-se em fim de fresta,
a par das facadas tidas, dadas, na alma doente,
levam muito em conta que sejas bela,
e atravessam-te na mesma
verticalizando a travessia
que a gravidade tece,
flechando-se sagitados,
estilhaçando-se no vidro-rio,
pontífice certo para Coisa Outra.

Subindo todo o ano, marginando-o pelo sul,
um rio-verde-lama,
vindo do mar,
de sob ti é que se vê, vejo, diverso, esse arco.
Por entre ele,
o casario gaio-portuense
umas vezes, douresplendente,
outras recortado a negrouro,
umas vezes, uma pleni-lua por entre ele, o arco, em certos entardeceres,
outras, o sol, em certos alaranjados amanheceres de Verão,
outras, a tempestiva albina nuvem enorme,
afastando-se para Leste, gorda, castrense.

Minha marcha.Tua vista.


Joaquim Santos