segunda-feira, junho 30, 2008

FATAL POSIÇÃO FETAL


De Ricardo são já por demais os e-mails jocosos a circular.
O País e o Mundo Português andam a rir amarelo
com os seus gansos retrospectivos e eles tornam-se emblemáticos
graças ao travestimento e transformação das fotos desportivas que os registaram
em novos objectos artísticos de poderosíssima zomba.
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Ei-lo exposto naqueles momentos cruciais que,
de todas as vezes, nos foram furtando ao golpe-de-asa desejado,
mal-sofridos os golos.
Neles, Ricardo aparece como um invisual à baliza,
como o grande chefe Redes-Sentado,
como um religioso em pleno culto do Reino de Zeus, aleluia, irmãos,
como um pedinte implorativo de mãos postas,
aparece inclusivamente no humor televisivo da RTP de Os Contemporâneos
que lhe não perdoa a vozinha-zequina e o mau gesto técnico,
esse estranho evitamento do contacto viril, bem físico, bem macho.
Um Ricardo, portanto, em todos os casos, de olhos fechados!
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As fotos não mentem. A verdade é como o azeite. As razões da derrota são simples.
Havia um calcanhar de Aquiles sem os méritos de Aquiles.
Vejo-o eu, ao Ricardo, a tender absurdamente a uma espécie de Posição Fetal
em alta competição devido ao facto de ter sido tão maternalmente protegido aí.
O País já deu o seu veredicto: nunca mais à baliza da Selecção
alguém que feche os olhos à espera que o problema passe!
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Cruel é que tenha sido precisamente o teimoso Scolari
primeiro a levitá-lo da irrelevância,
depois a protegê-lo desportivamente, sempre que fraquejava, de tal maneira
que ao fim e na na verdade acabou por destrui-lo profissionalmente.
De resto um País que fecha os olhos a Muita Merda que o lesa e relesa
não terá o que merece?
Nada a fazer!

domingo, junho 29, 2008

PTERODACTILONIANA PAISAGEM


Sabor ferroso a sangue. Ferida.
Jorra. Provo-o involuntariamente, quente, meu.
No Céu, onde, com umas nuvenzinhas róseas muito a nordeste,
a aurora lentamente se afoita, rósea, áurea, sanguínea,
vejo o gume vestigial de uma lua recedente,
muito a prumo toda dentro dum Azul Esbranquiçado.
Acomete-me de repente sentir-me somente um homem só,
pterodáctilo da escrita e do sonho
com a ponta dos meus dedos-asas,
ao alijar só assim toda a espécie de sofrimentos.
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Outros pterodáctilos, esses emplumados, cruzam os céus, centenas, milhares deles,
níveos músculos alados nas alturas oscilam nos recessos mais recônditos dele.
Vou pela auto-estrada e olho-os, hora de ponta celeste das gaivotas,
voando em desencontro, enquanto piam celebrativas, deplorativas.
Têm o Rio e a Cidade Iluminada por baixo, eis a Alfândega e a Ribeira.
Rodando sobre a Ponte, sinto-me já perto de casa.
É o triunfo das Aves e provavelmente da Grande Gripe
prodigamente esparzida do Alto.
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Afinal, um casal meu amigo lá casou, mas não foi por eles que o soube!
A brisa matinal é o melhor perfume do Cosmos. Sangro ainda.
Intromete-se-me o meu sangue com o seu paladar e dói-me esse casal de amigos agora casado
sem que mo anunciassem, como seria de esperar, ou afinal não seria nada de esperar.
Pterodáctilos por todo lado nestes Céus Litorais. Imobilizo o carro. Cheguei ao meu lar.
Afinal, todos os meus amigos me traíram! Pardais, melros, em montePio poisam nas ruas,
o ruído da fome avícola avulta pela minha janela automóvel num cagaçal festivo e faminto,
pombas, rolas, tudo é das aves, o fresco amanhecer é todo delas.
Afinal, todos os meus conhecidos me desconheceram. É do sono que penso nisso.
E toda a gente outrora próxima me desagendou das suas agendas.
Não os encontro. Nunca. Não lhes interessa encontrar-me, ver-me. Ouvir-me.
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Sou culpado de ser eu mesmo. Tornei-me-lhes evitável, assunto muito cochichado.
Que ando muito irado, que estou muito diferente, que agora sou deselegante,
desagradável, feroz, temível, cheio de palavras serrilhadas,
afiadas, envenenadas, maledicentes, cozidas e cerzidas de raiva e baba rebelada.
Que tenho agora demasiado inconformismo e rebeldia para ainda lhes parecer
o mesmo indivíduo cordato e cristão.
Que agora tenho demasiado Poema
e demasiado longa Narrativa para lhes ser inteligível e interessável.
Falhei na Indústria Conserveira dos Amigos, esse enlatado de luxo! E estou só.
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Não quer dizer que esteja infeliz. Não. Simplesmente estou só,
só como Fernando Pessoa a sós com a sua própria genialidade privativa e por desabrochar
nos orgasmos de aclamação, de publicidade e de triunfo póstumos,
só como certos presidiários inundados de cínico e do clarão desapontado com a Espécie,
só como boa parte dos velhos, as mais crassas vítimas de Portugal
que politicamente e socialmente e individualmente
vai praticando com eles um cruel e asqueroso Geronticídio
nesses Lares da Terceira Idade, onde certas Tias
gerem proventosamente a idosa baba, a sopa idosa e o silêncio pesaroso ante-mortem,
Geronticídio também nesses casebres miseravelmente degradados das cidades
onde se escondem e escondem todas as faltas de pão e saúde.
Geronticídio porque as partilhas, as contas bancárias, as jóias e os ouros
vêm certos chacais filhos-cabrões-chulos de seus parkinsonianos pais alzeimerianos
conflituar entre si e exigir antecipadamente
como é próprio de Abutres Apressados.
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Estar só é estar só higiénica, heróica e convictamente!
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Ninguém nas ruas. Ninguém em lado nenhum. Só aves, pios, a fome de rato
das aves pela manhãzinha. Tudo está deserto. Já não tenho amigos!
É isso. Não os mereço omnipresentes e invasivos.
Não me merecem. Dois ou três tenho, vá!, que me pagam associativamente
um jantar quando me vêem uma só vez e pela primeira vez na vida
porque anelam perceber, cara a cara comigo, se só em bytes instilo vinagre
e não no trato pessoal, onde tresando a amor e ternura.
Tiram a prova jantarina e depois partem tranquilizados. Amigos!
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Amigos talvez só mesmo um, extraordinário cantor e músico, e que por vezes me
encontra a malucar umas raivas, umas tristezas e umas apatias
à porta e em serviço do meu Pub, onde ocasionalmente toca,
e por isso mesmo vem, intuitivo, todo sorrisos antecipando o próprio humor-rebuçado,
a contar-me aquelass anedotas certas, a fazer-me rir muito.
Ele, com quem é sempre muito bom conversar,
ele, a quem é bom escutar e sentir-me por igual escutado
e falar do que calhe, nossas filhas, nossas mulheres,
do trabalho, desta amizade da boa.
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Mas, pronto, falhei de ser inteiramente convencional,
não tenho sucesso por que me procurem inquisitivos,
e falhei ainda mais de ser inteiramente social, porque sou mais interiorístico
e perdido em saberes, textos e palavras.
Preciso de amigos que me amem e aceitem apesar disso e para além disso
desconvencional e associal.
Não preciso de amigos que se gabam de me conhecerem bem
somente para melhor me desmoralizarem e menoscabarem, Amigos da Onça e de Peniche.
Fui espremido, ponto negro social espremido do rosto amistoso, por vizinhos e conhecidos.
Fui desolhado e tresolhado, riscado e emendado, deslargado e emprastado contra a parede.
Fui metrocado e metralhado: não sou sequer digno de um talvez ou de um moche a mim.
Que eu não tinha o direito de me tresmalhar e me tornar um Pródigo Guardador de Porcos,
dizem eles e pensam ainda mais que o dizem, os Porcos das Incertezas,
os Porcos do Labirinto da Vida, os Porcos do Desconforto e da Luta Acérrima
por Pão e Dignidade, rasgada a cortina Matrix com que afinal Tudo nos Mente.
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Os meus amigos, vizinhos e conhecidos, afinal casam e não me dizem nada.
Os meus conhecidos, vizinhos e amigos, afinal têm planos muito honestos e cumprem-nos
e vão todos aos aniversários e casamentos uns dos outros sem mim
e afinal são mais amigos uns dos outros e mais sensíveis uns com os outros que eu com eles,
que não vou a casamentos nem a aniversários porque não sei ou não posso ou me esqueço.
E ignoram informar-me, e preferem ofertar-me com a sensação de que lhes morri.
Ah, então é isso?, estou-lhes morto?!
E não poderia jamais escrever o que penso sem que lhes morresse?
E não poderia afinal dizer abertamente que acredito em Cristo-Deus
sem que lhes morresse?
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Pois então já me lhes fizeram o funeral e nem para ele me convidaram?
Não é justo. Na verdade, isso não é nada aceitável.
Não deixarei de me queixar à Entidade Reguladora Amizade da Boca para Fora,
e à Comissão de Farra e Convívio Natural entre gente que mutuamente se viu o cu.
Vou mandar vir a ASAE inspeccionar essas instalações venosas e canalizações
coronárias com muito mau hálito e preocupante colestrol espiritual.
Então eu aqui, muito sozinho, ignorado e cuspido, sem saber de casamentos,
e vós, aí, afinal a murmurar de mim e a tecer exclusões cirúrgicas e silêncios sornas?!
E querem que eu vos perdoe essas habilidades sabiamente engendradas?
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Francamente, amigos, vizinhos e conhecidos, não vos explicaram que murmurar é feio?
Murmurar é como influenciar à boca das urnas. Vício filho da puta!

sábado, junho 28, 2008

ECONOMIA SOB PALPAÇÃO RECTAL...



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MARIA DO SAMEIRO BARROSO
in CASSANDRA — VOX FEMINA TRAGICA III
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Sob palpação rectal... E sinais de grande ardor e imaginação posicional
rumo a um putativo paroxismo universalmente funesto,
como analisa o meu amigo David Oliveira, ele, como eu,
na divina função vã de Cassandra dos ensonados Troiano-Lusitanos:
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«A “coisa” vai animada. Tanto mais animada
que as “centúrias” dos optimistas e mais ainda os “centuriões”
(não fossem eles os chefes) [sempre indignados, a verberar,
a cortar cabeças às “Cassandras” que, dizem-no frequentemente,
“puxam” tudo isto para baixo] já devem ter ido para férias.
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Férias lá fora. Ir para fora cá dentro, vamos nós.
A realidade que nos vai amargurando a todos
também se encarrega de, dia após dia, os desmentir,
mandando-os à merda e aos seus refluxos orais.
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Em Espanha, o valor da inflação anual homóloga,

em «consecuencia del alza de crudo y los alimentos,
y ha subido cuatro décimas, hasta el 5,1%».
O comportamento da nossa,
apesar da submissão exactamente a valores subjacentes similares,
mantém-se heroicamente em 3,1%.
É em coisas destas que, por vezes, somos absolutamente extraordinários.
Por cá, apesar de tudo aquilo e mais o que só a nós respeita,
a inflação mantém-se nos 3,1%. Extraordinário!
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Soube-se hoje que o crescimento do PIB do Reino Unido, no primeiro trimestre,

foi de apenas 0,3%. Nós, o que é extraordinário, crescemos o triplo.
O triplo! Extraordinário!
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A 19 deste mês escrevi: «Com guerras ou sem guerras?
Se é com..., acredito; se é sem..., não acredito»
ao ler que «agências e bancos avisam para a possibilidade
de o petróleo chegar a cotações em torno dos 250 dólares»
opinião essa que não tenho (nove dias passados) qualquer problema em reescrever,
mesmo corrigindo aquele prognóstico para 200 dólares.
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Venha então um “professor” explicar-me
como é que o sistema económico absorveria um impacto de custos directos e indirectos
desta amplitude sem colocar em causa todos (mas todos)
os pressupostos económico-financeiros e/ou, mais tragicamente,
sem que se assistisse ao eclodir de levantamentos e insurreições de âmbito continental.»
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that i would be good

"That I Would Be Good"

that I would be good even if I did nothing
that I would be good even if I got the thumbs down
that I would be good if I got and stayed sick
that I would be good even if I gained ten pounds

that I would be fine even if I went bankrupt
that I would be good if I lost my hair and my youth
that I would be great if I was no longer queen
that I would be grand if I was not all knowing

that I would be loved even when I numb myself
that I would be good even when I am overwhelmed
that I would be loved even when I was fuming
that I would be good even if I was clingy

that I would be good even if I lost sanity
that I would be good
whether with or without you

sexta-feira, junho 27, 2008

DESPORREIRIZAÇÃO ACELERADA DO PÁ


Ok, concedamos que nem toda a gente anda no seu perfeito juízo,
que andar teso o tempo todo pode fazer um mal tremendo aos miolos dos portugueses,
que viajar demasiado na maionese ou de avião talvez desconstrua os neurónios
e reposicione a massa cinzenta de muita gente, diminuindo-lhe o equilíbrio.
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Concedamos que a conflitualidade instalada na sociedade portuguesa é mau sinal,
mas imparável e inevitável, e que esta nova crispação, esta bebedeira de cansaços,
de desesperos infinitos, impensáveis, mesmo para quem se pensava a salvo de tragédias,
de despedimentos, de falências e de todas as formas e feitios de desgraça
não é, claramente, boa conselheira. Concedamos.
Porém, admitamos também que este guitarrista reformado da vida activa de formiguinha laboriosa emigrante, que tenho diante de mim e é cliente do Pub, lá sabe do que fala:
«Na próxima segunda-feira, tenho de ir ao Fisco justificar uma aplicação
de duzentos mil euros. Sabe como é que a vou justificar?
Vou justificá-la na puta que os pariu. Foi um dinheiro suado na emigração,
ganho fora deste País, aplicação que eu até estou a pôr cá. Cabrões!»
lkj
Se este guitarrista reformado da emigração na Suíça, que tenho diante de mim,
de repente coincide comigo, ao primeiro olhar e às primeiras palavras trocadas,
numa sintonia diagnóstica disto absolutamente cristalina;
se desata a dizer-me, de olhos muito arregalados e a brilhar muito,
tal como lhe reluz o seu bigode grisalho do azeite dos tremoços com azeitonas,
que Álvaro Cunhal já avisara sobre o outro lado do Betão Cavaquiano, o lado negro,
ou seja, a miséria presente, a fome que chegou e vai ficar;
se me diz que se sente perseguido por causa destas verdades
que tem andado a pregar no Deserto por todo lado, na Pátria da Língua, pela Diáspora,
verdades da tragédia portuguesa em que ninguém desatentamente ousa pensar,
e se admiravelmente me diz que o Povo Português está encurralado,
entalado por todos os lados, porque em Portugal tudo é Cartel
e é fartar-vilanagem por isso mesmo
na hora de assaltar os bolsos de todas as pessoas
cada vez mais idosas e mais desprevenidas,
Povo entalado de Refém, entalado de Impotência mesmo,
entalado no preço da luz,
entalado no preço da água,
entalado no preço do gás,
entalado no preço do pão,
entalado no preço dos combustíveis,
no crédito sem futuro para a compra de casa pelo qual se passa fome
pelas indevidas indexações à Taxa filha da puta Euribor,
uma invenção muito portuguesa e bem maligna para foder infinitamente as pessoas,
e em Portugal ter casa é empresa que sempre malogra
e tarde ou cedo desgraça oitenta por cento da população autóctone,
que acaba a viver com o papá ou a mamã ou com ambos,
um Povo entalado na desactivação paulatina da Indústria,
ou atirado ao desemprego pela sua obsolescência,
um Povo entalado na fatalidade da baixa produção
e na falácia do bem-estar inexistente porque decrescente e cadente e evaporescente,
entalado na transformação do País num país de Bens e Serviços,
entalado no excesso de estradas para cada vez menos automóveis
e cada vez mais pesadas e esdrúxulas portagens,
entalado na fome que cresce,
no dinheiro que falta,
na miséria que aumenta,
no Fisco que oprime, humilha e persegue, com aqueles processos e aquelas cartas sonsas
a envegonhar-nos de penhoras cabras enviadas para onde já não trabalhámos há anos,
Fisco que nos oprime, nos humilha e nos persegue,
a nós, que já há imenso tempo não podemos levantar-nos,
entalados na injustiça que Grassa e Carraça toda a gente,
se tudo o homem me vem listar tudo isso,
eu pergunto-me se há algum defeito de perspectiva no guitarrista que tenho diante de mim,
um homem que tem sessenta e tal anos,
que viaja por todo o mundo da emigração portuguesa, Austrália, Turquia, Japão,
que só vê o Povo alheado do importante dentro e fora de portas
a falar de merdas sem importância absolutamente nenhuma,
a tatuagem parola no ventre do Figo logo por cima da sua bexiga e banha natural,
as cuecas de lycra do Ronaldo,
gente que não pega num livro,
que não lê um jornal,
que não reflecte nos motivos por que a enrabam nem a eles reage caso os detecte,
gente que é de uma aselhice proverbial, incurável, jumentícia,
a encher aviões de estupidez e ridícula grunhice,
no apoio às tretas gloriosas de ar e vento da bola que lhe vendem,
a empurra autocarros de asnos,
a viver para dar o penso ao BMW ou ao Audi, a passar fome por causa de um automóvel,
gente que encolhe os ombros, enquanto a Pátria está a saque,
retalhada aos bocados: uma parte para os Soares,
outra parte para os Champalimaud, outra para o Jardim Gonçalves,
outra para os Cavaco Silva,
outra para a Maçonaria, outra para Américo Amorim,
outra para Belmiro de Azevedo,
e merda para o Povo, merda e tretas para as pessoas,
vida à rasca para muitos e por muitos e bons anos, bem podem desunhar-se,
se o guitarrista me diz tudo isto,
não pode estar inteiramente bem nem inteiramente mal!
Está simplesmente Além toda a gente a dormir.
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Há, portanto, que concluir que a Guerra do Ultramar não danificou as cablagens
ao guitarrista, que ter trabalhado cinquenta horas durante trinta e cinco anos na Suíça
não lhe danificou a lucidez e a sanidade mínima de guitarrista
e que ser guitarrista e em colóquios e palestas activista denunciador de esta merda
que está consumada e nos tinge de vergonha,
porque escrita a castelhano, a francês, a inglês,
relatórios que nos estigmatizam de Fracasso e de Fraude Monstruosa:
Portugal é um exemplo de Nojeira Social, de retrocesso galopante,
de obediência acéfala a Bruxelas, de péssima negociação dos dossiês comunitários,
de má Gestão de recursos humanos, de Desperdício de Fundos Comunitários,
de desprezo deliberado pelas pessoas, pelos cidadãos, pela Nação,
é, afinal, sinal de suficiente sanidade e boa ou excelente forma.
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Por isso, é com grande alegria e convicção que me conclui o seu discurso afiado:
«Eu aqui, neste País, sou da classe média-alta,
mas quando estou lá fora, em Espanha, França ou qualquer outra Europa,
sinto-me pequenino, miserável.»
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Esta desporreirização do pá vai imparável porque a nudez-de-rei
da classe política com acesso à governação há mais de um quarto de século
alastra aos olhos de todos como a mancha-nódoa de óleo
prolongada e imperdoável traição às nossas gentes, classe política lesa-Nação!
Em suma, PS e PSD foram e são uma só coisa nefasta para todos!
Estão dispensados de reincidir!

quinta-feira, junho 26, 2008

POEMA UNICÓRNIO


Porque as gaivotas voaram baixo, afagando-nos o olhar em bando
justamente enquanto, mudos, passávamos de carro os quatro,
guarda de honra grasnante emplumada, piante e rumorosa,
ao fruto do teu ventre, nosso ente-outra-filha, aí dentro, nossa,
Segregada Semente da Eternidade Entrando no Tempo,
precedida da Divina Vontade,
estou sereno.
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E porque a névoa neblinava-nos defronte uma Foz Alva,
promessa de Poentes Douro,
e porque as nossas Noites têm brisa, frescura, odor a pinho,
a limonete e rosmaninho,
luas silentes embebidas em silêncio ascendentes,
por isso mesmo é que sou feliz e, falso sisudo,
aponto bem alto estas asas de Pégaso,
crina ao vento de Unicórnio insubmisso.
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E escuta, Mulher: não há Mortos! Não há Morte!
Nascer ou Morrer é franquear somente a Porta do Tempo,
estagiar, na pele morna, a quentura eterna dos afectos,
dar-se ao capricho de respirar, alojar a Saudade e o Amor,
e depois Passar, Sair, que o Caminho não é Destino.
Verbero a soberba e acúmulo dos Ricos? Verbero!
Porque Partilha é que é Projecto, grão de Mostarda
arvorado, sinal do Tal Reino a Procurar Primeiro.

PORTUGAL DE MIERDA, SEGUNDO ESPANHA


Porque este País não é para Portugueses.
Porque, está visto, os Portugueses estão a mais em Portugal.
Porque Portugal, afinal, só está tragável, os restos dele, vá!,
para Filhos da Puta Profissionais.
Este País não é para Portugueses!
Acreditem que não é. Está na hora de vir um Grupo de Sábios Suecos governar Portugal,
ou um Grupo de Sábios Irlandeses, ou um Grupo de Sábios Gregos,
depor e humilhar os Fracos do Caralho que nos têm desgovernado.
Nem boa Governança nem Governança nenhuma
pode esperar-se do Político Português, salvo a excepção anónima e desconhecida.
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Se forem os mesmos políticos portugueses a governarem a Res Publica Portuguesa,
eles e as suas clientelas de sempre com mais vidas que gatos,
eles e o seu séquito de apoiantes pagadores e devedores de favores,
eles e o seu sistema de favorecimentos obscenos a quem já foi hiperfavorecido,
eles e a sua panaceia de nos empobrecer sádica e impiedosamente a nós,
ex-Classe Média e Pequenos do Povo,
então estaremos ainda mais fodidos, ainda mais miseráveis,
ainda mais para trás, ainda mais subdesenvolvidos,
ainda mais decadentes, ainda mais Titanic desMoralizados,
ainda mais demográfico-desaparecentes,
ainda mais eternos emigrantes, ainda mais planetário-inexistentes,
somente a masturbar ciclicamente Futebóis de Oco, Pauis de Estrelato da Piça,
somente a tresandar a merda, a essa vaidade tão a frio, tão de zero feita e de nada,
somente um cu colectivo vergonhoso português por limpar:
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LISBOA, 21 sep (IPS)
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«Indicadores económicos y sociales periódicamente divulgados
por la Unión Europea (UE) colocan a Portugal en niveles de pobreza
e injusticia social inadmisibles para un país que integra desde 1986
el 'club de los ricos' del continente. Pero el golpe de gracia lo dio la evaluación de la Organización para la Cooperación y el Desarrollo Económicos (OCDE):
en los próximos años Portugal se distanciará aún más de los países avanzados.
La productividad más baja de la UE, la escasa innovación
y vitalidad del sector empresarial, educación y formación profesional deficientes,
mal uso de fondos públicos, con gastos excesivos y resultados magros
son los datos señalados por el informe anual sobre Portugal de la OCDE,
que reúne a 30 países industriales.
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A diferencia de España, Grecia e Irlanda
(que hicieron también parte del 'grupo de los pobres' de la UE),
Portugal no supo aprovechar para su desarrollo los cuantiosos fondos comunitarios que fluyeron sin cesar desde Bruselas durante casi dos décadas, coinciden analistas políticos y económicos.
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En 1986, Madrid y Lisboa ingresaron a la entonces Comunidad Económica Europea
con índices similares de desarrollo relativo,
y sólo una década atrás, Portugal ocupaba un lugar superior al de Grecia e Irlanda
en el ranking de la UE. Pero en 2001, fue cómodamente superado por esos dos países, mientras España ya se ubica a poca distancia del promedio del bloque.
'La convergencia de la economía portuguesa con las más avanzadas de la OCE
pareció detenerse en los últimos años,
dejando una brecha significativa en los ingresos por persona',
afirma la organización. En el sector privado,
'los bienes de capital no siempre se utilizan o se ubican com eficacia
y las nuevas tecnologías no son rapidamente adoptadas',
afirma la OCDE.
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'La fuerza laboral portuguesa cuenta con menos educación formal
que los trabajadores de otros países de la UE,
inclusive los de los nuevos miembros de Europa central y oriental',
señala el documento.Todos los análisis sobre las cifras invertidas
coinciden en que el problema central no está en los montos,
sino en los métodos para distribuirlos.
Portugal gasta más que la gran mayoría de los países de la UE
en remuneración de empleados públicos respecto de su producto interno bruto,
pero no logra mejorar significativamente la calidad y eficiencia de los servicios.
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Con más profesores por cantidad de alumnos
que la mayor parte de los miembros de la OCDE,
tampoco consigue dar una educación y formación profesional competitivas
com el resto de los países industrializados.
En los últimos 18 años, Portugal fue el país que recibió más beneficios por habitante
en asistencia comunitaria. Sin embargo, trás nueve años de acercarse
a los niveles de la UE, en 1995 comenzó a caer y las perspectivas hoy indican mayor distancia. Dónde fueron a parar los fondos comunitarios?, es la pregunta insistente en debates televisados y en columnas de opinión de los principales periódicos del país.
lkj
La respuesta más frecuente es que el dinero
engordó la billetera de quienes ya tenían más.
Los números indican que Portugal es el país de la UE con mayor desigualdad social
y con los salarios mínimos y medios más bajos del bloque,
al menos hasta el 1 de mayo, cuando éste se amplió de 15 a 25 naciones.
También es el país del bloque en el que los administradores de empresas públicas
tienen los sueldos más altos.
lkj
El argumento más frecuente de los ejecutivos indica
que 'el mercado decide los salarios'. Consultado por IPS,
el ex ministro de Obras Públicas (1995-2002) y actual diputado socialista
João Cravinho desmintió esta teoría.
'Son los propios administradores quienes fijan sus salarios,
cargando las culpas al mercado', dijo.
En las empresas privadas con participación estatal
o en las estatales con accionistas minoritarios privados,
'los ejecutivos fijan sus sueldos astronómicos
(algunos llegan a los 90.000 dólares mensuales,
incluyendo bonos y regalías) con la complicidad de los accionistas de referencia',
explicó Cravinho.
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Estos mismos grandes accionistas, 'son a la vez altos ejecutivos,
y todo este sistema, en el fondo,
es en desmedro del pequeño accionista,
que ve como una gruesa tajada de los lucros va a parar
a cuentas bancarias de los directivos', lamentó el ex ministro.
La crisis económica que estancó el crecimiento portugués en los últimos dos años
'está siendo pagada por las clases menos favorecidas', dijo.
lkj
Esta situación de desigualdad aflora cada día con los ejemplos más variados.
El último es el de la crisis del sector automotriz.
Los comerciantes se quejan de una caída de casi 20 por ciento
en las ventas de automóviles de baja cilindrada,
con precios de entre 15.000 y 20.000 dólares.
Pero los representantes de marcas de lujo
como Ferrari, Porsche, Lamborghini, Maserati y Lotus
(vehículos que valen más de 200.000 dólares),
lamentan no dar abasto a todos los pedidos,
ante un aumento de 36 por ciento en la demanda.
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Estudios sobre la tradicional industria textil lusa,
que fue una de las más modernas y de más calidad del mundo,
demuestran su estancamiento,
pues sus empresários no realizaron los necesarios ajustes para actualizarla.
Pero la zona norte donde se concentra el sector textil,
tiene más autos Ferrari por metro cuadrado que Italia.
Un ejecutivo español de la informática,
Javier Felipe, dijo a IPS que según su experiencia con empresarios portugueses,
éstos 'están más interesados en la imagen que proyectan
que en el resultado de su trabajo'.
LKJlkj
Para muchos 'es más importante el automóvil que conducen,
el tipo de tarjeta de crédito que pueden lucir al pagar una cuenta
o el modelo del teléfono celular, que la eficiencia de su gestión', dijo Felipe,
aclarando que hay excepciones.Todo esto va modelando una mentalidad que,
a fin de cuentas, afecta al desarrollo de un país', opinó.
LKJ
La evasión fiscal impune es otro aspecto que ha castrado inversiones
del sector público con potenciales efectos positivos
en la superación de la crisis económica y el desempleo,
que este año llegó a 7,3 por ciento de la población económicamente activa.
Los únicos contribuyentes a cabalidad de las arcas del Estado
son los trabajadores contratados,
que descuentan en la fuente laboral.
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En los últimos dos años,
el gobierno decidió cargar la mano fiscal sobre esas cabezas,
manteniendo situaciones 'obscenas' y 'escandalosas',
según el economista y comentarista de televisión Antonio Pérez Metello.
'En lugar de anunciar progresos en la recuperación de los impuestos
de aquellos que continúan riéndose en la cara del fisco,
el gobierno (conservador) decide sacar una tajada aun mayor
de esos que ya pagan lo que es debido,
y deja incólume la nebulosa de los fugitivos fiscales,
sin coherencia ideológica, sin visión de futuro',
critico Metello.
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La prueba está explicada en una columna de opinión de José Vítor Malheiros,
aparecida este martes en el diario Público de Lisboa,
que fustiga la falta de honestidad en la declaración de impuestos
de los lamados profesionales liberales.
Según esos documentos entregados al fisco,
médicos y dentistas declararon ingresos anuales promedio de 17.680 euros
(21.750 dólares), los abogados de 10.864 (13.365 dólares),
los arquitectos de 9.277 (11.410 dólares)
y los ingenieros de 8.382 (10.310 dólares).
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Estos números indican que por cada seis euros que pagan al fisco,
'le roban nueve a la comunidad',
pues estos profesionales no dependientes deberían contribuir con 15 por ciento
del total del impuesto al ingreso por trabajo singular y sólo tributan seis por ciento,
dijo Malheiros.
lkj
Con la devolución de impuestos al cerrar un ejercicio fiscal,
éstos 'roban más de lo que pagan,
como si un carnicero nos vendiese 400 gramos de bife
y nos hiciese pagar un kilogramo, y existen 180.000 de estos profesionales liberales que,
en promedio, nos roban 600 gramos por kilo',
comentó con sarcasmo.
lkj
Si un país 'permite que un profesional liberal con dos casas y dos automóviles de lujo
declare ingresos de 600 euros (738 dólares) por mes,
año tras año, sin ser cuestionado en lo más mínimo por el fisco,
y encima recibe un subsidio del Estado para ayudar a pagar el colégio privado
de sus hijos, significa que el sistema no tiene ninguna moralidad', sentenció.»
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Bem-vindos, portanto, Portugueses a Portugal,
País das bandeiras à janela,
País da Justiça Social inexistente e estragada,
com um Sistema Fiscal Imoral,
com uma Política de Salários Imoral,
com uma Vida Política e Civica Imoral.
Este País não é para Portugueses.

quarta-feira, junho 25, 2008

Anne Akiko Meyers in concert : Saint-Saens - Violin

O LADO NEGRO DA FORÇA


óbitos que resistem o mais que podem.
Mas são óbitos!

VALE E AZEVEDO, O HOMEM BIOMBO


De João Vale e Azevedo diz-se tudo,
que é aquele advogado aldrabão que pilhou o património do Benfica,
que agora vive em Londres, no luxuoso bairro de Knights Bridge,
numa casa de 15 milhões de euros,
que circula num Bentley no valor de 380 mil euros,
conduzido por um motorista argelino a quem paga quatro mil euros mensais,
que em Portugal tem uma pena de 8 anos de cadeia por cumprir
e que sobre ele pende, aparentemente,
um mandado de captura internacional.
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Sim, pode-se dizer tudo, acusá-lo de tudo, na psique de um País inteiro
é réu culposo de todas as acusações
de que se quiser falar. Seja! O que me preocupa é que ele apareça tão o Único aí.
O que me enoja é que ele seja tão noticiável, tão singular na corrupção e na aldrabice
que, despertando a inveja e o ressentimento de toda a gente, na verdade faça esquecer
o Grosso do Problema em Portugal e sirva de manobra de diversão
enquanto o Problema se mantém intocável e se agudiza em Portugal.
lkj
E os outros, caralho? O Parlamento e o Governo,
com tanto poderzinho exercido sobre os fracos dos fracos da nossa
Sociedade de Desempregados e Ca.,
quanto ao combate à corrupção e ao enriquecimento ilícito fez o quê?
Constituiu mais uma Comissão, a Comissão de Prevenção da Corrupção, CPC,
segundo o P-G, Pinto Monteiro, demasiado governamentalizada:
filhos da puta, todos eles, que andam, nesta matéria, com a escapatória das comissões,
às arrecuas, a fazer que fazem, a fingir que resolvem,
porque sabem que são precisa e consabidamente os seus
os reais mamões, os veros aproveitadores dos recursos do Estado
e das oportunidades negociais por abuso de posição,
tendo pela frente um povo plácido de mais para se revoltar
e castigar exemplarmente estes malditos cabrões sebosos apodrecidos
a vampirar-nos sem dó nem piedade há trinta e quatro anos,
há trinta e quatro anos a governar-se bem nas nossas costas.
lkj
Por isso, ao ver Vale e Azevedo novamente notícia, foda-se!, que cansaço!,
novamente notícia, novamente notícia, reparem bem, notícia!,
penso no quanto se pretende que com uma notícia, uma andorinha, um caso sonante,
se esconda (traia e distraia toda a gente) o Grande Cerne do Problema.
lkj
Londres por Londres,
temos lá um corrupto, já preso e já condenado,
mas temos lá também um Ideólogo da Caça ao Corrupto:
o exilado dourado Engenheiro João Cravinho, na sua sinecura burocrata europeia.
Portanto, puta que os pariu lá, em Lisboa, a Grande Meretriz, ao Poder-que-está
e aos seus Jornalistas-Editorialistas da Lealdade Canina,
pagos, osso a osso, para obliterarem a Verdade,
para anestesiarem de alienação e de conformismo quase toda a gente!

segunda-feira, junho 23, 2008

JOCIARA, A SEQUESTRADA


Sob um conjunto de olhares mais que reprovativos, vertidos como ácido
oblíquo sobre a figura excêntrica da prostituta de alterne Jociara,
afinal sempre só, numa solidão de ostracismo feita, muralha de exclusão,
vestida a rosa pomposo, saia de folhos rosa, os ombros nus, o sorriso triste,
novamente fui um seu atento e solícito ouvinte. Aproximei-me e perguntei
pelo seu divórcio. Disse-me que estava em bom caminho.
E nunca mais parou de narrar-se.
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Desfiou-me, como das outras vezes, a história da sua vida acrescentando ao puzzle
outras informações que vão completando um quadro natural de gente de carne e osso
mas sem a linearidade dúbia da gente de bem
cujos estímulos e pretextos para serem do mal e do piorio
nunca estão demasiado longe, nunca estão à desamão, como talvez se pense.
A morte prematura da mãe aos trinta e cinco anos, de ataque cardíaco,
deserdada por causa da ligação a um homem pobre com quem casou à revelia,
a odiosa avó noventina e imortal, portuguesa do café, das jóias, do infinito dinheiro:
«A puta da velha nunca mais morre para ter o castigo que merece
pelo desgosto que causou à minha mamãe
uma das idosas de uma das famílias mais ricas do estado brasileiro de onde provém,
e o seu recente sequestro, com violação, furto de jóias e outros bens à mistura,
eis o conjunto de tópicos que a recobrem autobiograficamente:
«No dia em que a velha nojenta morrer, velha maldita!,
vou fazer uma festa, vou tomar um porre.»
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O Pub não é para mim fonte de tortura pelo florescimento de instintos decadentes e negativos.
O que porventura me negativiza e instila revolta, por vezes, é tardar em ser pago
e é sentir a pressão da necessidade, tudo aliado ao notório e ostentatório alheamento
social por parte de la crème de la crème da alta sociedade da Invicta,
essa, sim, muito falhenta de sensibilidade,
por vezes insuportavelmente altiva e despreziva, é a mais pura verdade!,
dos que socialmente vê por baixo, ao lado, bem à mercê da sola dos seus pés.
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É o caso de um velho putanheiro a quem, por lapso, por uma única vez,
dirigi uma palavra desalinhada de acolhimento enquanto lhe entregava o cartão:
«Olá, boa noite, desde ontem.» Passa o velho. Passa a amante sempre sorridente.
Saíu-me. Arrependi-me porque o velho vem sozinho ao Pub numa noite,
dança com A, dança com B, abandona o Pub com C e, depois, na noite seguinte,
afinal vem com Y, dança a noite inteira com Y, Y, dançarina loura exuberante, feliz,
parece ser então o sol eclipsador de todas as demais Letras do velho.
lkj
A brincar, a brincar, Y é somente a Amante Alfa do velho dentro
da complexa gestão do amor, da hierarquia e da fidelidade nestas coisas muito dele.
Portanto, denunciar o «desde ontem» poderia até comprometer a paz da ligação do velho à Y.
«Então que foi aquilo, 'desde ontem'...?» Veio depois a sós discreto repreender-me.
Atalhei-lhe o sermão. Compreendi o inconveniente. Reconheci que fora um erro,
que percebera de imediato o meu engano. Desculpas e não voltaria a suceder.
Calou. Sorriu. Reentrou. Não fora grave. Tudo lhe estava sob o mais estrito controlo.
lkj
Este velho, rígido enquanto dança, tem traços dos meus antepassados,
os olhos claros, a testa alta, ampla, o cabelo ondulado do meu avô paterno,
lembra-mo muito, com o seu cabelo ruivo nórdico mas ao mesmo tempo morfologicamente áfrico,
lembra-me os imensos irmãos do meu avô, traços iguais,
completos paradoxos genéticos e síntese de contrários, após séculos de Morgadio.
Mas, até ver, este homem, que é obviamente muito rico e obviamente muito rijo,
é um seco, um espírito Fidalgo de Auto vicentino.
lkj
A prová-lo, há largos meses, numa noite de maus fígados,
talvez bebido e ainda mais insuflado da mania de se pensar gente mais que os demais,
quisera pagar a parca despesa com uma gorda nota de quinhentos euros,
ali estivera, ao balcão, especado, impaciente, antipático,
a flanar com ela, a rubra nota de quinhentos euros, como uma bandeirinha de estatuto,
rei ostensivo do ter dinheiro. E, já lá vão meses, nunca por nunca uma moeda de vinte cêntimos
soube ser capaz de me deixar na mão, cá ao Licenciado e Pós-Graduado das Faculdades,
cá ao exilado da Educação, cá ao sobrevivente na borrasca devastadora
da PseudoReforma do Ensino que me desmobiliza a fé e me desmoraliza e me inutiliza
as competências adquiridas, as qualidades pedagógicas naturais,
e me inutiliza a experiência sedimentada e a boa-fé na tarefa educativa.
Pois não é o único que assim procede.
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Gente ali há que tem fortunas colossais, centenas de milhares de euros a fermentar-lhes
nos bolsos, o poder de jogar e brincar com os Bancos
sempre de joelhos por que permaneçam aqueles com as suas imprescidíveis contas,
euros de que nunca fruirão nesta vida, e no entanto sem quaisquer gestitos generosos,
depois de meses de sorrisos de acolhimento e palavras amistosas trocadas,
depois de tanto tempo a verem-me ali, de pé, numa crucificação da paciência,
penando Noite após Noite, observando-os, cilada do meu olhar escrevente,
estudando-os, emboscada do meu espírito escrevente. Nem um só gesto,
vinagre embebido em esponja que me anestesie da Pena. Nada!
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Ora, Jociara, no meio de tudo isto e de todos estes, pelo menos graceja a sua vida
e tem motivos para mofar de todo este elitismo da treta que pára no Pub.
Puta batida,
conhece bem a clientela cara que a presenteia com jóias,
com bebidas caras e outras dádivas, toda a espécie de presentes caros,
sinais de gratidão por pele na pele, por explosivo esperma em dói sustenido
impossível de sustener, adentro a artística boca dela, que sabe requintar o dar-se,
dela, que regurgita o álcool do alterne, mas também todos os espermas chiques,
dela, que se limpa deles no cu-ânus sindical, na cona laboral.
lkj
Matéria de jornais e de rigorosa investigação polícial
foi o seu rapto. Um evento aflitivo de seis horas, contou-me.
Desde a arma subitamente apontada na rua,
a entrada forçada no carro raptor, o embrenharem-se no matagal,
a arma apontada à cabeça, engatilhada já,
depois o roubo do ouro e jóias que tinha sobre o corpo,
depois a negociação inspirada e salvadora com que, pensando perto a morte,
convenceu o raptor de outros, muitos outros bens, que tinha em casa.
Depois a viagem até à cidade e a esperança que teve
de encontrar um só polícia que fosse nas ruas e, grande azar, nem um.
Depois, a entrada em casa, a violação a pleno gás,
depois as unhas com que se defendeu, que lhe cravou no rosto e lacerou as costas.
Depois o quanto lhe resistiu, resistindo,
unhando e rasgando, chutando e pisando, gemendo e gritando.
Depois a penetração que lhe rompe a resistência.
Depois a frescura do esperma agreste a inundá-la,
aquela corrida que se detém tão cedo da cavalgada iniciada, refolegante,
depois uma aflição que se acalma.
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Depois os vestígios, as dedadas, as impressões por ela nele deixadas.
que ulteriormente a Polícia Técnica utilizou com proveito da Acusação.
O sequestrador está preso. Ao trauma revive-o continuamente.
Jociara termina o cigarro. Volta para dentro.
Dança só. Encontra alguém que a reconhece.
Dançam. Nada lhe agrada. Ninguém a preenche.
Nada a contenta, a ela e ao seu sorriso triste e cabisbaixo.
Volta para fora e desabafa-me de raspão:
«Às vezes encontramos gente que não queremos encontrar!»
Chama o táxi de sempre. Parte disparada.
Jociara é o segredo ubíquo da Vida-Limbo, tão ubíquo como a Noite.
E evola-se tão sem perfume, tão sem ruído, como se não fosse ninguém:
apenas o espectro flutuante de uma Dor que sorri.

domingo, junho 22, 2008

RUI RIO, O CSI DE SERVIÇO DA CRISE PROFUNDA


O PSD aparece agora retocado e credível graças ao photoshop discursivo
de um conjunto repetido de cromos, onde se dissolve
mesmo um espírito independente como o de Paulo Rangel,
cujo tesão argumentário e contundência parlamentar têm sido meritórios,
embora escondidos pelos ciumentos pardos do costume,
umas vezes com tosse outras vezes com gripe a eclipsar-lhes o Ego.
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E Rui Rio protagonizou, discursando, a mais comovente autópsia
do Estado decadente da Nação por causa da putrefacção descredibilizada do Regime.
Caramba, esta gente, de vez em quando existe, ousa,
acorda e diz coisas! De vez em quando aparece e tem discursos de grande acuidade!
Um indivíduo comove-se ao notar que, por fim, a crise profunda do Regime,
chamado erroneamente democrático, aparece bisturizada
pela boca de um Político rigoroso e realista,
como o Rui Rio autarca, um Político da charneira alternadeira do Poder,
portanto em posição privilegiada para saber do que fala e o que quer.
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Um tipo comove-se com a ideia de que os Políticos já ousam ir suficientemente longe
para declarar abertamente que o Estado Português está pervertido,
ajoelhado para não dizer arabicamente prostrado,
subordinado à sofreguidão delapidatória dos interesses,
e que o Povo, a Gente, as Pessoas, estão alijadas do cerne das preocupações do Estado,
que ele vai nu e inconsistente, que ele sucumbe ao poderio glutão dos Grupos, Lóbis, Cartéis,
cujos conhecidos porta-vozes, cínicos horrorosos, bajuladores profissionais,
insuportáveis na sua altivez, suficiência bem paga,
e alheamento silencioso e teórico-gramsciano do que realmente se passa
têm como dois ícones canoros o incomparável pavão bajulador de Sócrates,
Júdice, essa espécie de Fausto, e Vital Moreira, esse papagaio exemplar hybrido
entre a eterna concordância ou anuência ao absurdo Dupond e Dupont.
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Vejo a Monarquia como cada vez mais a única via para remoralizar profundamente um Povo
separado da sua História e lançado ao vazio por estas péssimas lideranças prostitutas.
As contorcionísticas estatísticas da Maria de Lurdes Rodrigues
resumem Medusa tudo o que nos petrifica de falso, prótese, postiço, pechisbeque.
A restauração da Democracia como Responsabilização Real de Decisores
e a restauração da Verdade enquanto linguagem permanente na boca dos Políticos
pode ser que já cheguem tarde de mais porque a nossos olhos
os Políticos do Poder gravitam-moscas-obscenas o Insuportável.

sexta-feira, junho 20, 2008

BANANEN REPUBLIK OU MASOQUISMO APAZIGUADO


Naturalmente, o meu patíbulo laboral, o Pub, esteve às moscas, esta noite,
na ressaca de um resultado frango de mais para as melhores das expectativas
de muitos. Quase ninguém apareceu. A festa e a alegria engatilhadas
não puderam deflagrar. Só estoirou seca uma espécie de deprimência cor de chumbo
e uma espécie de lassidão semelhante à lassidão pós-coito
quando o coito prometeu mais do que deu e por isso desconsolou.
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E eu, que pura e simplesmente não tenho tido a mais pequena
paciência com entusiasmos pueris a propósito de futebol e passo completamente ao lado
dessas conversas pelas quais tesos e gente sem lugar no cemitério
tanto se apaixonam e às tantas matam e enforcam por amor-corno de um argumento,
eu não escapei de escutar o paleio mais previsível e cansativo do Cosmos nessa matéria.
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Tive quanto a isso um convicto esgar desprezivo.
Também por lá se falou de África perdida por isto e aquilo, assim ou assado.
Ouvi. Guardei. África é uma questão ao rubro na psique detroçada de um povo
sem-nunca-mais-el-rei-D. João II. D. Sebastião, morrendo, efeminou-nos para nunca mais!
Cêntimo a cêntimo sobrevivo e só assim posso viver: nada mais me pode importar.
Que se foda tudo o mais! O futebol, as conferências de imprensa,
as politiquices de última hora, os interesses sôfregos, as traições mediáticas,
as desconcentrações por traição mediática, os chupas-chupas e a boa disposição-da-piça,
as conspirações e as tricas, os perus e as avestruzes resultantes da fragilidade de carácter,
tudo isso merece-me o mais amarelo dos sorrisos amarelos e cínicos.
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E foram poucos lá, no Pub, e mesmo esses poucos,
tristes, murchos, magoados, flagelados de tédio.
Já sabia que por trás das recentes apoteoses em terras suíças dos emigra-nacionais
em torno dos rapazes dos penteados criativos, que por acaso também chutam à bola
e agora também já sabem acenar às pessoas que, babantes de acefalia, lhes acenam,
acenos meios nazi, como os que Bush lhes foi ensinando,
já sabia que havia outra coisa misteriosa nesse simpático povo manso irredutível nas estradas:
uma vontade de sofrer, um gosto de sofrer,
um prazer intenso sofredor de elevar o mais alto possível o sofrível sonho
para depois cair dele com mais fragor e dano ao estatelar-se.
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Por isso, assisti a essas mesmas apoteoses clássicas de Reis regressando da batalha
antes mesmo de a terem travado, enrouquecidas por uma corte de jornalistas
competentes a falar eufóricos desta espécie de antimatéria, 'o futebol', a 'selecção'.
Por isso, rocei televisivamente nessas apoteoses com um encolher de ombros alheio,
promovidas pelos Media e alimentadas por essas multidões emigradas,
roubadas e apertadas dia a dia por lá e incomparavelmente pior apertadas e roubadas por cá,
caso ainda persistam no Portugal das novas oportunidades de suicídio e de desemprego,
esta República das Bananas a mais corrupta e desnecessariamente decadente
num raio de dois ou três mil e seiscentos quilómetros.
Por isso, ficava especado, mas só por um instante,
diante de essas apoteoses de multidões apanhadas a sair de um aeroporto suíço
quase a descairem à pergunta manhosa dos jornalistas, armadilhada:
«Então, amigo, a vida está cara, mas vale a pena voar até aqui, não é?» e tal
e nós a vê-los quase a responder que sim, mas a travarem a tempo na resposta emendada,
equipados, pintados, apalhaçados para o mundo rir e a pasmar nesse amor redutor e fanático,
prontos para a farra, com fronha de garrafão de cinco litros, ostensivos babuínos humanos,
sem qualquer vislumbre de sofrimento por colapso económico-financeiro.
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Pobre gente ingénua, posta a correr e a saltar, a dançar conforme a música e os directos TV,
títeres de altos poderes comerciais, a Galp, a Caixa, sem nenhum distanciamento e reflexão,
jogadores do Casino da Vida, narizes rubicundos de um bom verde tinto!
Já sabíamos que por trás dessa espuma o que há
é um oceano de masoquismo mal explicado e mal satisfeito.
lkj
Esse masoquismo quer aflorar, clama por satisfação, mas as pessoas resistem.
Fazem de conta que não é com elas.
Porém, os deuses são bons. Dão-lhes a cereja da dor,
uma vez que o topo do bolo da ilusão inflada a hélio no balão do nada já o tinham.
Bastou um bocado de pragmatismo e de intensidade, uma pitada de superstição,
uma asa de morcego de teimosia, uma pata de aranha de treta e basófia,
uma santinha de barro de cupidez e de ganância,
uma caganita de rato de vaidade, um peido de grandeza milionária
e de desorientação ética, e pronto: os rapazes dos penteados estranhos,
que também chutam bolas, regressam precoces.
E, com eles, foi todo um País a ejacular fora de tempo.
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O Povo retoma a sua vida difícil a convalescer desse seu nefelibatismo alienado,
desse seu sucedânio doloroso da realidade a doer. E pronto. Fez-se luz.
Deu-se de comer ao masoquismo nacional.
Haverá maior cromo do masoquismo que o Benfica de Luís Filipe Vieria,
a pagar promessas por todas as uefa-secretarias da bola
como um bom recordista do Guiness em meter nojo e a marchar de costas?
Deprimente! Ridículo! De vómito! Mas enfim, é da espécie:
adora padecer e peregrinar esse ostentivo padecimento estéril!
São uns bigodes fatais os dele, mas é da espécie, repito.
Afinal, é duro resistir a um Vício de Sofrer assim tão arreigado!
Mas ao menos, em ambos os casos, jaz agora apaziguado!