quarta-feira, novembro 05, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME IX

[As Aventuras do Santa Alcoveta]

SóCrash, o Santa Alcoveta, o alcoveta optimista-comissionista de todas as oportunidades de comissionar a 2%, o dente afilado na carne do contribuinte do passado, do presente e do futuro, o magno charlatão aperaltado do Regime, sente-se insatisfeito e perdido, sem projecto senão ficar na sombra, na sala vazia da RTP, colado ao seu Gajo, o Costa, para abrir caminho a uma candidatura presidencial ou não abrir. Ele sabe que o ok para tal projecto que não há meio de chegar pode não chegar, até porque o Padrinho Don Marioleone já percebeu o lastro impopular que SóCrash representa para o Gajo do Rato, o Costa. Os seus, que o deveriam apoiar, apoiam cada vez mais a sua partida forçada para fora do País, de novo Paris, os Estados Unidos para afiar o seu Inglês Macarrónico, um exílio redentor qualquer bem longe do País. Entendem que a sua cercania do Gajo Costa embaraça e embacia esse sol do socialismo mãos-largas que vai triunfalmente a votos em 2015.

Por isso SóCrash resolve desabafar com o seu modelar filho espiritual, Manuel Pinho, sondando-o, também a ele, sobre o presente e sobre o futuro. O encontro é nas Catacumbas do Corporações, onde se colige todo o saber-marreta acerca de qualquer adversário que se possa mais tarde sujar e intimidar, desde que se oponha ao grande projecto comissionista ultra-socialista que há-de levar Portugal a uma Bancarrota de cada vez:

Pinho é o primeiro a chegar. Acende um cigarro numa nota de vinte euros e contempla a hora combinada no relógio de vinte mil euros, belos tempos áureos, esses do DDT BES Salgalhado. Entretanto, SóCrash chega, embrulhado numa gabardina negra e oculto sob uns óculos escuros. Como de costume, o Santa Puta dispara o cumprimento habitual:

— Olé, Pinho, pá! Manel, dá cá esses cornos, pá, olé!
— Ehehehe Olá, Santa Puta! Que saudades, pá, dos nossos tempos de glória.
— E de grande rapina, pá, Pinho.
— E de grande rapina, Santa Puta! Pois é... Foi por uma nesga que o TGV não se fez...
— Nem o Novo Aeroporto. Pá, Pinho, a malta do nosso Rato, os meus mais íntimos escravos, quer que eu me pnha no caralho... Nem acredito.
— Santa Puta, meu amigo, é a política...
— Pois, mas eu ainda tenho muito para dar ao Rato e sobretudo preciso da grande imunidade de dez anos que só uma Presidência da República me daria... Nada me daria mais prazer que suceder ao traste de Bouliqueime.
— Isso é impossível, Santa Puta. O pessoal que analisa números já concluiu há muito tempo que ardeste... Nem para candidato serves.

— Não me concebo numa errância fugitiva, pá, Pinho. 
— Esquece, Santa Puta, a malta conversa... Toda a gente sabe que estás fodido, SóCrash. Eu já sabia que seriam precisamente os teus mais íntimos escravos a querer-te defenestrado e atirado ao deserto, seres, vá, internacionalizado... Terás, quer queiras quer não, de andar por aí.
— Um dos meus mais íntimos, o Vega9000, um gajo que só faltou dormir comigo, mas que diz que nunca me apertou a mão, escreveu que e tal... tenho de... sair. Nem Diabo atende os meus telefonemas... O Armando, esse anda fugido... Estou só, pá, Pinho, só, pá!
— Calma, Santa Puta... Tens os largos milhões que comissionaste e que sabiamente colocaste em offshores e na mão da tua família... Tens as boas recordações do poder que acumulaste... Dos nossos tempos...

— Mas um gajo, eu, só, sem o guarda-chuva da malta, posso expor-me a problemas, à imprensa de Direita, pá, ter a Justiça à perna... O Rato é como uma capa... Se o Salgalhado falar, estou fodido... Ele vai explicar como pagava favores, como compensava políticos, qual o preço de sucessivos e inveterados actos ruinosos de gestão pública. O cerco vai apertar-se...

— Calma, Santa Puta...
— Um tipo vai e lê, «José, está na altura de te pores na alheta.» Onde está que me apoiou no meu regresso à vida publica, após o meu exílio e estudo em Paris?! Onde está quem comigo defenda a minha herança politica destratada?! Onde estão os que comigo defendam o meu legado? 
— Santa Puta, pá, nisso estás sozinho... Ninguém quer tocar na merda... Levar um País à bancarrota não é para todos e a tua narrativa está gasta. É preciso tê-los ou ser louco. E tu, que eu saiba, és o segundo.
— Até agora só o Enferrujado, o ASS e tal é que me defendem. Um no Parlamento, finalmente. O outro com as momices de humor de merda na TVI24...
— Quando alguém aparece a defender-te, toda a gente acha graça... Santa Puta, de quem foi a ideia de colocar o Enferrujado naquele papel triste?!
— Tive um regresso apoteótico de Paris. Tive o Museu da Electricidade apinhado para mim. Transformei-me num dos acontecimentos políticos do ano. Houve um intenso interesse pela minha primeira entrevista, pelo meu livro acerca daquela cena que os meus escravos intelectuais inventaram para dissertação... Deu-se um sururu pelo impacto do meu comentário politico na RTP...

— Estava tudo a correr bem, SóCrash, e agora... Foi como se te evaporasses e estivesses a derreter...
— Exactissimamente!
— Tiveste o teu tempo, Santa Puta. Prepara-te para o que aí vem. Não vai ser bonito. 
— Culpavam-me por todos os males. Mas ainda tenho muitos apoios e admiradores. Fui capaz de gerar uma onda de entusiasmo enorme e com ela imprimir e impor a minha versão da história, a minha narrativa no imaginário e na memórias nacionais. 
— Fia-te, Santa Puta. Onde é que isso já vai...
— Sim, já passou, Pinho. Entrei na penumbra, mas não quero entrar. Não quero passar. Mesmo com os meus amigos a tombar, um de cada vez, às mãos da Justiça. Primeiro, o Armando. Depois, a Maria de Lurdes. Um dia destes, eu. Agora sei que o entusiasmo que gerei não passou de pólvora seca. Mas ainda posso voltar...

— Esquece. É que a malta não sabe o que fazer contigo. És como um resíduo tóxico. És perigoso e não tens grande coisa para onde ser canalizado, não tens nenhum objectivo preciso, não apareces com nenhuma candidatura a alguma coisa e nenhum projecto em especial. Estás a falecer, Santa Puta.
— Foda-se. Custa-me encarar a retoma de uma travessia do deserto, depois do meu fasto e do meu luxo em Paris. Ter luxo a sós chateia. Custa-me que o meu legado, embora agora bem entregue a pessoas que o valorizam e que sobre ele construirão nova obra, não conte comigo porque as minhas merdas já não são populares.  
— O pessoal fartou-se, Santa Puta. Na ponderação dos méritos e erros da tua governação, sobram as tuas merdas, o teu mal político e o teu mal moral, a tua forma infecta de actuar sem olhar a limites e isso paga-se, regressa em forma de dejecto e desprezo sobre ti, que foste e ainda és o verdadeiro Ébola Político. Se há um futuro imediato a construir-se, ele contará com a tua herança politica, o que prejudicará o Partido em futuras eleições, mas não conta mais com a tua pessoa. Tu e os teus escravos têm de perceber isso e quanto mais cedo perceberem, melhor.

— Mas, e tu, Pinho, pá?! Não és tu ainda um dos meus fiéis amigos e escravos?!
— Sou. Mas só nos Jornais, nas Rádios e nas TV. Em privado, digo-te o que penso e fodo-te a cabeça.
— Foda-se, Pinho, pá. Nunca mais tiraste os cornos metafóricos da testa symbólica.
— Pois, Santa Puta. Não tirei. E prepara-te. Vais pela janela!...
— Eles preferem Guterres à minha pessoa, pá, Pinho.
— Tens Vieira da Silva por ti e contra Guterres, Santa Puta.
— Mas tenho o Padrinho Don Marioleone a recomendar-me o tal exílio. Não leste a entrevista à Ana Sá Lopes, no i, de 7 de Outubro?
— Disse que não querias regressar à política e que te ias preparar para um doutoramento no estrangeiro! Ehehehe... Santa Puta, ele não sabe que não gostas de estudar?!

— Olha quem fala, Pinho, pá. Com a falência do sistema BES e a lavagem de roupa suja, não serei somente eu e o Salgalhado as faces da desvergonha das nossas elites políticas e financeiras.
— De que é que estás a falar, Santa Puta?!
— De ti, Pinho, Manel, pá.
— Não fui eu apenas a confundir interesses particulares com o serviço público. O Salgalhado acreditou que o Carlos Moedas tentaria convencer a CGD a injectar umas centenas de milhões de euros num grupo falido. O gajo resistiu. O Governo do Passos resistiu, pá.
— Aí, não se comportam como nós, Santa Puta.
— Pois, mas tu continuas igual e eu compreendo. Não espero outra coisa que um ex-ministro da Economia dos meus Governos senão que mamem à grande e exijam a sua parte dos direitos obscenos que as leis que passamos nos garantem. Mas acho que poderias ser mais discreto, pá, Pinho.
— Se estás a referir-te àquela cena da pensão, é um direito meu, e os jornais, SóCrash, é complicado.
— Foste confortado com um cargo de administrador de uma holding sem actividade conhecida, a BES África que era só para encher, mas com um salário mensal de 39 mil euros, mal te forcei a sair do Governo, depois de fazeres "corninhos" a um deputado comunista.

— O meu sonho verdadeiro, o único, era começar a receber, aos 56 anos, uma pensão de 37 mil euros a que só teria direito aos 65, Santa Puta. Isso é o socialismo.
— Sim, pá, Pinho, eu sei. É o nosso ultra-socialismo de casta a funcionar. Já muito fez o nosso Salgalhado que te deu com a mão direita o que não te podia dar com a esquerda, transformando-te em "vice" do BES África, cargo em que te mantens, não a partir de uma qualquer cidade africana, mas a partir de Nova Iorque, onde resides e dás aulas.

— Pá, Santa Puta, estou aqui, não estou?! Dar aulas é como quem diz...
— Mas a imagem que estás a dar é a de um abutre. Viste o desastre iminente do GES e só pensaste em assegurar o teu quinhão do saque.
— Ó pá, Santa Puta, é a tua e nossa escola. Que queres?!
— Mais discrição. Queres que te paguem antecipadamente uma parte do capital das pensões, e de uma só vez.
— Claro, SóCrash.
— Fui generoso. Propus ao Grupo Falido do Salgalhado alguma flexibilidade. E ele próprio, o Salgalhado, escreveu-me uma carta a garantir-me o direito a receber antecipadamente o salário dos próximos cinco anos, caso me desse jeito para pagar alguma conta: eram dois milhões de euros, pá.
— Fodeste-te, Pinho, pá. Prepara-te para não veres nada.
— Talvez, Santa Puta. Eu sei que a história já cheira mal nos media e toda a gente associa o meu comportamento a ti, à cultura do Rato e ao grupo de malfeitores que reuniste para formar Governos. Para começar, o Novo Banco já me reduziu o salário de administrador para dois mil euros. Uma desconsideração que eu não entendo, pá.

— És ganancioso às claras, pá, Pinho. Para que te servirão dois mil euros em Nova Iorque, uma das cidades mais caras do Mundo?!
— Sim, mas já te estão a fazer a folha para vires ter comigo tirar uma joint-degree da Sciences-Po com a nova-iorquina Columbia University, onde leciono uma cadeira patrocinada pela EDP.
— Não posso abdicar do meu sonho presidencial.

— Santa Puta, não tens escolha. Consola-te com a condecoração que encomendaste à Câmara da Covilhã, essa «medalha de ouro de mérito municipal. Consola-te com o teu patético solilóquio aos Domingos na RTP-1, que ninguém, mas mesmo ninguém, vê ou valoriza.
— É! Estou cada vez mais isolado e mesmo desprezado por aqueles a quem, enquanto primeiro-ministro, cumulei de tachos e de contratos, Pinho, pá. Manel.

— Acredita em mim, Santa Puta, tu és olhado como um perigo ambulante. Toda a gente te considera perigoso e indesejável. Todos te vêem como um homem-bomba prestes a explodir a qualquer momento e a atirar merda em todas as direcções, sobretudo contra a ventoinha do Rato.
— Enraivece-me a Direita Decadente, o Traste Cavaco... Já destrui Seguro... Posso suceder como Padrinho ao Padrinho Don Marioleone... Mas o cerco sobre as minhas merdas nos meus Governos aperta-se, Pinho. Eu sei, pá. Quando a opinião pública perceber claramente qual a percentagem de corrupção, compadrio e ruína nos meus consulados, vai linchar-me... Basta o Salgalhado falar.
— Os teus processos do passado e de sempre e que passavam por pressionar, sujar, chantagear, humilhar, adversários, e assim obter vantagens para o partido, podem voltar-se contra ti e contra o teu Gajo, o Costa, que te é demasiado próximo, mas já sente os desconfortos dessa proximidade. És o único que pode rebentar com ele, o mafioso Costa, contaminando-o com as tuas desgraças. És a peste que ameaça o resto da Tríade do Rato. Tens de fugir.
— Não sei, pá, Pinho. Falta-me humilhar o Cavaco, sucedendo-o...
— É melhor fugires, Santa Puta. Já sabes que os teus amigos querem que vás. Os únicos que gostam da ideia de te ter por perto são os que assistem à tua derrocada pela conspurcação política com que te sujaste; os que testemunham o teu zero, o teu desaparecimento mediático, o fim em forma de peido do histérico Primadonna, os que te sabem riquíssimo sem sombra de explicação, os que te sabem na origem dos actuais problemas da PT, da dívida colossal do Estado, associado ao Salgalhado e ao fim do BES. O teu luxo e o teu fausto testemunham contra ti, pá, Santa Puta, e insultam os portugueses todos os dias...
— Não sou o único político inexplicavelmente rico...
— Mas foste o pior. Foste o único que nada parou, nenhum argumento racional, nenhum zelo pelo bem supremo dos portugueses, nem sequer a Bancarrota iminente te parou a histeria de controleiro atoleimado. Compreende que não tardarás engaiolado e ainda mais só e mais abandonado, atrás das grades de uma Justiça que se fará, Santa Puta.
— Qual Justiça, aquela que poupa e protege Dias Loureiro a laurear a pevide em Cabo Verde?!
— Nada nos diz que Dias Loureiro escapará...
— Veremos, Pinho, pá. Não queres tomar nada?! A mim caía-me bem um café e um cigarro...

E foi assim que o Santa Puta, a Grande Alcoveta do dinheiro fácil, do comissionismo político extremo, da lábia charla, e o legendário Manuel Pinho se esparramaram por horas num vasto colóquio altamente comprometedor. Beberam uns copos e brindaram como amigos até que a noite caiu e cada qual se pôs no respectivo caralho, para descanso do afanoso escriba que vem exarando este meticuloso Auto para memória e vergonha futuras, se por esses futuros séculos de além ainda houver portugueses com dois dedos de testa e força na verga.

1 comentário:

Força Emergente disse...

Caro amigo
Um ano e tal depois aqui voltei.
E foi o primeiro sitio a visitar.
Este espaço e o meu amigo em particular mereciam dispor de oportunidades que infelizmente este sistema nos vai interditando.
No entanto os textos fulminantes que vai escrevendo irão certamente causar alguns amargos de boca à escumalha que tomou conta do país. Se não forem eles a ler haverá certamente uns amigos que irão sofrer essas dores.
Forte abraço
Carlos Luis