sexta-feira, novembro 14, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME XII

[As Aventuras do Santa Alcoveta] 

SóCrash, o Santa Alcoveta, o grande Crash impante e ufano do Rato e de Portugal, não tem dormido bem. As insónias sucedem-se. Tem pesadelos terríveis. Por isso convocou Isabel Loira Moreira para lhe vir ler uns poemas e assim ajudá-lo a adormecer. A deputada do desbragamento, da fúria sexual e das rupturas de Extrema-Esquerda acorre ao seu mestre num pronto. 23 horas em ponto, ei-la que assoma à porta da Bramcamp e fala pelo intercomunicador: 

— Sou eu, SóCrash. Trouxe os meus livros, anotados. 
— Olá, querida deputada que eu coloquei no grupo parlamentar do nosso PS para infernizar a tola ao Seguro, sobe, sobe... 
— É para já, Santa Puta. Uma vez adentrada naquele templo de conforto e luxo, Isabel Loira Moreira não esconde o seu espanto, as fragrâncias, a decoração... 

— Pá, SóCrash, enquanto filha de Adriano Moreira, um conservador que ajudou a fundar o CDS e que foi ministro de Salazar, comungando algumas ideias corporativistas do Estado Novo e apoiando activamente a política, devo dizer que isto é fantástico. 
— Ainda bem que gostas, Isabel Loira Moreira... 
— 'Pera aí, Santa Puta... Pronto, já foi... 
— O quê, pá? 
— Um orgasmo. Estar aqui, olhar para a tua qólidade de vida... 
— Eh pá, Isabel, ainda bem que não seguiste as pisadas ideológicas do pai. Nunca terias tido um na vida. Ahahahaahahah 
— Eheheheeh, Santa Puta. Queres então que te leia, declame, vá!, os meus poemas para que adormeças... 

— Sim, como vês, já estou de pijama. Completamente pronto... 

— O meu pai..., não lhe perdoo o salazarismo e o serviço ao Estado Novo. Ok, eu admiro o papá, ele faz análises absolutamente brilhantes do País e da situação do país, sobretudo tendo em conta o contexto internacional, que é uma coisa que pouca gente faz. 
— Mas é da Direita Decadente, Isabel Loira... 
— Pá, mas tem uma lucidez enorme. 
— O teu pai tem dito umas coisas do agrado do nosso Rato. 
— 'Tá velho e amoleceu e gosta de agradar ao Don Marioleone. 

— Pois é, minha vaca, mas tu não tens nada a ver com ele... Apostataste essa herança, escreves poesia pornográfica e agora estás aqui com o teu outro papá para me leres essas cenas. Oxalá consiga adormecer. 
— Vou dar o meu melhor, Santa Puta... 
— Vá, então começa lá. Por falar no teu papá, pode ser qualquer merda do teu sumptuoso «Apátrida»... 
— Ok, SóCrash... Não me lembro de não gostar de política por isso não sei como surgiu isso de gostar de política. É verdade que cresci numa casa em que a política esteve sempre presente. Isso foi uma influência determinante mas o facto é que acabei por tirar o curso de Direito e escolhi a área de direito público, mas só me realizei com a vida de deputada... 

— Eu também nunca soube fazer nada, mas aprendi muito a tramar quem me aparecesse pela frente... Primeiro, na concelhia, mais tarde na distrital, finalmente no País. Um gajo tem de ser implacável, Isabel. 
— Todos me perguntam como é que o meu pai viu a minha entrada nas listas do PS ou como viu a defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo. 
— Essa cena foi fixe porque desactivamos a agenda do Burloque de Esquerda... 
— Fico espantada, Santa Puta, por isso causar tanta curiosidade. 
— Foi a curiosidade do Correio da Manhã, esse antro de calúnias, ataques pessoais, e assassinato do meu mau carácter? 
— Não dou conversa a jornais reaccionários. É um bocadinho sinal de pouca evolução dos tempos. Parece-me tão natural que numa família possam existir diferenças ideológicas que quando fui confrontada com perguntas a esse respeito, fiquei espantadíssima. Isso nunca foi uma questão, é de uma naturalidade avassaladora. 

— Menos em França, Isabel. Em França, pá, os movimentos contra essa cena que nós roubamos ao Burloque de Esquerda, são radicais e maioritários, Pá, nem aborto, nem casamento interssexual. Nada... Quem haveria de dizer, um país revolucionário e avançado daqueles... 
— O meu pai estava na primeira fila da apresentação do meu livro sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Faz o que todos os pais normais fazem e eu faço o que todas as filhas normais fazem: apoiamo-nos mutuamente. No fundo temos as mesmas preocupações mas soluções diferentes. É só isso. 
— Claro, pá, Isabel. Nós, no Rato, somos muito mais que uma família. Somos uma famiglia... Eheheeheh 
— Ouve, Santa Puta, nós somos jacobinos, pá. Andamos para aqui a cagar tacos e a falar de Esquerda e de Direita a ver se o pessoal enganado por nós, primeiro com as esmolas dos teus Governos e depois com a factura deste Governos decadente, nos devolve o poder que só pode ser nosso. 

— Foda-se, Isabel Loira, agora até me geraste um frisson, um arrepio na espinha... 
— Tu, pá, meu caralho, Santa Puta, foste um bom primeiro-ministro, corajoso. Enfrentaste imensas dificuldades, em comparação com Passos Coelho sofreste um duplo padrão em relação à Direita. Gostava de ver aprovada a adopção por todas as pessoas e que fosse possível a uma mulher conceber um filho sem necessidade de ter um parceiro, como acontece em Espanha. 
— Sim, mas para isso é preciso que o meu Gajo, o Costa, vença as próximas eleições e com maioria absoluta. 
— Isso será difícil, Santa Puta... 
— Mas estamos a conseguir destruir todos os dias o prestígio do Governo e dos seus ministros fragilizados pelo boicote estrutural nos suportes informáticos que temos patrocinado, Isabel... 
— São batalhas que levam o seu tempo, Santa Puta. A partir do momento em que há uma maioria de Direita, há coisas que não vale a pena apresentar como proposta de lei sob pena de inscrever num caminho de vitórias uma derrota. E quanto ao teu Gajo, o Costa, não sei... 

— Tu és formada em Direito, és uma constitucionalista, o mundo ensina-te tudo o que deves aprender, tens viajado e visto o que a Esquerda faz de único e maravilho ao nosso vasto mundo. 
— Sim. Pensei muito em ti, Santa Puta, quando estive em Cuba. Havana é um poema, mas a miséria é horrível e a forma como escondem isso com propaganda é terrível. Olha, como tu, entre 2005 e 2011, também gastaste balúrdios em cenas do tipo, como aquele negócio da PT com o teu outro gajo, o Figo. Podíamos fazer de Portugal uma Cuba, porque as pessoas, quando se consegue chegar a elas, estar lá o tempo suficiente para ir jantar a casa de um cubano, conhecer a história deles e eles sorrirem apesar da miséria... 
— Espera que o meu Gajo, o Costa, seja eleito e faremos disto a Cuba que pudermos, com pessoas gratas aos nossos subsídios e que também sorriem apesar da miséria, como os cubanos... 
— Sabes, Santa Puta, Tenho uma mente de há 80 anos atrás, quando andávamos a dizer mal da Igreja, a pontapear os colhões dos padres, pá, aquele jacobinismo puro e duro que ainda habita na cabeça do nosso padrinho Don Marioleone... pá, Santa Puta... 

— E na do Enferrujado Rodrigues e nos caramelos fósseis da Esquerda que odeiam o PS, o PCP e o Burloque... Enfim, Isabel Loira Moreira, vamos lá à tua declamação... 
— Ok, SóCrash, vamos ao meu «Apátrida». 
— Vamos. 
— Esta merda que eu escrevi prolonga e aprofunda temáticas obsessivas, quase fetichistas, e tópicos discursivos que caracterizam desde há muito a minha obra. 
— Sim, pá... 
— Leste o meu Correspondência Comercial e A Excelência no Atendimento? 
— Claro, pá... 

SóCrash havia já ingressado na sua ampla cama na qual, se bem se lembram, tivera o inexcedível colóquio com o Diabo: 
— Leste o meu Pessoas só? 
— Sim, pá... 
— E o meu Quando uma palavra não basta, candidato ao prémio Saramago... 
— Claro, pá, Isabel... 
— Leste as minhas 160 páginas do Ansiedade. 
— Foda-se, Isabel, li tudo o que escreveste, só que em oblíquo... Também leio aquele caralho, o Palavrossavrvs em oblíquo... 

— Este é o quarto livro. Ok. Pronto, sou escritora e ser escritora é escrever palavras, mesmo que com erros de ortografia. 
— Por que achas que comprei a peta do Acordo Ortográfico? Foi para lançar uma espécie de Bancarrota na Língua e confundir ainda mais a populaça... 
— Gosto de articular a literatura da abjecção e a tentativa frustrada de se configurar como escritora maldita. 'Bora mergulhar no meu demónio do asfalto e nos abismos de uma insanidade teatralizada?! 
— Oh Isabel, lê lá qualquer merda. Eu quero adormecer... 

— O meu vórtice vocabular vai deixar-te louco, SóCrash... É a margem, a periferia da sanidade, o meu sagaz oportunismo na escolha destes territórios significantes: pág. 35: «o gajo não sabe um cu do que se passa»; «um buraco diferente» − pág. 25... 
— Isso é fixe, Isabel... 
— Repara nesta transnomição onomatopaica «chiiiiiiiiiiiiiiiiiiu», pág. 33, prorrogado no «cala as minhas esplanadas» da pág. 51, e no ritmado «clique, clique, clique» da pág. 47! 
— Isabel, estou a ficar zonzo... 
— ... «matar o bailado dos qualificativos», pág. 11, «vou vomitar» − pág. 40; «o meu umbigo vomitado numa noite aterradora» − pág. 32; «talvez nesse dia ausente tenha / entrado em sua casa e amparasse / o vómito» − pág. 40; «esmurra o vomitado nas casas de banho» − pág. 34. 
— Foda-se, pá, isso é sublime. 
— Não me interrompas, Santa Puta... A minha abertura e a minha recepção, físicas e corpóreas, são totais e vorazmente carnívoras, ávidas da plenitude dos sentidos, num experimentalismo sucessivo, às vezes múltiplo, e sempre infindo. Vou ler-te o que a ex-ministra e pianista Gabriela Canavilhas escreveu na contracapa do meu livro: «Isabel Moreira não pára de surpreender». 

— Grande ex-ministra do meu ex-Governo... é pena ela não saber o que diz no Frente a Frente da SICN... 
— ... «estrume de dor», página 8. E pronto, este meu estrume de dor constitui-se como metáfora e síntese perfeitas destas minhas 104 páginas, impressas na Bloco Gráfico, Lda. Mas há mais: «estou peganhenta», pág. 12,... «fumei três ganzas e bebi uma garrafa de vinho tinto», pág. 38,... «fui a um bar e comi coisas verdes»,... pág. 39, «e tal e tal e o caralho», pág. 15,... «dói-me o útero / e de repente tudo cheira mal,» pág. 19;... «o meu útero, desde então, gentilmente destruído», pág. 67; «aquele entra e sai ritmado, gramatical,», pág. 19; «tirando três dedos femininos de dentro dela», pág. 41, «metendo o que pode no que vai dar a umas trompas laqueadas», pág. 41; «tantos gajos, mães, eu tão bêbeda, meticulosa, um a um, odor a odor, nos pescoços, nas virilhas, nos cus, onde fosse, respirar gajo a gajo à procura de um cheiro familiar familiar nós», página 77... 

Entretanto, SóCrash, o Santa Puta, efectivamente ia adormecendo, deixando Isabel Loira Moreira auto-hipnotizada pela sua declamação esforçada: 

— ... «num charco, um charco de esperma a tapar a primeira marca de ter sido mãe», pág. 33... «morro a procurar o teu cheiro em duas ancas», pág. 74... «esfregar urtigas no sexo». Isso é do blogue «Consolação», texto de 2010; pp. 42-43, esta «menina-lobo que uiva culpas»;... «comeu uma colherada de batatas», pág. 42; «a menina leva um estalo na cara», pág. 43; «eu de mãos atadas nas costas a lamber o chão.», pág. 53; «o amigo que me enfiava uma nota no sexo», pág. 53;... «unilateralidade sem dolo», pág. 68... 

Isabel vê-se só, sem o concurso da atenção do seu mestre, SóCrash. 

— Bem, é pena que não me possas ouvir na parte apóstata e herege... árvores «tão altas que esmurram deus», pág. 22; «o choro inútil de deus», pág. 27; «deus a dar cabo de tudo», pág. 32; «a cegueira de um tiro de deus amarelo ao máximo ao nosso encontro», pág. 28; «a cegueira de um tiro de deus amarelo máximo ao nosso encontro», pág. 104; «deus a mijar-se de medo pelas pernas abaixo naquele temporal», pág. 98... «− quem és tu, pai? / − disseste pai? / − não, disse pau.»... 

E foi assim que SóCrash adormeceu e Isabel Loira Moreira ficou ali, só, sentindo-se estranhamente deprimida.

5 comentários:

Força Emergente disse...

Caro amigo
Certamente que está a preparar o auto de recepção ao grande canalha, também conhecido por grande filho da puta e mais recentemente por Só Crash.
Ontem, ao fim de muitos anos, acabamos por ter a noticia que de há muito se aguardava.
Vamos ver se desta vez se consegue dar inicio ao varrimento da vergonhosa classe politica que tem deslapidado o País.
Força e forte abraço.
Carlos Luis

luis barreiro disse...

Tantas vezes fostes aqui (tua casa) insultado pelos cães socratinos, quero só deixar uma palavra de apreço por sempre teres lutado pela verdade.

Bruno Santos disse...

Deves estar que não te aguentas, com a prisão do SóCrash... Há dias que deviam tornar-se feriado. Ontem foi um deles...

francisco disse...

Estou a apreciar o teu silêncio acerca do assunto do aeroporto e sucedâneos. Acho que fazes muito bem em não fazer coro com o enorme bruaá... por muito pertinente e oportuno que ele seja. Afinal de contas não te move uma obsessão mas tão-somente a denúncia de um gigantesco caso descarado de imoralidade/ilegalidade e a consequente necessidade de desabafar o que vai na alma e que tão ostensivamente desafia os valores mais elementares daquilo em que acreditas.
Abraço.

José Domingos disse...

Pareceu-me ver a porca a torcer o rabo.
Estranho, deve ser do regime.