quinta-feira, fevereiro 27, 2014

A MENINA VATNAZ

Maria Luigi Carlo Zenobio Salvatore Cherubini
À medida que as horas avançavam,
as ocupações de Arnoux redobravam;
arquivava artigos, abria cartas, alinhava contas;
ao ouvir o martelo no armazém, saía para vigiar as embalagens,
depois retomava a sua tarefa;
e, enquanto fazia correr a pena de ferro sobre o papel,
ripostava aos gracejos.
Devia jantar à noite em casa do seu advogado,
e partia no dia seguinte para a Bélgica.

Os outros conversavam das coisas do dia:
o retrato de Chérubini, o hemiciclo das Belas-Artes,
a próxima exposição.
Pellerin invectivava o Instituto.
A gritaria, as discussões entrecruzavam-se.
O apartamento de tecto baixo, estava tão cheio
que nem se podiam mexer;
e a luz das velas cor-de-rosa passava no fumo dos charutos
como raios de sol na bruma.

A porta, perto do divã, abriu-se,
e entrou uma mulher alta e magra,
com gestos bruscos que faziam tilintar no vestido de tafetá preto
todos os berloques do seu relógio.
Era a mulher entrevista, no Verão passado, no Palais-Royal.
Alguns, chamando-a pelo nome,
trocaram com ela apertos de mão.
Hussonnet havia enfim arrancado uma cinquentena de francos;
o relógio de pêndulo bateu as sete horas;
todos se retiraram.
Arnoux disse a Pellerin que ficasse,
e conduziu a Menina Vatnaz para o gabinete.

Tu não ouviste as suas palavras; cochichavam.
No entanto, a voz feminina elevou-se:
 Desde há seis meses que o negócio está feito, e continuo à espera!
Houve um longo silêncio; e a Menina Vatnaz reapareceu.
Arnoux tornara a prometer-lhe qualquer coisa.
 Oh! Oh!, mais tarde veremos!
 Adeus, homem feliz!  disse ela, retirando-se.

Arnoux voltou a entrar apressadamente no gabinete,
esmagou cosmético no bigode,
levantou os suspensórios para esticar as calças;
e, enquanto lavava as mãos:
 Precisava de duas bandeiras de porta,
a duzentos e cinquenta a peça, género Boucher, está combinado?
 Seja  disse o artista corando.
 Bom!, e não se esqueça da minha mulher!

Tu acompanhaste Pellerin até ao alto do arrabalde Poissonnière,
e pediste-lhe autorização para ir visitá-lo algumas vezes,
favor que foi concedido graciosamente.
Jean-Auguste-Dominique Ingres

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