terça-feira, agosto 23, 2011

BRASIL, MEDITAÇÃO DESFALECENTE

Estou sentado sob o alpendre brasileiro da casa onde me refugio.
Faz calor, apesar da brisa, e é tarde,
neste Nordeste de sol impiedosamente mordente, e no entanto manso, por ser Agosto.
Olho o céu matizado de um azul indescritível, sempre denso, e penso em não pensar,
pois férias que o são dispensam labutas mentais e fadigas pensantes.
Passam nuvens num assombro de formas e entidades.
Colossos ou materializações imateriais tão humildes passam.
Deito-me. Quero embeber-me de Belo, desfalecer de Céu.
Garanto que estou inteiramente só,
deitado sob o alpendre da casa brasileira onde me acoito.
No alto, nubladamente,
passam carrancas, gárgulas, pégasos.
Formam-se-me, exactos ou disformes. Vejo-os. Existem. Sucedem-se.
No alto, miram-me todos os velhos barbudos dos iogurtes Longa Vida,
reverberando o quando Longa Vida existia e era iogurte cremoso como nuvens,
barbas brancas eternas servidas com óculos.
Não penso em nada senão no coligir desses pontos imaginários
para construir bocas, olhos, bigodes, faces, perfis neblinados de gente e criatura,
mas também fustes, capitéis, colunas de luz, que se verticaliza, como uma cidade celeste,
apenas vislumbrada, logo perdida, entre nostalgias e ânsias de Paraíso estranhamente familiar.
Vejo claramente visto e vidente o perfil de John Lennon
e faces de deuses, musas e duendes, no desfiar da brancura que desfila
babando o meu olhar, no gigantismo do esgar em censura, na subtiliza de um beijo Adamastor.
Passam horas. Permaneço imóvel. Urubus deslizam como cangalheiros negros,
planando, altíssimos, no célebre voo térmico, circular, ou em carreira necrófaga,
recta como se os movesse um motor comercial
para cruzarem comercialmente e com objectivos os ares, de lés a lés...
Dolorosamente azuis.
Absolutamente belos neste Pernambuco onde enlanguesço e repouso.
lkj
"Ôxe, cobra preta mata de arrocho... Jiboia.", repercute-me a memória.
Mulher também, respondo-lhe.
çlj
No céu passam, conjugam-se, essas faces de fêmeas que logo se transmutam
em caveiras e bruxas e entes quiméricos e exactamente o inverso.
Há coelhos, linces, leões, bicos de águia, aliens, fantasmas, vaginas polpudas feitas de nuvem,
tudo é possível no aleatório das nuvens que passam acima. Enorme, o dorso branco de uma ninfa
formata-se agora de costas, sobre os joelhos de vapor d'água. Nívea, absolutamente nua,
as nádegas definidas,
exacta a linha escura que as separa, rego de delícias,
cintura adelgaçada, cabeça pendida,
prostra-se, oblíqua, suplicando que eu a ame, lhe perdoe a ousadia... De costas e à minha mercê.
Logo o vento metamorfoseia a aparição em crina, depois farrapo, depois nada.
Filha mais nova vem brincar comigo.
No jogo de estes avistamentos, tornei-me estátua, deitado, ridente,
os óculos de sol postos. Filha tem sono. Deita-se de borco sobre mim.
O céu faz-se-me respirável e a pressa urbana não passa de escarro, escuma desprezível.
Respiro uma paz infinita. Talvez esteja a rezar, sem saber, no meu assombro celeste.
Filhinha canta, saracoteia, palra. Dois aninhos, alegria de viver explodindo
em dois meses brasileiros repleta do sotaque local e da prosódia.
O meu bebé! O soninho! O soninho.
Estou deitado há horas sob o alpendre olhando o céu brasileiro,
mais de metade do meu campo de visão. A outra metade é o tecto do alpendre.
Filhinha adormece. Meu braço é travesseiro da novinha.
Aconchega-se a mim. Aconchego-a a mim.
Tanta paz tenho que parece ter desaparecido o corpo para haver somente olhar.
Meu corpo seu berço de serenidade.
Tantas quantas as horas serenas que dormir,
quantas aquelas em que ficarei aqui, deitado, velando filhinha,
olhando as nuvens brasileiras,
só, sobre a lage morna, saudoso de nada
porque repleto de tudo o que importa.
lkj
Ter havido rede, onde me deitava todas as noites com o meu amor,
para ver a negrura diamantífera de todas as estrelas,
nos confins do sertão.
Ter-me embrenhado "nos mato" para caçar animais e emoções,
por vezes parando,
apenas para reclinar-me nas veredas ao odor nobre da caatinga,
fragrância à casca da umburana,
que a brisa rumorejante nos traz,
rompendo o nosso silêncio, à escuta dos latidos longínquos no acuar da presa.
Nossos cães, que companheiros!
Bendito antídoto, quando foi ele, o Calçado, e não nós, o mordido pela jararaca,
que por sorte, se esgueirava entre as nossas botas,
mas nos poupou as pernas de qualquer bote às cegas.
lkj
Regresso ao céu que me presenteia de brancura.
Meu coração azuleja.
Dissolvo-me, inteiriço e evanescente,
vapor que se evola do caldeirão
borbulhante de fadigas e vaidades europeias.
Desprezo-as. Não passo sem elas.

2 comentários:

George Sand disse...

Fantásticas férias...aproveite!!!

Juℓi Ribeiro disse...

Belíssimo texto!
A foto está maguinifíca!

As nuvens parecem falar...
Se elas falassem com certeza diriam:
Te abraço feliz!
E o céu pinta teu sentimento
de azul de azul...
Um abraço.