segunda-feira, novembro 03, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME VIII

[As aventuras do Santa Alcoveta]. 

Costa foi arrebanhar o micropartido Livre para o frentismo de Esquerda; Cavaco presidiu ao 05 de Outubro com a tónica na reforma do sistema político-partidário; ninguém quis saber o que pensava o Santa Puta de Cavaco, novamente por ele-SóCrash insultado na RTP, pois o respectivo share há muito anda a roçar o pó da indiferença. Enfim, o tédio era de mais e a SóCrash apetecia-lhe algo. Resolveu por isso mesmo procurar o Padre Melícias para se confessar numa conversa reparadora. 

Entrou na Igreja como numa inauguração ou num anúncio da PescaNova, 2005-2011, impante, inchado, teso como um pepino, percorreu o corredor central do templo vazio. Os tacões dos luxuosíssimos sapatos ecoavam secos e, na penumbra, as imagens dos santos como que plasmavam esgares de repulsa e o transporte facial do terror. Finalmente, acedendo à sacristia, encontra o Padre Melícias a contar uma peripécia de caça ao seu irmão sacristão: 

— ... Apontei a caçadeira e zás, com dois tiros, encomendei a almas daquelas duas perdizes ao meu bom São Francisco. Depois almoçámo-las na casa do meu amigo... Ó meu caríssimo amigo Santa Puta, SóCrash! Bons olhos o vejam. O que o traz por aqui? 
— Meu amigo e filho da mãe Melícias, você não envelhece, pá. Não... Vim com o intuito de conversar consigo. Confessar-me, vá. Mas exijo que o Sr. Padre Melícias se me confesse também. Seria um verdadeiro serviço público ouvi-lo a narrar essas gloriosas caçadas e poder falar-lhe do mundo submerso dos grandes escritórios da advocacia de negócios de Lisboa, que são oito, os principais. 

— Meu filho, não tenho muito tempo e há ali duas ou três almas para a missa das 11h. Vá, mas pronto. Vou ouvi-lo com toda a atenção. 

SóCrash pôs-se à vontade. Tirou o casaco. Deitou-se no banco corrido da sacristia e começou a falar, como se estivesse no consultório de psicologia:


— Tenho por aí uns amigos que escrevem umas coisas nos jornais... Sentem-se revoltados comigo por causa dos meus largos anos de negócios ruinosos para o Estado e para os contribuintes portugueses, e cuja consequência mais séria foi a falência do Estado, em 2011... graças à rejeição do PEC IV e à coligação do PCP com a Direita. Dizem que fui eu que levei ao limite essa escalada de negócios ruinosos. 
— E é verdade, meu filho? Eu também já atirei a matar em dezenas de javalis... 
— É verdade, Padre, mas soube-me bem. Soube-me bem apadrinhar o indecente contrato celebrado entre o Porto de Lisboa e a Liscont/Mota-Engil para a exploração do Terminal de Contentores de Alcântara, um verdadeiro contrato de saque sobre a cidade e os contribuintes. 

— Meu filho, se te soube bem é porque foi bom. Matar umas rolas também me enche de um frisson santo, Santa Puta, meu filho. 
— Sim, pá, padre. Compreendo. Mas esses meus amigos estão chocados comigo, com a íntima teia de interesses cruzados entre a política e os negócios, a advocacia política e a advocacia de negócios - que se confunde amiúde com o Governo do País. Dizem que fui longe de mais. O que vale é que agora tenho Costa que já disse ter orgulho em mim. 

— Sim, o Costa... O Costa faz-me lembrar uma caçada que fiz numa tapada ali do Alentejo, quando acertei num cervo... 
— Não sei o que me acometia, mas quando eu recebia um desses 'managing' ou 'senior partners' para tratar de negócios "fusões e aquisições", "privatizações" "consultadoria financeira", perdia a cabeça, padre. Tinha inveja desse petit monde de escassas centenas de pessoas que se desdobram, e às vezes acumulando, os lugares onde se pede e onde se decide: nos escritórios de advocacia, os 'ten majors', nos meus Governos e nos meus gabinetes ministeriais, nos órgãos sociais das principais empresas privadas, nas administrações das empresas públicas e nos bancos e empresas financeiras que intervêm nos grandes negócios em Portugal. E tudo isso era meu, para mim, controlado por mim, pá, padre Melícias, meu camarada caçador. Tudo meu, para mim, porque todos ganhávamos! 

— Entretanto, com o chumbo do PEC IV essa mama de merda foi interrompida, meu filho, Santa Puta. Mas o viciozinho já lá estava... 
— Padre, mais devagar. Eu ainda estou adicto. Mas tenho Costa. O principal motor desta actividade consiste em fazer alternar os mesmos, os restritos membros do clube, entre as posições de advogados, de concorrentes e de decisores políticos. O Costa vai voltar a pôr-nos lá outra vez. No mesmo negócio, um governante e um representante de um determinado interessado no negócio são colegas do mesmo escritório e esses escritórios de advocacia umas vezes defendem o Estado contra interesses particulares e outras vezes invertem os papéis e é simplesmente lindo quando no mesmo negócio em tempos diferentes, encontramos o mesmo escritório de advogados que negociou um contrato em nome do Estado depois litigar contra o Estado com base no mesmo contrato. Não é lindo, padre?! Confesso que não durmo por vezes só de pensar nos milhões desta aventura. Não falta. Todos comem, mas, claro, é preciso estar lá, na ponta da pirâmide. 

— Meu filho, SóCrash, não temes o fogo do inferno?! 
— Não. Temo andar mal vestido e envelhecer, perdendo o meu charme de sedução eleitoral. Mas agora tenho o Costa. Estar no jogo, comandar os negócios e foder com o Estado é poético porque o padre camarada sabe que a identidade do cliente ou parte envolvida que só à sua conta deve representar 90% da facturação desses escritórios, esse generoso cliente, de oportunidades de negócio inesgotáveis, é o Estado Português... eheheheehehe quer o Estado central quer as autarquias ou regiões, empresas públicas ou organismos públicos dotados de autonomia administrativa e financeira. 
— Mas isso não é um pecado gravíssimo contra os Portugueses, Santa Puta? 
— Não, quando somos nós o Estado-PS, o cliente Estado. Quando é a Direita, é crime de morte. Mas quando somos nós, o Estado-PS, além de ter uma carteira de encomendas sempre renovada, somos o tipo de cliente que qualquer advogado gostaria de ter. O Estado encomenda serviços, pareceres, estudos, relatórios; por vezes sem a mais pequena necessidade e, às vezes até, só porque parece bem; nós, o Estado-PS, pagamos sem pestanejar nem discutir o preço; encomendamos contratos em que os direitos do Estado nunca estão acautelados e os da outra parte estão sempre "blindados", como o contrato entre o Porto de Lisboa e a Liscont, que o meu Costa tanto adorou; o Estado assina de cruz, ou aconselhado pelos seus advogados de luxo, contratos com cláusulas escondidas que depois permitem à outra parte facturar até ao triplo do preço ajustado, como nos meus 'swap'); e quando, por pudor fingidolas, o Estado resolve reclamar em tribunal arbitral, perde dez em cada dez arbitragens. Se não fosse o cliente ou a parte Estado toda esta próspera actividade, oficialmente só jurídica, há muito teria encerrado portas. Mas quem é que quer que encerre? Nem com a Bancarrota esta alegria foi refreada. Antes, vai continuar. E eu, SóCrash, o Santa Puta, não quero que acabe tal fonte de delícias, ó padre Melícias. Tenho saudades e vou mandar o Costa para lá, para continuarmos esta festa. 

— Meu filho, isso parece coisa do Diabo. Há professores no desemprego e gente com fome... 
— Que se fodam. Não podemos ser todos super-milionários tal como não podemos ser todos Primeiro-Ministros e aceder às comissões de 2% por cada decisão ruinosa. Esses escritórios são o nosso braço armado. Asseguram ao Estado, e ao Estado-PS, quando lá estamos, patrocinam, ou negoceiam com o Estado, em tudo o que o Estado tem para dar: privatizações, PPP, 'swap', perdões e benefícios fiscais, aquisições de armas, construção de estradas, aeroportos, pontes, construção e exploração de hospitais, concessão de serviços públicos, exploração de tudo o que interessa (água, electricidade, gás, combustíveis, correios, aeroportos, portos, construção naval, barragens. 
— Meu filho, pede perdão. O Estado faliu em 2011 e a Direita esteve arredada desses negócios 15 anos. Não mintas mais, meu filho, Santa Puta, SóCrash. 
— Peça o padre perdão por andar a matar animais. A verdade é que dos mais de 170.000 milhões de dívida pública que acumulámos nos últimos 20 anos, uma esmagadora parte foi negociada, intermediada ou patrocinada pelos 'ten majors'e uma parte considerável, mas não quantificável, de despesa injustificável resultou directamente, ou da sua inépcia profissional, ou daquilo a que diplomaticamente podemos chamar falta de sentido de serviço público. E uma parte não negligenciável foi-lhes parar às mãos, a título de honorários. E foi assim que comecei a ser feliz, padre Melícias. Estas coisas não são para qualquer um. Tenho saudades e quero o Costa a pastorear isto outra vez. 

— Foda-se, meu filho, Santa Puta. Se eu fosse divino vergastava-te essas nádegas até pedires perdão em público, arrependido e em lágrimas e para explicares aos crespos, às pantufas e aos gregos que um corrupto tem uma graduação variável de gravidade. Não pedes perdão? Não estás arrependido? Mesmo que estejas, não te absolvo. 

Incomodado com as invectivas do padre caçador, Santa Puta, levantando-se num pronto, fez-lhe o dedo do meio e ainda organizou uns cornos de escárnio com os outros dedos. Sentia-se aliviado. Enquanto vestia o casaco de 4000 euros e puxava as calças, passando o lustro aos sapatos de 750 euros, retorquiu em jeito de despedida: 
— Padre, não estou arrependido. Tive muito gosto em ouvir-lhe a confissão. Um padre matador cruel de animais sem carne. Pois pode enfiar a sua absolvição onde lhe der mais gozo. Foi muito bom falar consigo. Temos um Povo, cuja psicologia bem estudada, dá para foder e refoder mil vezes e o padre sabe que se não forem os melhores, os mais desavergonhados, os mais hábeis, os mais amorais e gananciosos, em suma, se não formos nós no Rato a fodê-lo, quem o foderá?! No fim sempre poderemos colocar a culpa toda na Direita. Verá que resulta. Esta gente é estulta. Deseje-me sorte na próxima maioria de Esquerda para português ver... eheheeh 
— Ora adeus, Santa Puta. Vá com o Diabo.

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