segunda-feira, outubro 30, 2006

POST DO MAU TEMPO















Lá vinha ela,
toda esticada no seu couro
de alto a baixo
lustroso preto.
Ei-la recta como uma régua
em pose triunfal,
militarística de égua,
púbica, pública, solene,
submetendo, na agulha do seu calcanhar armado,
todo o Aquiles furioso, todo o macho destemperado.

Lá vinha,
trazia a mesma loureza matante,
cara loureza de artificialina vulgar ao vulgo chocante,
o mesmo olhar fulminante,
o mesmo oco enfatuado
de enganar o Céu e o mundo.

Agarrada ao varão do autocarro,
vinha sem dança e sem strip
e preparava a saída
tal como eu:
voltou-me a cara,
voltei-lhe a cara,
e, antes que a porta se abrisse,
a porta se abriu
e divergimos num asco sinceramente concorde.

Ó azar de mau tempo!
Ó paisagem amerdalhada de zero e pó a ouro reluzente,
abusaste, praga de gafanhotos na minha alma, enquanto pudeste!
Vai, vai lá agora de seara em seara levar a saga de essa devastação,
de esse desnorte, de esse vazio,
servido como caviar entre taças de champagne!


Joaquim Santos

segunda-feira, outubro 23, 2006

PEDEM-ME NAPOLEÃO QUE OS FENDA













Súbditos de si mesmos,
do caos completo, do bafio e da perda,
da carne crua por que, já podre, se rasgam,
súbditos do completo sem rumo,
de pescoço servil e chapéu amarrotado na mão,
de joelho fincado no solo,
de pesarosa boca fatal fendida,
ao passar a carruagem da própria mediocridade,
pedem-me que os invada e vare,
pedem-me que os resolva.

Pedem-me que os devore de esta monarquia absoluta,
cabeça própria bruta: «Por que não nos violas e vens, Napoleão,
submeter-nos pela força à liberdade, à dignidade de cidadãos,
longe do veneno tirânico de nós mesmos?!»

Instam, imploram, lamuriam.

«Não sou Napoleão para que vá» - respondo cristalinamente.
E acrescento: «Vede-me bem. Não vos enganeis.
Tragar-vos-vos-ia sem piedade.
Mas escolho ignorar o que, zelotes, me pedis
num criptar poético de este meu pasmo à vossa estupidez violenta.
Napoleonai vós mesmos, se souberdes como.
Invadi, incendiai, pilhai, estuprai,
coroando-vos bolor vós mesmos imperadores.

Eu passo.

Fico aqui a fazer de Cristo.
Nada de lideranças.
Nada de condução de exércitos.
Nada de carros de combate,
de bigas, de quadrigas,
de amigos ou de amigas,
e nem pensar em discursos longos,
nem pensar em barbas proféticas,
ou olhos que fuzilam,
nem pensar em povos eleitos
de desassossego em desassossego.
Ide lá fazer de Barrabás.

Eu fico aqui a fazer de Cristo.»


Joaquim Santos

domingo, outubro 22, 2006

ONDE DIABO ESTÁ O MATT?


A dança é ridícula, ingénua, pura, de criança feliz.
As razões para dançar são todas!
Até eu dançaria, se pudesse ter estado ou viesse a estar
onde o Matt esteve!

sábado, outubro 21, 2006

CRISE DE FIM DE SEMANA













Cansaço é cansaço.
Desocupação é desocupação.
Desgaste é desgaste.
Disponibilidade escrava é disponibilidade escrava.
Entre uma e outra e outra e outra coisas
vogou, como casca de noz em mar alto,
a nossa vida quase todo um ano.

Ó crista da vaga furiosa e imprevisível em que ela andou!

Tu sabes bem que, por vezes tóxica, a hora morre
e mata de equívocos o que o rosto fala, o que o rosto cala.
Tu sabes que nada se compara ao teu sorriso nosso,
à leveza com que todos os dias nos acolhemos.

Sabes, mas esqueces.

Uma semana dura, mal termina, para ti e para mim,
pode ser como a água do banho que atiramos juntamente com o bebé da alegria
nos fechados rostos, nas palavras guardadas, cansadas,
crueldades de silêncio cinza por sobre a cinza de tão fugazes dias.
Uma semana dura, mal termina, foi como uma batalha feroz
e poder agora pousar as armas ensanguentadas
não será ainda descanso.

Será...

Crise de disponibilidade.
Crise de frescura.
Crise de paciência.
Crise de fim de semana.

Toda a gente faz o que pode para se aguentar nas canetas durante.
O pior é depois...


Joaquim Santos

sexta-feira, outubro 20, 2006

AHMADINEJAD, A AMEAÇA QUE SORRI













A civilização persa não tem futuro, com aquela merda de mulheres de negro e punições físicas por tudo e por nada, com aquele negrume nas vestes da mulher,
com aquela clericalização completa da sociedade,
com aquela ilusão de agradar a Deus pela imposição férrea de uma moral,
de um pensamento religioso único,
como outrora, no Leste, o partido único era represa da liberdade completa do indivíduo,
onde precisamente por isso ninguém se poderá sentir pessoa,
e os EUA, por muito militaristas e brutais que tendam a ser,
têm, back home, uma sociedade verdadeiramente livre,
para o mal e para o bem.
Ninguém requer cidadania iraniana com gula e desejo extremo
porque o Irão não é paraíso nenhum de democracia ou de liberdade, pelo contrário,
há uma mole de gente incontável que deseja ardentemente a cidadania norte-americana,
portanto, ali a liberdade e as possibilidades da liberdade decorrentes
seguem irresistíveis.
É o primeiro, o Irão, que tem a desvantagem da ameaça.
O mundo está mesmo sob a sua ameaça.
Israel é uma nação entre as nações,
deve ser reconhecida, mas o Irão desafia a nossa paciência
porque é da sua cultura desprezar a morte,
quando não é da nossa cultura desprezá-la.
A nossa cultura remeteu o Paraíso para aqui e agora,
portanto, tem muito a perder perante a familiariedade-com-a morte iraniana.
O recontro poderá ser inevitável.
O mundo adormeceu.
A bomba iraniana e a iraniana instabilidade poderá acordá-lo.
Ou nem sequer poderá.

Joaquim Santos

INVITATIVO














Vem, meu amigo, repousa no que esta imagem te promete.
Vem e confirma que a Paz que buscas é.
Ainda que outros te digam da violência como caminho salvador,
tu crê na verdade da paz salvadora.
Ainda que outros exemplifiquem a filha da puta da crispação,
como metodologia de bruxas e vítimas,
quotidianamente conjugadas,
tu sê firme da serenidade,
porque não há caralho de profissionalismo
que passe por pôr o pé na carótida dos já excluídos
e esmagar, esmagar, até que estrangulem, conforme devem,
segundo pensam as cabras e os cabrões,
como dizem os teus miúdos das primeiras, «com falta de pincel».

Se amas de facto os teus marginalizados miúdos,
então defende-os dos burocratas de merda,
dos que simplificam a coisa pela lei,
dos que, pela lei, fornicam as pessoas erradas nos comportamentos,
mas certas na rebelião.
Não te deixes seduzir pelo justiceirismo hipócrita e desistente das pessoas concretas.
Aguarda. Suporta. Espera. Contém-te.
Um dia, as vacas-do-lugarzinho-certo, secas e mal-amadas,
terão o pagamento das respectivas iniquidades em géneros.
Os estatísticos e burocratas, os manipuladores de números, também hão-de se foder largo.
Faz o que te manda o coração e puta-que-pariu os
das palavras guilhotinantes!

Meu amigo, meu amigo, de resto,
és tão desconfiado,
tão teimoso na carapaça de firmeza com que te blindas.
Nem tudo é como a tua mente fixa te sussurra,
há coisas que dizes e a que te determinas
que são fechamento puro,
que são erroneidade completa.
Reflecte. Modera-te.
Não te vitimizes para justificar a tua brutalidade.
Não chores por tudo e por nada
para melhor te transformares nesse bruto retaliador.
Ninguém no grupo que constituis se comporta assim.
A tua exigência em não ser abusado e espezinhado,
como no passado,
faz de ti agora hirto e cadavericamente inflexível
nas tuas escolhas, nas tuas opiniões, no teu discurso,
e isso deforma e caricaturiza o teu carácter.

Encontra, por favor, um ponto de equilíbrio
antes que o mundo acabe.


Joaquim Santos

terça-feira, outubro 17, 2006

DA PASMABILIDADE

As máquinas vão
e depois vêem por e para nós:
Saturno segundo Cassini,
como outrora segundo as Voyager,
e é o sonho,
a transposição do impossível,
o trânsito da máquina para o pasmo
em tempo real, quando o sol está por detrás.
E nós, aqui, neste pontinho azul,
esquecidos da insignificância preciosa
de que tudo o que nos diz respeito se reveste.
Isto mesmo escreveu Sagan:
«Look again at that dot.
That's here.
That's home.
That's us.
On it everyone you love,
everyone you know,
everyone you ever heard of, every human being who ever was,
lived out their lives.
The aggregate of our joy and suffering,
thousands of confident religions,
ideologies, and economic doctrines,
every hunter and forager, every hero and coward,
every creator and destroyer of civilization,
every king and peasant,
every young couple in love, every mother and father,
hopeful child, inventor and explorer,
every teacher of morals, every corrupt politician,
every "superstar," every "supreme leader,"
every saint and sinner in the history of our species lived there
- on a mote of dust suspended in a sunbeam.
The Earth is a very small stage in a vast cosmic arena.
Think of the rivers of blood spilled by all those generals and emperors,
so that, in glory and triumph, they could become the momentary masters of a fraction of a dot. Think of the endless cruelties visited by the inhabitants of one corner of this pixel
on the scarcely distinguishable inhabitants of some other corner,
how frequent their misunderstandings,
how eager they are to kill one another,
how fervent their hatreds.
Our posturings, our imagined self-importance,
the delusion that we have some privileged position in the Universe,
are challenged by this point of pale light.
Our planet is a lonely speck in the great enveloping cosmic dark.
In our obscurity, in all this vastness,
there is no hint that help will come from elsewhere to save us from ourselves.
The Earth is the only world known so far to harbor life.
There is nowhere else, at least in the near future,
to which our species could migrate.
Visit, yes. Settle, not yet.
Like it or not, for the moment the Earth is where we make our stand.
It has been said that astronomy is a humbling and character building experience.
There is perhaps no better demonstration of the folly of human conceits
than this distant image of our tiny world.
To me, it underscores our responsibility to deal more kindly with one another,
and to preserve and cherish the pale blue dot, the only home we've ever known.»
Joaquim Santos

segunda-feira, outubro 16, 2006

SONHO DE UM FRANGO OUTONAL














Penso num frango assim assado.
Penso nele nesta hora parva de serviço esfomeado.
Imagino-o tal e qual, a rescender,
vaporoso,
odoroso a especiaria.

Entre o sal e o piri-piri,
há gordura, há pele estaladiça
e há esta manducante língua,
doida,
abraçando dentária,
comprimindo tanta tenrura,
e um vinho leve,
ardente, tinto como um sangue,
viva seiva que sacia e perdura.


Joaquim Santos

sexta-feira, outubro 13, 2006

VÉNUS NO CIO



















Queixa-se Vénus a Júpiter
pela falta de atenção.

Não diz palavra.

É com o corpo que se queixa, que a requer e que a ganha.
Esconde-se, mostra-se, rebola,
abre-se em florações lúbricas,
baba nos dedos, cabelos, da boca ao ventre
lábios cuja carne em flor brilhando rubra
é toda uma nudez ao coito pronta.

E o deus, que do seu trono bocejava já
da farta ambrósia, do farto néctar,
do convívio cansativo com os divos comensais,
pronto já ao sono divo,
logo larga a cornucópia,
pousa as armas tonitruantes,
ergue-se num pronto e, avançando para ela,
arrebata-a como a uma ave que, pelo pescoço,
se toma da multidão aviária.

Sobre o imenso e acetinado leito joviano,
em mil piruetas posicionais,
em mil ardores e suspiros,
em gemidos e gritos deleitosos mil,
em dores de gozo e ais que cantam,
será hoje Vénus bem fodida...

Joaquim Santos

quinta-feira, outubro 12, 2006

O ESCRAVÓMETRO DA MINISTRA














Agora, ser professor cumpridor mata.
Agora, ser professor sério é tão vulgarizável e minimizável como não o ser.
Agora, ser professor empenhado tráz malefícios graves à saúde
pelos novos constrangimentos, pelos novos estrangulamentos de espécie vária.
Agora, ser professor implica abdicar de ser pai e abdicar de ser pessoa
porque, para se ser professor, só se pode ser máquina e nunca avariar.

Portanto, não professore, pela sua saúde!

Erigindo a pirâmide mentirosa e faraónica dos resultados falsos
e das estatísticas mentirosas para papá ver,
o escravómetro da Ministra vai de vento em popa...

Não pára.
Não cede.
Não retrocede.
Não escuta.
Não atende.
Não conhece.
Não sabe.
Não quer saber.
Não compreende.
Não!

É a gestão no seu melhor
a triturar as pessoas sociologicamente.
Ela, a Ministra, trouxe todo o espancamento ao professor
que o Eça sonhara para a nação inteira,
através de uma sangrenta invasão espanhola!

Porque uma invasão ou uma agressão moralizam e regeneram.


Joaquim Santos

quarta-feira, outubro 11, 2006

AOS CATÓLICOS IMPERFEITOS














Filho, por que suspiras e te enfadas?
Faltaste às missas todas, não foi?
Passaste a relativizar os Mandamentos
por te parecerem um enunciado naftalínico
e anacrónico qualquer, não passaste?

Deixa lá.

Pega na carta magna dos Direitos Humanos,
lê-a, e verás que é a mesma coisa em modernês,
e verás ainda que não há alminha mais renitente
que neles, nos Obedecimentos Mandados,
não veja uma linha de rumo incontornável
para que a pessoa seja pessoa
e não mais somente coisa entre coisas
neste mundo inteiro.

Em modernês,
toda a inspiração dos Mandamentos Obedecíveis mantém-se
e até se aperfeiçoa, porque lá,
onde se punia a falta à Lei com castigos mentais e corporais,
cortando a alheia mão,
cortando a alheia língua,
ceifando a alheia vida,
murmurando, linguajando,
instigando e maledizendo,
cuspindo e apedrejando,
guilhotinando e crucificando,
odiando o pecador com um santo e violento amor a Lei do Senhor,
em modernês pretende-se é a salvaguarda, a promoção
e o respeito pela vida alheia que é igualzinha à nossa
(e igualmente digníssima)
porque nas criaturas do Senhor também encontramos O Senhor,
está escrito.

E é por isso que tu, católico imperfeito ou mais-que-perfeito nessa imperfeição,
não precisas de rasgar o cartão de sócio,
quando te franzem o sobrolho de dentro ou de fora da tua Igreja,
pedindo-te os documentos numa operação stop à tua alma,
quando te pedem a papelada da tua fé,
e te pedem o arrazoado burocrático do teu catolicismo.

És mais amado e mais valioso
que o que diga a soma de um arrazoado burocrático qualquer,
seja onde for.
És mais importante e sagrado
que a folha limpa de uma vida sem pecado e sem risco,
sem tentativa e sem erro.

Vejo-te capaz do milagre de amar o que podes e como podes.
Vejo-te de pé na missa da vida
como quem espera que a justiça lenta se faça final e forte
e que a última palavra pertença a Quem-de-Direito,
enquanto o trigo e o joio aloiram e amadurecem juntos.

Depois, meu filho, lembra-te que a boa notícia
é que a Salvação nem está a saldo nem está pela hora da morte.
É uma coisa acessível, humilde e suave,
áspera apenas pelo que de instintivo e
reptiliano te controla e não controlas.

A Salvação é uma rocha firme
e aceder-lhe passa pelos teus sentidos,
pelo Pão Consagrado que a tua língua humedece e engole,
pelo Óleo Santo na tua fronte que te lembra a unção messiânica na Divindade Una e Trinitária
pelo Sermão da Montanha, apelo ao alpinismo do amor incondicional,
se fores homem para ousá-lo,
pela Água Baptismal na qual submerges e da qual emerges, saiba-lo ou não,
já revestido do mistério da Pessach Yeshuaniana,
onde a morte foi derrotada e a vida refulge para sempre.

Quanto às bizantinices do sexo,
que para os filhos da racionalidade
parece ser a pedra de tropeço
mais inarticulável com os conteúdos da Fé e da Esperança católicas,
ele, o sexo, que é alimento intocável do nosso bem-estar
porque amar e ser amado,
como a Salvação, também passa pelos sentidos,
quanto a ele, ao sexo bizantinado pelos iluminados da razão,
sugiro-te que, tal como com a comida e com a bebida,
o uses com garra e alegria,
usa-o como veste festiva
usa-o com tusa e intensidade,
usa-o com arte e com bom-humor,
desempenha-o como um touro e uma beleia,
que fazem o melhor que podem e ainda é pouco,
usa-o enquanto puderes porque nem sempre poderás.

Não deixes é que te use
e põe-te na pele daquele ou daquela que te atrevas a usar,
mesmo quando da ética que a dois ou a grupo convencionaste
penses sair incólume das consequências
ou sequer imune dos vínculos poderosos que geraste,
pois o sofrimento que ocasiones
pode ser um gordo cheque em branco de amarguras para ti também.
Pensa, portanto, que é preferível seres apaixonado a reprimido,
mas é ainda mais preferível seres um apaixonado responsável
que um apaixonado irrefreável.

Mas do que for feita a tua essência
será feito o teu caminho
e o teu caminho é processo e é diálogo.

És e deixa que sejas um católico imperfeito que estás muito bem assim.
Deixa que outros sejam católicos e cretinos perfeitos,
católicos e empresários sovinas perfeitos,
católicos praticantes
mas impróprios para consumo na solidariedade e na lealdade.
O que é perigoso é a coroa de espinhos para os outros
que mora num católico perfeito,
orgulhosamente brutal da sua perfeição.

Sê perfeito na tua humilde imperfeição católica
e já estarás muito bem assim,
juro!


Joaquim Santos

segunda-feira, outubro 09, 2006

VELHA AMAZONA NA SELVA-URBE












Que fibra essa,
que vibração tão viva há nesse teu espírito
de velha amazona na selva-urbe!
Certo é que monopolizas o discurso,
quando te interrogo.
Quando te interrogo, logo respondes vivaz
e és incisiva,
e és clara
e és definida
e és consciente e experiente da vida
e da valsa das aparências que te recusas a dançar!
Repito: és de uma vivacidade extraordinária,
velha jovem mulher guerreira,
e efectivamente tens fibra e sou eu que,
tendo semeado as perguntas que te excitaram,
ouço subscrevente o que me dizes da ministra a ignorância,
a brutalidade, o sacrifício que é imposto a cada docente,
dizes-me dela que o que quer é mentir nos resultados para a paternidade ver,
que o que quer é a estatística da mentira,
a substância da verdade é o que não quer,
à custa da saúde dos professores.
Porque a verdade é que num reformar brutal e brusco
a ministra incompetente para ministra, como dizes e então eu me ouço,
nos sobrecarrega,
nos expurga da balda do tempo, deixando-nos sem qualquer espaço
para exercer o tempo,
a verdade é que ela nos mina,
a verdade é que ela nos mói,
magoa e desmobiliza da própria verdade que o terreno nos anuncia.

Gosto de te ouvir, a ti, espertíssima e velha amazona na selva urbe mulher,
tal como a outras como tu ouvi já, no limiar da loucura,
lúcidas até ao abismo-náusea do irracional desespero que no entanto não transcorres, equilibradíssima.

Pertences a uma casta de gente guerreira e forte, quase extinta,
como não sou nem desejo ser, nem assim guerreiro nem assim quase extinto,
tu, que desfias os teus argumentos ponteaguda e afiada,
tu, que derramas razões inteiras sem a gaguez duvidosa,
e é na ponta da língua que as dizes e dize-las a doer,
e tens um carácter de ferro admirável
como sei que não desejo ter.

Quero por vezes lulaificar-me para, mesmo nas minhas predações em relâmpago,
relativizar-me e ao que digo e ao que entendo como certo
porque a verdade é quadrimensional.

Só por isso é que não quero ser como tu e molusco-me,
lesmaifico-me por sobre a rocha firme quadrimensional
onde só então sou firme.

Joaquim Santos

domingo, outubro 08, 2006

FÓRUM EM FURO


















Pergunto-me como é possível publicar um tão grosseiro tipo de ataque pessoal*
num espaço como este, onde é suposto haver um crivo de qualidade
e de decência profunda, na salvaguarda das pessoas?
Como se pode consentir em textos que visam atacar gratuitamente
a intimidade de alguém, neste caso a minha,
na minha profissão,
na minha identidade,
na minha família,
no convívio que tenho ou não tenho com as pessoas,
e desta maneira obscena, mentirosa, completamente falsa?
Mas afinal são as pessoas que estão em cheque
ou os seus argumentos ou as suas ideias?
Não faz sentido e sinto-se lesado nesse consentimento
ou negligência do Fórum Desabafe Connosco do JN.

O Leite Figueiredo por detrás disto,

por detrás destes inúmeros pseudónimos mal-intencionados
desde o Xico Gaydes
ao Des Contente, passando pelo caluniador Kinkas,
e muitos, muitos mais,
é ele quem tem a centralina fundida pelo hábito do assédio maldoso,
pelo hábito de semear a discórdia, a confusão,
de em nada ser construtivo,
de amar o deserto e a desolação em vez de as pontes
e entendimento verdadeiro entre as pessoas.

É insuportavelmente perseguidor.

É insuportavelmente denegridor.
Não ando (nem tenho perfil para) nessa actividade negra,
ó Des ComGaydes,
de insultar diariamente alguém,
conforme fazes.
De fazer comentários negros,
anonimamente sujos, visando pessoas concretas,
conforme me foste fazendo ao longo de meses e meses no meu blogue,
ó adoentado do espírito.
Tu e só tu vinhas postar insultos todos os dias,
várias vezes por dia,
à minha pessoa, à pessoa da minha esposa
com insinuações sempre porcas de que te não cansavas,
grande besta boçal.

Nunca te insultei.

Nunca te persegui porque tu não és ninguém,
não és nada, somente uma (entre tantas)
máscara constantemente colocada e alternada com outras por desfastio.
Contestei inicialmente o teu tom maldoso
logo no arranque do meu blogue, quando destestavelmente vieste vestido de Xico Guedelhas
para o Fórum com considerações impróprias sobre a minha esposa
e sobre a questão da vaidade de ter um blogue,
coisas que não te diziam respeito e que devias antes de mais respeitar.

Há excelentes hospitais psiquiátricos que tratam decentemente gente indecente,

negra e malígna como tu, que em vão te escondes nos anonimatos
e nos pseudónimos para seres ainda mais negro e ainda mais detestável.
Compreende que tu é que és desprezível ao mundo.
Tu é que enfastias o planeta
comportando-te como esse seboso mal-intencionado, maldoso,
e entediado em tudo, ó pseudonimista e falsário de ti mesmo,
Figueiredo Gaydes,
Xico Guedelhas,
Des Leitinho caladinho,
Des Com Dentes,
Xico Bosta!

Joaquim Santos



*«Estive para não lhe responder, mas...Cá vai. O papel de anjinho a si não lhe assenta, e todos temos memória, uns mais, outros menos.Assim sendo, porque não centralizou os seus textos badalhocos em mim, que não tive problema nenhum em lhe responder, à letra, no seu blogue?O senhor Joaquim Santos sofre de algo que lhe fundiu a "centralina", e passou a disparar em todas as direcções.E ainda vem o senhor dizer mal da ministra da educação...O senhor que se diz professor, com a mania da perseguição de que sofre, deve ter sido, pelos vistos, bem avaliado.Se eu tivesse filhos meus com um professor sofredor do seu mal, ou o meu descendente mudava de escola, ou mudava o prof.O senhor não passa de um rufia bem-falante, aliás, bem escrevente, porque quem o conhece pessoalmente diz que “se mantivesse um diálogo na Rua Escura com alguém, deixava todos de boca aberta”.Senhor Joaquim…Creia que a mim não me afecta minimamente, desprezo-o mais que a um cão vadio, porque cedo lhe tirei a “pinta”.Aconselho-o a tratar-se, e a não usar a imagem da filha, que diz ser sua, para apelar ao coração dos que quer “manipular”.Olhe que o mundo é pequeno, e pode acabar de um dia para o outro.Até mais ver, longe se possível…
Xico»

quarta-feira, outubro 04, 2006

DO BOVINO BULLSHITISMO














Ó debates elevados e correctos,
como sois exclusivo de uma casta de ateus e racionalistas
com queda para a idiotia pedantolas em viscosa baba
e que se encontram ou vêm pastar (com ó) na fuga afónica!
Dogmas nunca os encontraremos num blogue
ou numa página de gente bem-pensante,
decente como esta,
cheia de ética para consumo interno,
como a salsicha só o é dentro do frasco
porque, fora dele, transita de imediato em pasta
entre a língua e os dentes
começo de viagem natural maravilhosa
com destino último à cloaca
escatológica!

Ó grande, ó incomensurável dogma do desdém
entre certo tipo de ateus de cepa ruim,
como é divina e de pernas abertas a vossa sanha
interminável de desdenhar caluniosamente da Igreja
e rir do ar macilento das privações ou depravações libidinosas
de algumas freiras e de alguns padres amuados ou à solta com o próprio corpo,
esse vosso ateu marralhar ajustes de contas históricos
como se se tratasse, a Igreja, de toda uma humanidade à parte
com a qual nada se tem a ver!

Ó desdém e verve de certos ateus militantes
que não são racistas,
que não são sexistas,
que não são senão pluralistas,
salvo naquele nojo de pudica reserva quando se lhes fala da Igreja
e se lembram de aborto
salvo se se lhes fala em cristãos
e recordam latex e pílulas anticoncepcionais a par de beatas procissões,
como se o desdém e a verve em esporradela provocatória
destes ateus por si só
valessem por uma definitiva abolição da fé,
de pulverização do Cristo,
suplantado por um Muhamad incinerador,
e acima de tudo fizessem tábua rasa
dos quadros éticos de referência que constituem o meio
em que afinal todos medramos e nos tornamos Europa
a cujas costas vêm ter os cadáveres hirtos de africanos
sequiosos por serem pessoas,
novos Moisés morrendo à vista da Terra da Promessa!

Gente que nega a possibilidade de Deus
negando a letra da Lei e o espírito dela que os possibilitou
identitariamente até à des-noção, à ingratidão leprosa,
e à inconsciência alarve do coma.

Ser imaginativos e bem-humorados,
integrando a novidade na velhice,
isso não conseguem,
mas somente um viver a espaços deprimidos
na ponderação da própria finitude
em putrefracções facciosas,
o que é muito respeitável
e igualmente comum.

Mas por que raio não se armadilham
de causas novas e ardentes
tais desdenhosos e ressentidos ateus,
que lêem a história obliquamente, em saltos de canguru,
e por intercortadas pausas para café,
que se acham os mais libertos e libertários navegadores do sexo,
que se julgam no auge da liberdade e do prazer,
que se consideram uma consciência e uma responsabilidade à parte
comparados com a carneirada que vai a Fátima ou a Lourdes,
que se supõem lucidíssimos, iluminadíssimos,
sempre tão rentes à intolerância trocista do não-ateu
e simultaneamente tão obesos da tolerância
de que se acham exclusivos detentores,
mas por que,
oh por que não se organizam
como ferozes defensores da mulher calcada e excisada
ou do clima oleoso e bélico bushista e, portanto,
mentiroso, bullshitista, que mina o mundo?!

Mas que sombra ou que mal lhes faz a Igreja
em face das verdadeiras merdas em acção silenciosa no mundo?!


Joaquim Santos

MANSO SEQUESTRADOR












Sem gritos de sangue,
sem armas na mão
ou a mão enquanto arma,
sem qualquer violência,
este turco, que se diz cristão,
foi pirata aéreo por um momento:
tinha uma mensagem para o Papa
e pediu asilo a Roma por objecção de consciência
ao serviço militar num país muçulmano.

Já não estávamos habituados a tanta placidez.


Joaquim Santos

terça-feira, outubro 03, 2006

O MELHOR TERRORISMO


















«Primeiramente,
eles ignoram-te.
Depois riem-se de ti.
Depois combatem-te.
Depois tu vences»!



Mohandas Ghandi

Não sei que tempos de bombas,
que tempos re-nazis de braço estendido,
de barbas e bigodes falantes, vociferantes,
anunciando o sangue e a supremacia.
Não sei que tempos de caça às bruxas,
de malfeitorias disfarçadas e escondidas,
(salvo se a sofreguidão de matar
denuncia imediatamente quem mata)
que tempos de anónimos oleosos e doentes,
de unhas negras de arranhar a própria falta de talento des contente em tudo,
até de serem homens no mundo.
Não sei de nada.

Sei de Cristo e de Ghandi,
de Mandela e de King,
sei de quem usou o terrorismo
de revolucionar, submetendo-o,
o pior médio-oriente por dentro,
sei de quem mudou o mundo por se mudar a si mesmo,
queimando a íntima violência
desde a raiz inflamada do coração.

Sei que é por aí,
dia após dia,
é por aí.


Joaquim Santos

RE DEMENTE












Este cromo da cena internacional,
Ayman al-Zawahiri
este brilhante protagonista da resistência suicidária
à América, aos seus valores e ao que cheire a liberdade,
este des contente que mata as pombinhas da Catrina
e mais quem as apanhar,
este anónimo cheio de 'ladra' e que outros mordam
diz que «o cristianismo é inaceitável para alguém sensato».

E isto é verdade. É verdade porque, se forem sensatos,
os candidatos a cristãos nos países da mordaça islâmica
calam-se bem calados
e assim não se arriscam ao linchamento por sê-lo
precisamente lá,
onde ainda se condena alguém à morte
(e se mata mesmo)
por tal motivo.


Joaquim Santos


Des Potente Gaydes Figueiredo Preto, ajude-se a si mesmo, antes que entre em coma de tanto entrar aqui para pensar que me atinge com insultos e provocações feitas a medo.

segunda-feira, outubro 02, 2006

ARBÓREO AROMA













Que odor a gigantárvore
se bebe tão doce neste pouco de Outubro!
O ar fresco, suspenso, aveludado, cá fora,
dissolve-se na brisa que adeja aos rostos,
namora ramagens.

Um sentimento de brandura,
de espessa e entranhada ternura,
solta-se-me lento agora
tão grato me sinto
(saudoso do teu rosto,
sopro do teu corpo)
por ti, por dentro.


Joaquim Santos

domingo, outubro 01, 2006

CALAMARES


















Nada a dizer quando o povo fala.
Quando o povo fala está dito.
E o povo diz que, porcaria por porcaria,
mais vale ficar tudo igual.
O povo é bom.
Não há punifffão,
só, pelo visto,
a punifffãozinha de uma segunda volta.


Joaquim Santos

ANATOMIA DE UM MORCÃO ANÓNIMO













Tu agora escreves a medo,
ó Figueiredo?
Tu agora espreitas pouquinho,
ó Leitinho?
Já não compensa
seres cabrão anónimo,
ó maricórneo?
Estás cansado de que te peides,
ó Xico Gaydes?
Gastaste as munições com que brincas,
ó camelo Kinkas?
Tosses inveja e catarras ravinas,
ó Calinas?
Dói-te o corno e o dente,
ó Des Contente?


Joaquim Santos