sábado, março 31, 2007

SERMO MONTIS


Pérola na vida é ter encontrado isto,
esta promessa cheia de paradoxal: a felicidade na sua energia absoluta
contradizer a evidência, o momento e o aparente.
Chorar e sofrer hoje terão em fracção de nada o outro lado: felizes!
A perseguição e a crueldade que se sofram hoje terão o outro lado: felizes!
Assumir o Teu Nome, Jesus, a Tua causa de amor intercessor,
salvífico, e ter de arrostar com toda a espécie de oposição e indiferença terá o outro lado: felizes!
É haver consolo depois que consola durante.
Triunfo da fé. Triunfo da esperança.
Depois de Te ouvir dizer, como quem esculpe na pedra, onde está a felicidade, Jesus,
está depois, deixei-me ficar reclinado entre a erva alta e a recurvada oliveira,
cismando.
Todos dispersaram.
O dia morre. A noite vai nascendo.
Faz frio.
Aconchego-me melhor no meu manto,
cubro os pés, escondo as sandálias para que não enregele. Mas nada importa.
Não Te segui porque Te sigo.
Falo-Te e sei que me ouves. Partiste com o teu grupo onde há mulheres.
Levantastes-vos cheios de sorriso e intimidade, andando para Betânia.
Fiquei no monte. Só.
Avisto agora o inteiro anfiteatro vazio dos esfomeados e doentes.
Ralos zarpam por um mar de vibrantes estalidos.
Este silêncio hoje é outra coisa, Jesus.
Fiquei, mas por que sinto eu que estou tão contigo como se Te acompanhasse
entre a multidão?
Vi os peixes e vi os pães.
O meu coração não sabe o que considerar disto.
A Lei é tão zero comparada ao amor com que nos cercas, com o olhar com que nos integras nem imagino em que abraço.
Olho as estrelas e penso nos nossos antepassados atolados de angústias e precaridade por todo a parte e seguiram uma Voz e, na Voz, uma promessa.
Eras Tu, Jesus, e que Te partisses e repartisses pelo mundo inteiro na mais humilde partícula
e que fosse possível morrer saturado de perdão, de amor, de esperança.
Belo Céu!
Esmace nele um azul muito doce e um fio de lua, lasca recurva de madeira albina,
vem acender-se no horizonte como um adormecer aconchegado.
Jesus, sentir-me-ás, aqui, tão só e tão cheio de Ti, pensando em Ti, pasmando em Ti?
Sinto fome.
Tenho frio.
Mas é aqui que quero terminar. A lepra tomou-me e corrói-me.
Nem penso nem quero cura.
Peço a morte. Que se me abra a porta do Teu Reino.
Que eu O veja brilhante, a essa Cidade Celeste que desce, enquanto eu suba.
Já vi o gérmen da vitória sobre o mal neste mundo.
Já vi o Justo, a Santidade indescritível falou-me hoje. Escuta-me agora.
Já posso morrer em sossego.
Eu sei que a violência desencadear-se-á contra Ti e contra Ti nos teus, mas nada resistirá
à obediência que nasceu nesta terra.
É tão bela a erva que vejo e oiço agora mesmo rumorejando, ondulando à brisa.
Ó brisa, beijo meigo do meu Jesus!, que eu me apague então
na doçura do Teu sopro,
que eu me extinga no veludo do Teu beijo.
O fim de este andrajoso,
de este mendigo miserável desde sempre pedinte,
de este que hoje comeu o pão quente multiplicado e o peixe fresco saboroso,
este pobre leproso na carne e na alma,
este pobre que é feliz
porque será consolado.
Hoje mesmo consolado.
Expiro...
Afinal, tudo é Sopro...
Sopra um vento de Vida mesmo quando se morre...

quinta-feira, março 29, 2007

SEURAT, DA POSE


Perder as tuas formas entre pontos, pictórico mago,
eu, que te interrogo, que em tudo te vejo.
Amares em mim o ver-te, bago a bago,
e dares-te-me inteira como a taça do desejo
erguida alto, que bebo de um festivo trago.

MARCHA EM LENTO


Este camião lento que transporta batatas
comunica ao meu ser, que lhe vai por trás,
conformado,
uma tão calma!

Conduzo por estas estradas de infância,
atrás de um camião ronceiro de caixa aberta
onde há sacos de batatas de rede vermelha
e outras coisas à toa, oscilando numa tão modorra.

O sol incide nele, camião, e a minha velha estrada desfila,
lenta, berma da esquerda, berma da direita,
onde a areia e o pó geravam lama e em coito químico se misturavam.
Minhas pegadas lá ficavam, sulcos pequenos,
de os meus pequenos passos, quando rezava por entre fomes,
sulcos maiores, quando treinava o sacrifício e a resistência e o suor.

Não quero ultrapassar as batatas de este camião lento.
Quero lembrar-me de mim e apegar-me ao eu-menino,
beijar-me, esse solitário ouvindo vozes dentro,
recluído no seu mundo, rezando pela família,
aspirante a Homem-Aranha,
candidato aos superpoderes, se existissem,
com que fosse herói e salvasse o mundo,
incansável atleta.

quarta-feira, março 28, 2007

NO ABATER DA FIGUEIRA


Vergastada a árvore que dá figos por os não dar,
sovada, espancada, varada veementemente,
nada aconteceu.
O machado está à raiz. Pronto.
Não sabemos se será usado.
Pode bem apodrecer à raiz da figueira,
ganhar ferrugem, oxidar muito.
A árvore não mudou de estéril.
A árvore não estremeceu de infrutífera.
Manteve-se embotada e fria.
O machado afiado, polido, em aço temperado - espelha na lâmina a árvore.
O vento e o sol,
as securas, as geadas,
passaram, queimaram, fizeram lanhos,
tatuaram de tempo a figueira, arvoredo, figueiredo,
numa montanha rochosa, entre urzes, lixo, pó.
Estrume havia sido espargido,
água penosamente levada, balde após balde,
derramada lenta, cirúrgica, à flor da raiz,
imóvel cobra retorcendo-se para dentro e para fora, petrificada.
Nada.
Ano após ano e zero dos frutos e o nulo do que uma figueira promete.
Cortemos nós esta figueira, já que o dono ainda aguarda compassivo e não age.
Cortêmo-la nós.
Saltemos a cerca, trepemos ao muro.
Vandalizemos a árvore morta de sumo, ausente de doçura:
os corvos e os mochos que se lhe alternam em pouso
para longe esvoaçarão, quando nos acercarmos.
Ó pegar naquele machadão e brandi-lo coruscante alto!
E golpear.
Golpear a muitas mãos.
Sulcos em v, alvas lascas e uma seiva nívea vertendo sangre.
Golpear a figueira.
Golpear.
Mudar de mãos.
Somos muitos.
Golpear.
O tronco é grosso, amplo, três anos ou três mil é muito tronco, é sempre tronco.
Golpeêmo-lo, portanto.
Um golpe.
Outro golpe.
Pausa.
Saquemos de lenços, as costas das mãos também servem.
Limpemos o suor.
É noite. Está quente. Tiremos a roupa.
Juntos, em tronco nu, homens e mulheres usando o machado,
alternando as mãos nele.
Juntos.
Em tronco nu, homens e mulheres,
mulheres em tronco nu também:
seios frementes no golpear cadenciado,
mamilos apontados no golpear ardente.
Rocemo-nos cúmplices no trocar das mãos e do machado.
Troquemos suores. Troquemos olhares.
Entreolhêmo-nos neste rito sagrado e que, no fim de esta noite,
só no fim,
tombe este espécime ficus estéril.
Tombe fragoroso. Role.
Depois, despedacêmo-lo.
Façamos uma fogueira com que atravessemos o final da madrugada.
Demos as mãos e dancemos.
Por agora, golpear.
Golpear de novo.
Ei-lo que geme já.
Chia. Um roçar de madeira fibrosa e húmida anuncia o estrondo no pó.
A árvore cai.
Angula e da erecção em meio-dia tombou para as três horas
e, rolando um pouco, jaz imóvel.
Está morto.
Tem de arder.
Não há seiva, humidade, que retardem a força com que consumiremos esta figueira do nada.
A seguir, a festa.
Depois a cinza.
Dissolvamos esta assembleia de células que nos não deu nada.
Dispersemos as suas cinzas.
O dia rompe.
Sobe um sol já zangado, termozangado.
Fujamos.
A figueira não prestava.
A fogueira nos foi festa.
Não prestemos contas ao dono.
É um presente nu. Está dado!
Figueiredo derrubado.

terça-feira, março 27, 2007

MINÉRIO D'ALMA


Fome de fontes,
águas que, meigas, se me entranhem fundo, límpidas de veludo e me lavem e me levem lentas.
Fome de fábulas,
bosques rumorejantes, faunos, faunas, galhos, folhas, aves que piem, esvoacem, predadores do momento.
Fome de filmes,
cenas a azul, ondulando reais, enquanto mentem.
Fome de fomes médio-diurnas, médio-nocturnas e haver beijos e uns olhos que se olham vivos, luminosos sem nada dizer enquanto falam.

Abranda, meu ser, abranda.
Milhares de imagens e palavras que vejas, que digas, é coisa vã.
Oco é seres exterior e excessivo.
Excede-te no comedimento,
mesmo que não consigas, excede-te em quereres o silêncio e o nulo.
Terramoto, tempestade, febre,
são fúria de passagem: passam. Passem prestes.
Se pudessem não haver, talvez houvesse mais vivos, menos sangue, menos perdas.
Armário funesto é o orgulho, contendo o bolor antigo do esquecimento lembrado,
veneno acre, tóxico.
Bloga, coração! Entre bolor e bulir venha o leitor e escolha.
Leite, mais leite - alimentem-se as pedras, as fragas e penedias mamem.
Mamem o leite da verdade, mane ele, boca a boca, licor, licorne, mito de Prometeu hepático saudável,
agrilhoado,
afogueado furto.
Ó página lenta, escorre por sob a minha mão.
Macia, sacia-me do que diga agora.
Vejo o vinco de uma quilha rompendo verdes águas de veludo, limos,
olho-o, olho-me no vidro líquido onde escrevo suspenso texto:
«Trânsito existir! Trânsito para o Céu certo do depois.»

Queima a minha saudade de Marte: caminhar laranja, monocolor sem respirar aquele pó.
Marte, meu Marte de sonho, onde saltar é mais saltar e caminhar um correr fácil, que céu mel se vê de ti!
Montes, vales, canyons - saudade de ti, deserto vivo, do teu silêncio,
da tua voz recomeço. Ó festa da água descoberta. Ó voos rente a rochas, saber-vos minério!
Amar-te, Marte.
E regressar à folha onde escrevo e planto árvores, floresço nelas, refundo Roma,
recuneiformo escrita, rehieroglifo perfis, re-tróio Tróia,
retraio Páris e mato Heitor.

Delicado café cheio e o açucar ser dizer alto isto desde o princípio,
como um disparo em rajada contra o muro estúpido de ninguém saber disto.
Como é possível que ninguém saiba disto?
Eu devia ser tão Sinatra como o defunto,
ter o proveito e a fama.
Depois fugir, escorrendo pelos corredores, pelos bastidores, só para evitar o cansaço de autografar e ainda o maior cansaço de sorrir, quando o que quero é cama e desaparecimento anónimo entre quatro paredes e alguma música.
A fama é mel também.
O recato é ouro.
Pudesse eu reter a cor âmbar da paz doce, áurea,
e à fama dispensá-la só depois de tida.

Quero ilhas,
Santa Helena de ter sido general
e ter sido tudo,
incluído o império, incluído o exílio!

segunda-feira, março 26, 2007

MIL POEMAS: PALAVRASSÉDIO


Hei-de escrever mil poemas.
Mais de mil escreverei.
Poemas de luz e de sombra.
Poembos níveos ou sombrios voando em concurso com as palavras que calhar
eclodir de ovo deles.
Sou e continuarei a ser o tarado da palavra e do poema e o meu assédio nunca acabará.
Cercá-los-ei, assediá-los-ei, à palavra e à fêmea com nome macho, que é o poema.
Eu e as minhas esperas nas esquinas com propostas indecentes, colocadas com nobre sublimidade e dir-me-ão sempre que sim
e virão comigo, cada palavra, cada poema,
subrirão comigo a um quarto escuro,
de penumbra ardente, convidativa a intermináveis cópulas,
onde se cometem loucuras e se experimentam doidices.
Seduzirei as palavras, uma a uma. Dormirei com o poema por ser fêmea.
Tenho pressa de cumprir mil poemas, muita pressa.
De cio, de fúrias e de zelos,
ando em fogo pelas palavras: se as apanho, amo-as, fodo-as.
Não, não estou zangado.
Não estou ressentido com ninguém, apenas me interessa apanhá-las,
agarrá-las pelos seios-formas,
apetecem-me as suas ancas, tocar-lhes,
puxá-las para mim
beijá-las,
rasgar-lhes roupa e carnes,
despi-las,
submetê-las com alguma violência ou com toda
(há palavras que resistem num fazer de conta que se resiste)
e temos de ser fingidamente sádicos se com isso elas se nos rendem
e deleitam mais em adrenalinas de susto e de desejo.
Mil!
Eu disse mil poemas!
Não se fazem mil poemas sem assumir personas,
pontos de vista fingidamente radicais só para chocar, causar ahs!
e assumir um tom carnívoro de formas gigantescas.
Mil poemas é só uma rampa para dois mil e mais ainda.
Quero industrializar os meus poemas,
quero lançadeiras a vapor ou a diesel ou eléctricas - que os tecidos massivos se gerem poéticos
vinte e quatro horas por hora - não há lógica nem lei num verso de génio.
Só génio e força de vontade.
Não farei maldades às palavras,
só as assediarei e, como as sei seduzir, não tenho culpa que as palavras me experimentem enquanto as experimento.
Rabo sapo de Bane é uma experiência e uma invenção bestial - não há poética sem o seu bestiário
e eu construo o meu.
Mil poemas é andamento e TGV de alma.
Mil poemas é reacção à canina e desalmada política que fustiga os pobres.
Sem poema que aspire a mim não haverá quem verbere o pefil estúpido de estes fenómenos
miseráveis que temos de ler nos jornais do dia-a-dia português ou na própria pele
por acaso portuguesa também.
Políticos desalmados e políticas sanguinárias merecem mil pedras e mil paus:
se aguentarmos firmes o que nos fazem,
ao menos tenhamos a força do poema que é uma coisa de arte,
um acontecimento fatal e corajoso no meio da objectividade e da jornalice efémera.
Mil estados de alma.
Mil caravelas.
Mil espadas desembainhadas e logo cravadas.
Mil poemas a pefurar o tempo, a transpassar os flancos do momento,
meu sémen, meu zelo, meus eus, meu cuspo, suor agora,
que depois há eternidade.
Dor por enquanto,
que mais tarde levitarei sobre as nuvens da bem-aventurança
onde, fechando-os um pouco e respirando fundo,
pouso os meus olhos todos os dias.

RABO DE BANE INTERPELA JOSHUA


RABO DE BANE: Joshua, por que não consigo tirar os meus óculos Rabo-ai-Bane das tuas postas e lancei uma cruzada contra o perigo de existires ameaçadoramente às minhas rimas?
JOSHUA: Bane, por que és tu invejoso, esquizofrénico, inseguro, obcecado e vulgar, mas sentes-te atraído, como uma mariposa, para a luz a sério da minha poesia a sério?
RABO DE BANE: Não sei.
JOSHUA: Vês? Estuda um pouco. Aloqueta-te à sanita. Não saias de casa para fazer malinho a ninguém tribunal por dá cá aquela palha. Isso é ainda mais primitivo que as tuas rimitas enjoativas.
RABO DE BANE: Que me aconselhas?
JOSHUA: Que te deixes urgentemente de rimas e perseguições a gente pacífica e sossegada e passes à libertação em voo das contas. Há uma ou duas coisas que simplesmente sapos Rabo de Bane não podem fazer.
Poemas é uma delas.
A outra é escrever sobre «mamas».
RABO DE BANE: Afinal és meu amigo.
JOSHUA: De Bane, ficas a saber que podes contar sempre comigo... Bem longe!

FACE ESCARPADA


Aquela voz ansiosa,
áspera, no aflitismo burocrático de cumprir,
anuncia ao mundo
o desastre definitivo da simplicidade.
Eu sei que não sabes do que estou a falar,
mas acredita que anuncia.
A isso se chamará trabalho,
mesmo que o não seja,
somente um frenético esbracejar inútil e doloroso de um Portugal eminentemente chato.
Tão chato que ainda apetece mais emigrar para a Austrália,
assim numas férias tão longe que isto não lembre, não cheire nem saiba.
Blogarei sobre tal coisa e ai de mim se não blogar, pois doer-me-á
a parte entre os ossos onde a consciência se aninha, havendo, como há,
consciência até nos ósseos interstícios dos corpos e no meu.
Onde faltam os olhos, porque faltam, falta a compaixão e a serenidade em tempos tão selváticos!
O dinheiro grita e esmaga.
As botifarras do dinheiro marcham sobre o cadáver dos desempregados.
Eis o desbragamento do dinheiro, o seu triunfo sobre o homem.
Ele pisa de défice toda a gente que é gente e não compra carros de luxo,
só as sandes possíveis.
Hoje não posso ter face.
Perdi a face como quem se gastou a olhar o mar numa espera baldada.
Nada vem aportar aqui.
Por isso sangro,
deslocaliza-se-me o coração para onde o lucro de existir me pague melhor
- quero em pensamentos e recordações o pagamento.
No Irão, penso o preto e o cinza imperiais da rebeldia: não nos preocupemos com o Irão,
que hostiliza e enforca Alá no criminoso e no inocente
e gostaria de aniquilar Alá disfarçado de Israel.
Andemos tranquilos porque o mundo é pouco comparado com a glória aladina
que ali se há-de desembainhar.
Entretanto, novamente esta voz de um rosto duro incide como um sol equatorial sobre a minha esperança perdida.
Ó tempo de mulheres-macho chefiando os departamentos dos hipermercados,
corajosas a despedir subordinadas e a derramar ironias
e epanadiploses irónicas!
Eclipse-se tudo!
Haja só o tempo em que eu chapinava nas poças da maré baixa e em que já falava inglês,
apesar de ter só cinco anos. Entre caranguejos, pequenos peixes, pequenos camarões,
havia mais leveza e nuvens brancas no horizonte e uma brisa estável
provinda do norte.
Depois, sobre a areia limpa, rescendendo muito a sal,
escavava toda a manhã ou toda a tarde e por pouco não chegava à China,
impedido talvez pela maré cheia, que refluia e avançava ameaçadoramente.
Paus e pedras inócuas na praia.
Girinos e enguias nos ribeiros quase mortos.
Pinheiros nos pinhais.
Infância na infância.
Lia muito e escrevia muito, mas a terra era o vestido de sempre.
Amava o pó e a fome de muitas horas transpirando.
Ninguém reparava na importância arquitectónica, escultural, disso de escrever e ler muito
em mim, tão novo.
Por que é que ninguém compreendia nas minhas linhas preenchidas uma pulsão de arte?
Arte, coisa de somenos, comparada com a emergência em mim de um
físico nuclear!
Minha praia ampla e limpa, como me eras o mundo rindo feliz
jogando à bola e tomando banho na hora certa
e às vezes na hora errada de tomar banho com espuma e sal!
Minhas ondas alterosas, onde corpos balouçavam
num cavalgar em êxtase,
Praia,
ondas,
sem política,
sem défice,
sem produtividade,
sem dinheiro.
Volta, liberdade!

sábado, março 24, 2007

PRÓDIGOS (ABRAÇANDO D. MANUEL CLEMENTE, BISPO DO PORTO)


No mundo é perdido que se anda.
Errância e desatino,
trazemos quase cicatrizados os longínquos lanhos infantis
de um amor recebido como pouco,
mesmo se superabundou.
Encontrar-se um homem no meio de este ruído e de esta massa pastosa das emoções
desmedidas, mal-medidas, natureza da emoção,
é, por vezes, não haver como possa um homem encontrar-se.
Século de pródigos, filhos da abundância das coisas e da indigência e precaridade dos afectos,
rodeados das bolotas proibitivas do sentido
enquanto guardamos os porcos de toda a sorte de humilhações...
E a herança dissipada é a do encontro pessoa a pessoa
sem os muros comparativos,
sem os muros interpostos pelo medo de perder seja o que for nesse encontro.
Penso na areia no caminho,
nas voltas que as palavras dão até assentarem no Abraço por que se espera para além de tudo.
Toda a ciência e toda a literatura convergem no maior acontecimento poético de sempre,
tudo quanto se gritou,
todo o ranho e toda a baba de dor desprendidos
por um contorcido rosto humano
apontam para o fulcro poético da História,
de todas as histórias - que um pai assassinado, porque rejeitado em vida,
se levante e vá ao encontro do filho mais novo, quando o pressente,
ainda na longínqua curva do caminho, de regresso.
Que um pai, que um coração ilimitadamente amoroso e paterno
maternize o sobressalto de alegria por ver regressado, roto e sujo, lá longe ainda,
aquele filho.
Que se alegre, vá ao seu encontro, o abrace, o cubra de beijos
e ser isto tudo quanto precisamos saber de Deus, tudo também quanto precisamos imitar d'Ele.
Pois que eu não queira outra prodigalidade
senão a prodigalidade do enternecimento,
do respeito absoluto pela mais radical liberdade de cada um,
bem entendido em que consiste essa liberdade.
O que decorre de amar muito é condescender muito
- recolocarmo-nos precisamente onde o outro se encontra.
Que eu não queira outra prodigalidade senão a prodigalidade da paciência, da misericórdia
em sentido etimologicamente puro: coração que se desdobra e sente o poço do outro, identificando-se com ele e sentindo as suas dores, que se aproxima para chorar e para sofrer
com a emoção acesa, vela ardendo que nos humaniza.
A inflexibilidade e a rejeição como modo de estar permanente magoaram-me num padre.
Um padre miura afiado nas pontas, distribuidor de remoques e recados invasivos e brutos,
Nunca mais quis sofrer com isso: que a aspereza e a exigência sem pedagogia
superabundassem em detrimento da escuta e do acolhimento,
que o remoque fosse mais e a delicadeza menos - perante isto, excluí-me, como Paulo, hiperbolizando, estaria disposto a todo se perder se assim ganhasse o seu povo judeu para Cristo.
Afastei-me. Cortei. Quis preservar-me da estupidez e da brutalidade num padre desumano.
Um dia tive um sonho. Era um homem, um novo padre que chegava não sei aonde e que, em vez de frieza e repelência, aquilo a que eu estava habituado a sentir, com que estava habituado a contar, acolhia-me caloroso, reintegrando-me na paz e na comunhão.
Há sonhos e sonhos, mas este tinha materialidade e as marcas indeléveis da força símbólica:
lembro-me do sorriso e das mãos que se me estenderam,
francas, abertas, inspirando confiança plena.
Lembro-me de o meu coração
passar de negro a luminoso só com esse gesto.
Lembro a magreza e a calva de esse homem, padre, símbolo, alguém que nunca vi.
E lembro ainda haver povo em torno dele, inundado de alegria.
Sei que o olhar de Cristo,
o modo como reparava em cada qual e reparava em cada qual o medo da rejeição
e toda a distorção íntima, sobretudo nos humildes, não nos altivos e ufanos,
esse olhar foi a luz mais brilhante de todos os afectos já havidos nesta Terra.
Quando penso nisso, não tenho dúvidas, só nostalgia e esperança:
o olhar já ama e já acolhe e já salva e já integra e já promete
qualquer coisa fabulosa, preparada para este mundo.
Uma grande Páscoa,
uma Páscoa Cósmica
em que o género humano ascenda, finalmente,
ao Olhar Amoroso
que sobre ele desce.
Entretanto, haja tempo para a clemência,
D. Manuel Clemente, Bispo do meu Porto,
e essa clemência feche as feridas abertas pelos brutais.

sexta-feira, março 23, 2007

O SAPO RABO BANE OU PORTUGAL DOENTE


Portugal adoece a olhos vistos sempre que a liberdade é amordaçada ou a tentação de amordaçá-la ronda como os grifos em torno da carcaça inerme, imóvel, porque morta, da desinformação desatenta, do des-empenhamento social, da des-consciência geral. Claro que enquanto tu, amigo, continuares com as tuas postagens eclusivamente românticas ou superficialmente filantrópicas e não te informas a fundo, nunca repararás que há um roubo nacional em decurso, há um crescer de opressão e de desigualdade que se faz subreptícia ao nível do teu bolso e ao nível da tua liberdade criativa, interventiva ou simplesmente informativa, coagida pelos poderes de sempre como um garrote que se aperta lento: a censura a certos blogues incómodos, cujos autores são perseguidos e mal-tratados, de repente e convenientemente desaparecidos do sistema de certos servidores nacionais, é disso exemplo, como documenta também o corajoso blogue Do Portugal Profundo.

Depois, isto da interacção blogueana é muito lindo, mas tem desenterrado completos monstros e gerado absurdos de todo o tipo aberrantes, situações e ocorrências que a lei de modo nenhum está apta a prever e a tratar convenientemente, até porque o que agora está no ecrã, amanhã não está e como a prova, para ser prova, tem de ser material, permanente e palpável, deixando de o ser, deixa de ser prova.

Só agora, por exemplo, descobri o demente peso desmedido de uma sombra a monitorizar-me este blogue há meses, a espiolhá-lo, a desenterrar de ele toda a espécie de frases descontextualizadas para lhes dar o revestimento de ofensas pessoais a si, de injúrias, difamações e o que quiserem chamar ao que simplemente se escreve de modo intenso, uma sombra ET inventando perseguições minhas no quotidiano sombrio de essa sombra, investigando-me ela todo, toda a minha vida, detendo dados sobre mim incríveis de ter sobre mim, quando nada mais faço que poemas e nada mais que isto poético e não ando por aí a inventar inimigos e a recolher toda a espécie de informação privada e particularíssima com quem tenha um despique verbal na internet, tipo ora agora falas tu, ora agora falo eu.

De facto, foi-me movido um processo, que é coisa para me deixar banzado a duas dimensões: em primeiro, como é possível a aleivosia de ler em mim algum intuito malévolo seja relativamente a quem for simplesmente a partir do meu blogue e respectivos textos escritos, comentários a comentários, e nada mais; em segundo, como é que há, dentre a prestigiadíssima família dos juízes portugueses, alguém que dê andamento a mentiras sobre mentiras e a linhas de argumentação perfeitamente medievalizantes do nosso tempo, para não dizer maquiavélicas. Que eu ameaço, que eu persigo, que eu não sei o quê, coisas que jamais poderão ser provadas porque impossíveis de conter verdade - completas invenções de um espírito perturbado, desorganizado, de uma baixa auto-estima, uma insegurança, tais que em cada palavra palavrossavra minha (palavra grande, forte, mas coisa afinal extinta e enterrada e só visitada ou revisitada por quem quer, gostada por quem gosta, procurada por quem procura minoritariamente) vê o elefante real que lhe barra o caminho do sucesso.

Ainda por cima eu, que nada tenho, que não tenho dinheiro para andar à brincadeira cara dos processos e ao jogo caro das escondidas de adultos, que é frequentar Tribunais, vejo-me, portanto, arrolado para a doença de um doente, que vive e sofre para e por litigâncias permanentes e deve ter recursos para brincar a isso. Tudo bem, mas eu não tenho. Sou pobre. Completamente pobre e, mesmo que fosse rico, continuaria a não ser paranóico ou esquizofrénico.

Não tenho culpa de este sapo D. Quixote das causas, mas na verdade simples e prosaico Sancho Pança do prosaico, tenha um autoconceito desmedido, uma pretensão a uma notoriedade que parece que o ameaço só com existir, respirar e escrever. Não tenho culpa de haver raiva e ranger de dentes lá, onde medra apenas a vulgaridade dourada Rabo Bane, o sapo que se lembrou agora de ser engolido por mim.

Chamado para me confrontar com esta situação de arguido pelo Sapo Rabo Bane, lá fui à Polícia, tão inocente no meu modo inocente de viver inocentemente em tudo, excepto no furor poético, palávrico, e vejo que estou acusado, como K. n´O Processo, sem perceber porquê e, sobretudo, para quê, com que fim. Eu, que nem sequer conheço o cheiro de uma sala de Tribunal, vejo-me acusado, arguido - coisa inédita na minha vida. Na Polícia, falei serenamente, fui acolhido calmamente e já comecei a agir porque obrigado a agir. Provas, textos, elementos com que em primeiro lugar fui injuriado, traços textuais comuns entre anónimo injuriador e uma identidade assumida. Estou pronto a fazer o que tenha de fazer.

Há advogados humanos e há Deus, advogado absoluto, que como defensor dos homens inocentes e meu defensor chega e sobra, mas vejo-me forçado a acusar também, a queixar-me também, a exigir ser compensado por danos à minha paz, à minha privacidade, à minha serena paz e sossego sossegado, desde sempre e para sempre. Então eu, que sempre fui tão dado à sacristia e à pacífica missa, ia agora fazer mal a um sapo de óculos, cujos papinhos sob os olhos até convidam a um certo enternecimento!

Pois é, mas o Sapo Rabo Bane tem fotografia e eu vi-a, concluíndo aterrorizado do sapo que havia nela, na fotografia. Fiquei siderado e a pensar: «Meu Deus, 37 anos de vida e tinha agora de ter o azar de aturar isto, estas invenções, esta marcação cerrada ao meu blogue, uma pseudo-Justiça a avançar e a encontrar sustentação em petições ou queixas de homens-sapo, completamente evadidos dos Magalhães Lemos de esta vida, a importunar jovens pacíficos e poetas demasiado poéticos para estes sapos Rabo rimas Bane, artífices sem alma da rima desalmada, paladinos desastrados da caça às bruxas corruptoras, impecávais inquisidores do valor e da arte alheios. Portugal só pode estar doente, enquanto gente desequilibrada confunde tudo e ainda por cima é atendida pelos corredores tristes e incredíveis da nossa pseudo-Justiça, corredores ineficientes, corredores desperdiçadores de vida e verdade só porque é um direito acusar. Onde estão, afinal, os Julgados de Paz?».

Não. Portugal está mesmo, mas mesmo, mesmo, doente. Por isso mesmo tenho de rezar ainda mais. Por mim, tão inocente em tudo de que esta doença-feita-sapo me acusa, mas também pela alma do próprio sapo Rabo Bane, que, embora vivo, está morto porque desalmado e desproporcionado no andamento que deu uma coisa já morta e enterrada há muito tempo, ele, que é mais um daqueles contabilistas que não sabe somar e muito menos calcular aquilo em que se mete ridículo.
Ainda hoje me foi lembrado que um homem a quem se tira tudo passa a ser um homem sem nada a perder. Pois serei esse mesmo homem, se me tirarem o pouco nada que tenho.

quarta-feira, março 21, 2007

A POESIA NÃO ESTÁ. SAÍU PARA TOMAR CAFÉ E VOLTA TARDE.


Ressinto-me dos pedantes como uma árvore do pouco sol.
Considero a altivez e o campeonato da cultura,
da bem-opiniância e da bem-escrevência
abominável a meus olhos.
Sou um espírito humilde.
Os vaidosos cansam-me as vistas.
Logo hoje que a Poesia foi dar uma volta - é dia de sair para ela -
obelixizaram-me a minha poesia.
Que a minha poesia-menire é ridícula.
Que as minhas pretensões a ter caído no caldeirão da aldeia, em criança,
bebendo da poção mágica de ser poeta
são infundadas,
que só existe a verdadeira poesia,
coisa de uma dúzia de proprietários vivos e outros tantos mortos e que alguém,
sempre excelso, sempre sibila, nestas coisas de acertar em tudo,
sabe onde está, a devora e tem no bolso.
E eu nilces.
No dia da poesia!
No dia da puta da poesia!
Está bem, João.
Ok. Agora vou ficar a olhar esta cena de Altamira
e a meditar nesta minha exclusão excomungante e papal da poesia,
da puta da poesia, para não falar da desulmildade de me achar isso, sacro e pudico,
que é ser verdadeiro poeta!
Ou o verdadeiro artigo!
Penitentia agite!

terça-feira, março 20, 2007

ZOOPALAVRICÍDIO DO LEITOR


O poeta repete-se. E o dia, não? Repete-se a refeição e a voz.
Mesmo a morte, quando vem, é a mesma e igual,
assenta como uma luva a toda a gente, mas o poeta repete-se.
É a ingratidão por te pôr à mesa farta um banquete de palavras, leitor.
Fossem elas um exército, um exército sem cavalaria, só peonagem,
e daria ordem contra ti, leitor.
Daria, general do dizer, instruções exactíssimas para que te cercassem,
sitiassem,
até capitulares,
antes de mais sede,
antes de doenças mais.
O meu exército-palavras efectivamente marcha, pterodactilograficamente,
organiza-se, sagitado,
para conquistar-te,
para flanquear-te e tomar-te, cidade após cidade após cidade.
É ele que corta as tuas linhas de retirada.
É ele que corta as tuas linhas de abastecimento,
que te seca as fontes.
É ele que te comprime contra a parede para que ou te danes ou te rendas danosamente.
Insólito enxame de vespas, sempre tão sós, cobrindo-te de aguilhoadas,
matilha esfomeada no teu encalço,
as minhas palavras-felino são o leão despedaçando a zebra débil, segregada do grupo,
que és,
leitor.
Imobilizar-te-ão, começarão a devorar-te os quartos traseiros,
quando ainda respiras, sentes, pressentes e percebes tudo,
erroneamente tomada por asfixiada nesta pressa sôfrega animal de grande porte das minhas palavras-urso,
quando ainda respiras, supiras e sentes,
embora no torpor do teu transe pelo espectáculo lúcido de seres zebra comida,
por isso é que não estrebuchas nem gritas deixando quem te come tranquilo a comer-te,
e já há saliva nas minhas palavras-tigre siberiano comendo o javali infinito da tua natureza cevada, leitor,
já há saliva por tanto sangue e tanta carne, leitor.

O poeta não se repete, leitor.
Eu nunca tinha escrito isto que escrevo e é espantoso que o escreva.
Só se percebe o espantoso do que se escreve lá muito depois, não logo,
porque o logo é ainda o dizer incandescente, arde.
Muda de pele, leitor, muda!
Não poderás crescer no meu poema se não mudares de pele, leitor.
Para isso, imobiliza-te e contorce-te assim, lentamente.
Roça o teu ser contra as ásperas rochas, rasteja.
Coleia até mim, sinuoso, pois agora és a serpente já derrotada em face das minhas palavras-mangusto.
Eu lido bem com os teus estratagemas,
os teus dentes não se me cravam que me envenenem de morte.
Sou eu que te devoro, leitor. Eu é que te tomo e integro.
O poeta nunca se repete, mesmo se não sabe aonde vai, não se repete.
Aonde vamos, quem responde?
Não há resposta fora da esperança de uma saída,
mesmo que para dentro de alguma coisa ou alguém.
É preferível entrar na boca jacaré larga do poema a sair para a esperança no nada.
O poeta não se repete e o leitor nem imagina aonde vai ter o poema,
a que armadilhas, a que emboscadas - o poema
é um campo minado e não há pé, perna, pénis e mais ainda que escape e não se desfaçam
no pisar incauto nas minhas palavras-percutor.
Poema de explodir,
poema de lacerar e de abrir.
Quem se repete é o leitor.
Tu, sim, leitor, repetes-te.
És sempre o mesmo na diferença epidémica do meu texto, nas mutações em peste do que eu crio.
Vacina-te, leitor.
Ou então deixa-te ir e que o contágio seja letal - quarenta e oito horas de febres, tosses, estercos
e seja o Céu que se te abra de par em par, abertura só para ti:
o meu poema aparecido, minha aparição poema,
incenso transcendente de sentido na tua boca concorde
como quem crê e comunga quer creia quer não creia.

Oiço, de repente, alguém em grito corvino. O público não ouve nem quer saber que alguém grite corvinamente.
O grito é como um desespero a frio, um desespero conformado de alguém que ainda não aportou ao meu poema, ainda não foi varado pelas minhas palavras-flecha,
ainda não teve os dentes-hiena das minhas palavras, despedaçando os seus ossos
de inesperado, um inesperado inconformado carnívoro, como se fossem manteiga, os ossos.

Que o meu poema se faça carne com carne contigo, leitor, contigo que te repetes (o poeta não se repete!) e então a voz-refeição serão altiva negação do que haja a negar.
Não, não nos submeteremos à coisa defunta da realidade.
Não, não há sabor a além-tudo senão no poema.

Nenhum poeta se repete, leitor.
Repete, leitor, javali foçando palavras alheias e engordando delas, o poeta, repete, leitor.
Eu estarei palavras-tigre à tua espera.

segunda-feira, março 19, 2007

CANÇÃO DESGOSTUGALHOSA


Bosta de realidade haver uma caterva de espertos a cavalgar as multidões!
E eu que não consigo fazer pender o meu espírito para coisas cor-de-rosa
quando a massa de oprimidos cresce e eu caminho no meio dela.
Gente usada, mastigada, pela informação parca e parcial e depois regurgitada.
Gente deflectida dos bens que uns poucos, completamente outros, arrotam com enfado.
Ó conspiração silenciosa contra quem é fraco!
Conspiração informática, magnética, dos totolotos contra um povo inteiro,
contra o olho vivo de quem joga e sabe, por experiência, como e porquê os números dançam onde dançam e fogem de onde fogem.
Conspiração do capital a apertar com as pessoas multiplicemente - por todos os lados
uma lógica esmagadora a armar em produtividade e eficácia quando na realidade
é o mecanismo geral da escravidão geral a gerar geral eficácia no mecanismo de escravizar.

Louçã e Portas, o Paulo, esperamos em vós!
Ao menos vós atendei-nos!
Por que anda o Jerónimo sozinho a espumar verdades pelos cantos da boca!
Os nossos ouvidos clamam por ironias e tiradas cáusticas em tempo real,
coisas verbais da vossa lavra, frases daquelas sarcásticas,
que dão consolo aos oprimidos,
que sossegam os enganados, esganados, como eu e milhares.
Nós, os sensíveis,
nós, os ingénuos,
nós, os oprimidos por dentro e por fora,
não vos temos ouvido ultimamente.
Andais calados? Porquê?
Onde está o fogo cerrado do vosso verbo?
Vinde fazer contraste, ó Louçã, ó Portas, ó Jerónimo!
Não é que acreditemos em vós,
mas sempre perorais,
sempre fazeis assuada,
os vossos discursos são o circense da política,
aquilo que nos entretem e faz sonhar que falar conta, que contestar conta.
Aparecei e dizei frases-lixívia,
deitai amoníaco no chão sujo da vossa classe
e esqueceremos por momentos o que afinal e de verdade está mal na aparência de que verberais o que está mal.
Quero metralhadoras de sátira ao poder porque ele é determinado.
Determinado, mas estúpido. Determinado e reformista, mas papal-infalível e mouco,
determinado, mas megalómano e irracional.
As certezas e os rumos certos estão todos na mão do poder.
Fora do poder há só o zero e a desorientação.
Quando o papagaio grisalho nasal, que é Sócrates, fala,
eu sinto (e quando eu sinto alguma coisa é de um sentir agudo)
que além de o discurso auto-apologético, sorridente e positivo só na cabeça dele,
o que aí vem é aquela oposição à Oposição
em tom papagaiento antidemocrático absolutamente demolidor.
E choro!
Cavaco não era assim.
Nunca mandava balázios opositivos à Oposição.
Mas este papagaio está no céu das convicções e dos interesses do dinheiro
e tem a faca e o queijo na pata - deus papagaio do charme fêmeo que participa em inquéritos porque sim,
papagaio deus demonstrativo, powerpointesco - papagaio grisalho como o rei jovem Sebastião,
pré e pós Alcacer Quibir das areias grisalhas mortais,
esperança eunuca do Portugal judeu, na sua messiânico-dependência,
grisalho como Salazar, na sua virgindade sumo-sacerdotal,
voz em falsete nas radiofonias indiscutíveis nacionais
de um rumo certo que não soa bem.

Sebastião, Salazar, Sócrates - ó aliteração insssustentável de um povo que precisa imigrar
de si mesmo! Ó sss aliterado como hipérbole histórica natural de um povo
a quem faz falta um exílio novo,
uma nova grande derrota norte-africana,
um estágio iraquiano por que acorde de ser medíocre em tudo
até nas reacções nulas quando o pisam
a não ser que os calos lhe doam directamente e nem assim,
povo urgentemente fechado,
povo acarneirável por um clero político feito de mesmos,
feito sempre de merd-os-mesmos há muito tempo,
agora e sempre. Amen.

Eu, a bater no mesmo prego,
a aparafusar o mesmo perpétuo parafuso inútil em perpétua desaparafusação,
poético trabalho morfina,
minha provisória e quotidiana
morfina,
à falta de melhor.
Não vos parece escarninha aquela cauda escarlate?

domingo, março 18, 2007

JUDITE - DESEQUAÇÃO


Ponteagudizassem-se-me já estas unhas,
cravá-las-ia em ti,
rasgar-te-ia de lado a lado
se não estivesse já por terra por tuas mãos mutilado
se pudesse antecipar os teus planos
e pelo menos evitar perecer às mãos de uma mulher,
eu, que me tomei de paixão pelos teus olhos.
Com esses tecidos tão intactos e luzidios,
ó bela e fingida viúva de Manassés,
de repente lacerados,
queria ver se ainda massacrarias de rumor vil esses salões
socialmente correctos onde ecoa o teu triunfo sobre mim.
Porque a grande resposta - aquela que faz silêncio à volta e nivela os corações na miséria comum - é que alguém se rebele e mate a eito,
além dos corpos podres na alma,
esses vozeios mortíferos,
esses murmúrios malignos,
enquanto tendes, israelitas, a minha cabeça nas vossas mãos,
e bastava que esse povo me tivesse respeitado.
Quando as mulheres murmuram,
quando as mulheres conspiram,
metendo-se nisto que é de homens,
o mundo deve estar a chegar ao fim.
O meu chegou por minha espada em tua mão
enquanto, embriagado, jazia dormente
confiado em que te teria.
Quando as mulheres emitem juízos
e se determinam a alguma meta,
quando se armam em heroínas e intercessoras,
há a sombra fatal de uma nuvem negra
que desliza para fazer cessar civilizações, nações, famílias, projectos magníficos,
Judite, filha de Merari,
e tu sabes bem o cheiro que fica depois do movimento da lâmina,
bem conheces o por detrás do gume.
Mas eu, Holofernes, to digo:
não vale a pena.
Só atrasaste o desastre do teu povo,
não o impediste:
da obstinação no impossível
colherá amarga amargura.

sexta-feira, março 16, 2007

METRO


Deslizando, gera-se um zumbido quando o aço roça o aço, chiando.
Andar. Parar. Abertas as portas, entra e sai a fauna dos feios, dos sujos, dos limpos, dos velhos,
dos magros, das gordas, das nacionais e das estrangeiras.
Oh, essas moças romenas grátis, ciganas,
com estes vestidos compridos tão floridos e desbotados, parando, corpo a corpo,
a meu lado - a língua estranha, a sovaqueira de um avinagrado radioactivo indescritível,
as silhuetas femininas de um moreno perfeito, perfeito nariz de bom e nítido recorte,
uns olhos doces amendoados, figurinhas catraias,
a pequenês vagabunda de andar a pedir como quem anda em reposições hipermercádicas.
«Trindade, aqui?», perguntam portugueseando a pergunta. Respondem-lhe que não.
Parar.
Inundação nova. Entram estudantes. Riem.
Andar.
Empalidecem. Enrubescem. Empalidecem de novo. Nas moças em que acontece isto e aquilo respectivamente,
há um efeito lula na alternância pigmentária frequente de se ser adolescente
e se ter de cruzar olhares ardentes com o atraente estranho de serviço,
à mesma hora, no mesmo sector do largato veículo. As coisas boas da rotina.
Parar. Um vento de suspiros e respirações invade as portas abertas.
Andar.
Há música nas vozes que bruxuleiam.
Cada vez mais nórdicos, os nacionais murmuram correctamente, são discretos,
imitam o silêncio completo das mulheres ucranianas que vão limpar as casas de família,
as confeitarias e escritórios da cidade pela manhã,
elas, que estão sempre tristes,
sempre zombies da saudade pátria.
Não é por ser manhã, mas há uma triste deslatinização de Portugal que as multidões testemunham. Entra pelo Metro adentro uma seriedade triste e policial - há alguém a pôr Portugal na linha, há quem esteja a meter tudo na ordem:
há o cruzamento de dados, o aumento das reitas fiscais,
um povo que trabalha mais e folga menos,
uma ministra educativa à solta rugindo como um elefante enlouquecido,
que abalroa autocarros apinhados, automóveis que estacam à sua passagem,
gente em pânico correndo em todas as direcções e que ela pisoteia furiosa e pesadamente.
Um animal enraivecido, encarregado de se enraivecer, é para abater.
Todos sabem que é para abater.
Até o animal, ele mesmo, o sabe e é por isso que ataca mais, que investe mais feroz.

É hora de sair.
Parar. E ainda bem, porque alguém largou o peido e já não se pode.
É terrível quando os cheiros se soltam nos lugares públicos,
ninguém se responsabiliza e todos sofrem do choque com o metabólico alheio.
Que falta de educação não começarmos de repente a conversar ruidosamente uns com os outros,
a acenar efusiva e cumplicemente a cada um dos milhares de utentes de esta coisa, piscando muito os olhos a toda a gente: «Olá, meu!»; «Minha!»; «Tá tudo, bro?»; «Hei, bacano!».
Que milagre, que revolução, não seria
este povo engelhado de burridade e iliteracia, tão escarrante e bronco,
desatar ao menos a tagarelar entre si, com desconhecidos,
com os muitos velhos que fazem de Portugal admiravelmente velho,
com os poucos jovens que fazem de Portugal admiravelmente chavalo,
ali, em pleno Metro, a cavaquear banalidades com quem calhasse,
a exercer o ministério da simpatia indiscriminada,
ali, a olhar fugidiamente ou fixamente os olhos que nos olham,
ali, roçando discursos além de roupa e redondezas de corpo, nas horas de ponta,
ali, onde fungando e tossindo, nos salvamos e contaminamos,
apertando a mão à grande irmandade do acolhimento português,
tão generosamente vaginal na sua elasticidade hospitaleira:
um povo desatando a mordaça de timidez e ignorância
que as elites adoram apôr-lhe
porque lhes dá alguma coisa com que se enternecerem
sem terem de pagar um cêntimo por isso.

quinta-feira, março 15, 2007

CÁLIDO CALDO


Sintonizem o modus poético,
aquela frequência mental associativa, revestida de onírico imprevisto.
Deixem que um fio de palavras - quaisquer palavras - se agregue por atracção fonética,
por atracção semântica.
Deixem que uma delas domine e outras se submetam.
Sintam a lógica de subordinação ou de poder que se estabelece entre elas - palavras fortes,
palavras fracas, palavras humildes, palavras que violam,
palavras que laceram, elas, as verdadeiras putas,
mais putas, muito mais, que os leitores que nos agarram e nos largam.
Reparem como de repente há texto - o poema, o verdadeiro, o autêntico e genuíno
puro poema-whiskey, não passa de um texto enlouquecido - e foi (o 'de repente' e o 'haver texto')
como que uma sopa que correu bem.
Regressem à mancha onde jazem, fumegantes, as palavras,
acrescentem mais sal, uma partícula de malagueta,
façam uma prova ao paladar,
oiçam-se a dizer isto,
façam um discurso.
Notaram que a tirar e a pôr palavras se desencadeiam ritmos inesperado-novos,
uma exigência de prazer ou um sentido do nojo?

Agora, pronto, afastem-se. Rua daqui!
Ponham-se nas putas!
Saiam, saiam, saiam!
Não vos quero nem um minuto perto de essas palavras.
São minhas.
Já disse que não vos quero perto!
O poema está ferido de morte.
O meu poema sangra.
Mania de tornar claro, racional e inteligível um poema!
Alguém pergunta: «Explica-me esse beijo, essa lágrima.»?
O poema não explica nada, não se explica em nada, não ensina nada, não mostra nada.
O poema é uma coisa respiratória que tem de ser respirada.
O poema é excreção que precisa ser excretada.
Saiam de perto da minha excreção!
Não foi feito para ser compreendido.
Compreender é prostituir.
Foi feito para existir e isso bastar.
Lírico. O lírico é haver um olhar único, porque doido,
de alguém único sobre a experiência única de tudo.
Lírico é praticar o olhar.
Quem se dedica às rimas é um técnico de rimas.
O lírico é outra coisa muito inédita, muito impossível, que acontece com uma raridade diamantina.

Se o meu poema cavalgasse e, brandindo espadas, trespassasse certas rimas que parecem, a quem as faz,
esse grasnar de ganso,
esse zurrar de burro,
geniais, esplêndidas, seria um knight-poema, um poema-andante,
justiceiro,
exercendo a justa violência,
vertendo o justificadíssimo sangue de esses versos sem alma, de esses versos-esterco,
existirem indevidamente, atrapalhando a verdade.

Voltem, leitores. Podem voltar!
Armemos uma tenda neste fim de dia,
façamos uma fogueira que comece por arder no meu coração combustível instável.
Deitemo-nos de mãos dadas, formemos uma estrela sobre a relva, à volta das palavras.
Por cima, reparemos, haverá estrelas.
As cigarras imitam com um som disperso e desigual o haver por cima, disperso e desigual, esse areal de estelar.
Vai um chouriço?
Assêmo-lo e comamos dele.
Está-se bem neste lugar.
De quando em quando, uma brisa vem e esvai-se em árvore.
Trouxe um garrafão de Lambrusco e, juro,
não havemos de sair daqui sem a paixão adocicada e espumosa de nos apaixonarmos
rubramente pelo poema ameno por causa de este milagroso convívio
ao calor-lenha das palavras.
Bebamos! Bebamos muito e,
na alegria que nos álcool-solte e álcool-revista,
amemos as bebedeiras declamatórias.
É preciso que se ame, que se ame muito, a embriaguês do poema dito,
a embriaguês pura de uma só emoção desencadeada pelo poema-disparo,
pelo poema armadilhado de insólita surpresa.
Pelo poema.

Pelo meu poema!

terça-feira, março 13, 2007

NA ESTRADA


Ouço, ouço sempre no rumor da brisa,
a densa delicadeza do Teu silêncio. A delicadeza!
Sei-Te os passos com os meus,
e nunca segues adiante de mim, deixando-me.
Ficas,
meu Emaús reconhecido,
em movimento. Ficas.
Peixe, Vinho Novo e Pão!

A mesa
é os meus olhos marejados,
a Palavra que me defende,
essa Mão com que me ergues,
meu Deus,
Posse e Meta
do que sou.

VERMEÁRIO - TEM A PALAVRA O DIABO


Ó delícia de formigueiro entre a roupa e o corpo,
excitação antecipada de virem eles a ser de bichos comedoiro,
é como um apanhar de uvas,
na grande vindima do não-vale-a-pena,
quando o mundo desaba e o laxismo para o bem vem reclamar a sua presa...
Por que é que o rigor mortis dos merdomens tresanda à arbitrariedade do de Lá de Cima?
Por que me agrada tanto haver desgraças e desgraçados?
Quero é os vermes, os morcões e as adoráveis minhocas lá, aí,
no miolo da terra, a processar tal esterco, mal desça ele ao humiliatório - vexatório túmulo:
eis a festa mais irónica que há: o equívoco
de os merdhumanos se acharem gente eterna e importante,
mesmo na confusão lúcida de não crerem em nada,
de crerem não ir a lado nenhum,
o que me convém e me é mais doce que o mel.
Só têm a sorte de ter um corpo. Gente com corpo! Grande invenção!
Enquanto passeiam sensorializam tudo e nem dão valor!
Deu-se o Lá de Cima ao trabalho de lhes criar um corpo: tanto espaço só para haver corpo com corações livres, sensoriais e sensíveis, se possível a Si.
Debalde!!! Comédia divina!
Ruína do Cosmos é haver estes poços de banha por lipoaspirar verminoso,
estas ilusões de alguma felicidade
numa culinária efémera,
num inocente cigarro,
numa velocidade alcoolizada.
E eu é que sou cornudo!
Svm capitalista! Sou o decapitador, literal e figurado.
Lavo as cabeças, levo-as também, faço por que se percam entre papéis e munições,
e inspiro os crimes e as sacanices de qualquer dimensão.
Mais adoro o orgulho incomensurável do Mourinho e a sua régia vaidade
que uma mariscada
em dia ameno regada de cervejas e caipirinhas, a ver as gajas passar.
Há petiscos para mim em haver quem foda fora, o tesão é fada que me fede a rosas,
sou eu que inspiro a mudar de prato, a inovar, que mulheres é coisa de comer até gastar:
e haja fartura.
Semeio desespero e impiedade - sou o primeiro a rir e o último
- cada acidente abençoa-me a sementeira com novas lágrimas e dores inteiramente grátis,
sou o joio entre o trigo, a pedra no meio do arroz, a pevide no gelado,
cada solteirona feia me louva porque tanto estou no seu vibrador imoderado
como na sua cama vazia, semeando o mesmo efeito de fome imperfeito,
estou todo nos apetrechos do século, camarada.
Estou nas grandes serras mecânicas, camarada,
nos grandes emagrecimentos que levam a doenças graves, camarada,
nas depressões e na alegria da tristeza, camarada,
estou nos grandes aviões que caem,
nas grandes sex-shopes que não servem para nada,
estou entre as pernas das fêmeas insatisfeitas
e na desoladora falta de erecçãozinha dos machos assassinos por isso mesmo.
Sou o desperdício e o labirinto.
Sou a festa de comer sem fome,
a festa de beber sem sede.
Sou a bosta mais irresistível, meu amigo!
Vens lamber o lago de pus do dinheiro na minha mão, camarada.
Eu, amigo das purgas.
Eu, fanático das zangas, das navalhadas,
das fúrias momentâneas sem ponto de retorno.
Eu, o do sangue derramado e da palavra danosa, o melhor companheiro do desânimo!
Sou de morte! Sou amigo do peito!
Sou escarninho! Sou perfeito!
Sou faz de conta que revolucionário das coisas que ficam como estão!
Sou livreiro, sou porteiro, sou um chuto, um chulo, uma passa,
gestor da clínica infanticida, maravilha,
insecticido-te com um sorriso insecticida, colega!
Sou o vai pró-caralho-e-bom-proveito a toda a gente e a toda a hora!
Sou a discoteca na morgue.
e a morgue em casa!
Sou a víscera,
Sou a bílis.
Sou a praga de gafanhotos do teu sossego,
o conselheiro dos padres abrutalhados.
O meu nome é hoje impronunciado. O d'Ele impronunciável.
Este é o campeonato em que a perder é que eu ganho.

ENGA(s)TE


Quanta vida há num poema!

Um verso,
outro verso.
Uma palavra, outra palavra,
esta luminosa, cromática aquela,
uma rubi-rósea,
outra verde-esmeralda,
outra ainda azul-safira:
incida sobre elas uma voz em luz
e de cintilar tilintando não cessem.

Quanta luz há num poema!