segunda-feira, março 03, 2014

ÉCFRASIS A UM BRUEGEL

Há um grito por palavras neste texto pictórico A Luta entre o Carnaval e a Quaresma (1559), de Pieter Bruegel, na Kunsthistorisches Museum, Viena. Vejo agora tudo com o detalhe minucioso do meu interesse, espécie de presença física no íntimo da História que a pintura-texto ressuma.

No vestíbulo da Igreja, à direita jaz um crucifixo dourado colocado sobre uma almofada e lençol de cetim alvíssimos, crivados de moedas atiradas por quem entra ou por quem passa; à esquerda, um vulto, talvez pedinte segura o seu recipiente; mais atrás e à direita, um Padre ouve em confissão; no exterior, à esquerda um piedoso funcionário, de braços cruzados, vigia sobre a piedosa mesa uma bandeja dourada com algumas moedas e a cujo centro pontifica um translúcido borrifador de água benta perfumada, ao lado do qual, alinhado, está o breviário que devotamente acompanha as borrifações. 
À entrada da Igreja.
Repare-se no pormenor bem quaresmal dos santos recobertos:

Triunfará a Quaresma ou o Carnaval? A Quaresma leva vantagem. É certo que as crianças brincam ao pião, correm, sorriem e gritam, completamente alheias, na sua inocência, à tensão religiosa do Tempo e hedonista da Rua. Há jejum forçado e reforçado nas carnes, nos rostos, no exército de pedintes e excluídos da salvação mundanal pelo saciar das fomes.
Crianças brincando.
Estrénuo, o Carnaval extenua-se na loucura das carnes de porco trinchadas, lubricidade do excesso, na sátira sem freio do que apareça pela frente, bebendo o generoso vinho ou a generosa cerveja desde a generosa barrica. Desliza pesada e livre a carroça dos bêbados nos seus tons rubros, álacres, e rotundas intumescências do cio. Num mundo esquálido e ressequido de fome e sede, numa época de trabalheiras até à morte, que vida venturosa torna possível a abundância obesa da felicidade?! Note-se com que humor o espeto foi preenchido: a cabeça de suíno, seguida de um frango ou outra ave média, uma salsicha dependurada, outra ave mais pequena e o que parecem chispes. Um folião empurra a barrica todo curvado segurando os copos por onde foi bebendo, outro desprovido de rosto pelo que parece uma máscara espectral e inexpressiva, com um vistoso unicórnio verde-rubro produz zoada com uma faca correndo pelos dedos de uma grelha. Na barrica, um presunto varado por um trinchão simula uma proa de embarcação, espécie de Vitória de Samotrácia presuntícia.
A folia, entre a bebida e a comida.
Pormenor do fornecedor da tracção ao esqui satírico, a corda pelo ombro, o joelho esquerda roto, a precária cobertura na cabeça:

São várias e diversificadas as sociedades de desvalidos na mais ruidosa mendicância e em competição espectacular entre si. À vista desarmada, a esmagadora maioria dos elementos que compõem esta sociedade medieval parece composta por pedintes, mendigos, homens castigados pelos sofrimentos, pelas amputações em refregas militares ou gangrenados da lepra, de qualquer modo feridos pela doença. E tudo isto é espectáculo. Mais ainda no Carnaval pois aí cada um pode fazer da própria dor ruidosa e da própria fome e da própria falta a hipérbole perfeita e a auto-ironia acabada que façam render a difícil compaixão e a quase inacessível generosidade dos portadores de moeda. Esta roda de pedintes e estropiados anda literalmente à roda em torno da caixa de esmolas colectiva, em movimento contra-relógio, as bocas muito abertas em gritos e esgares de maus dentes, nos seus pregões de algazarra. Um deles, com um gizo na perna sã, oferece a sua zoada implorativa à multidão que passa. Aguarda por dádivas, as quais decididamente não chegam.
Corporação de Mendigos.
A Quaresma insinua-se processional, mas o Carnaval também é procissão provavelmente sátira burlesca ao desfile beato e devocional. A indústria medieval da mendicância compartimenta-se em especializações, mas mesmo alguns colectivos e comunas de desfavorecidos não resistem à privatização espectacular da própria desgraça. Note-se, à esquerda, a mulher, talvez mãe, que implora pelo infeliz triplamente amputado, talvez filho. Dir-se-ia que este pobre trabalha por sua conta e risco em sociedade, circunstancial ou não, com a mulher, longe da sua corporação natural, a roda dos estropiados que manqueja, espoja-se e se arrasta mais atrás em torno da sua própria caixa de esmolas colectiva. Outra hipótese de leitura passará pelo facto de o triplo amputado ser também cego, o que de infere do olhar projectado no vazio em desencontro com o caridoso embuçado. E além de cego, demente, portanto passível de roubos e abusos, explorações e desconsiderações de quantos companheiros de infortúnio, os quais, mesmo com membros a menos em relação ao comum dos mortais teriam sempre membros a mais para prevaricar na corporação contra o mais fraco de todos. A aristocracia, por vezez, recorda-se de ser e parecer generosa, dentro do grande espectáculo social da sociedade medieval. Eis um fidalgo, saído da Igreja e quaresmalmente compungido, a favorecer, com o seu donativo, um dentre um duo de cegos, depositando no chapéu continente das ofertas o óbolo sonhado. Note-se o leal e sadio cão cuja trela parece subir e envolver o pescoço do cego em primeiro plano, órbitas vazadas, recôncavas, que segura o seu robusto cajado de cabeça descoberta e descomposta. Repare-se na riqueza e proporcionalidade do traje envergado pelo fidalgo, os tecidos, as peles, as cores, o bolsão na ilharga, e no adorno vivo, o pajem, sonolento, curvado, vestido de cor bem rubra e ostensiva, que segue mais atrás carregado de espadas [pormenor 5 a]. A guerra entre o Carnaval e a Quaresma não tem tréguas. A dor de viver não tem pausas. A folia reveza-se com a desgraça num mesmo espectáculo repleto de possibilidades pequenas, entre febres e azares, o sopro de vida em cada um é uma ilusão semelhante à efemeridade do feno. Tudo, especialmente respirar, recorda a certeza da morte.
Corporação dos Cegos.
O Nobre e o Pajem Sonolento carregado de Espadas.
Na grande praça medieval, onde se trava a batalha entre o grotesco sagrado e grotesco profano, o desfile de caracteres não dá sossego a si mesmo. Aqui, um quarteto aparentemente coordenado, processional, talvez uma família. A mulher, atrás, em vestimenta agreste de palha, travessa de grandes bolachas quadrangulares entre as mãos; ao pescoço talvez um colar de nabos que vemos noutras personagens deste texto-pintura, no rosto uma máscara lunar; às costas uma caixa de esmolas?, uma caixa para pedidos e mensagens de correspondência?, uma gaiola-ninho de aves? um reservatório de sal, farinha ou outro tipo de alimentos?, e sobre a cabeça uma travesseira ajustada para servir de chapéu tricórnio. À sua frente, talvez o homem da casa, caricaturando uma entidade ventruda qualquer, tangendo uma espécie de cavaco; sobre a cabeça, um pequeno pote-caldeirãozinho de cozinha, com efeito de cornadura caprina graças ao tripé invertido, a servir de capacete, na ilharga um jarro dependurado. Depois, o corpo pequenino do que seria o filho, abrindo caminho, ostentando uma vassoura com duas velas acesas em pleno dia, uma máscara aviária, uma sacola pesada, sobre a cabeça uma cobertura espampanante com uma colher de pau em lugar da pluma da praxe. A sátira e o cómico como grande divertimento familiar com um reportório de piadas, reacções e expressões para mais tarde recordar.
Uma família de três foliões por sua conta e risco.
Finalmente, a avozinha à frente, a liderar a folia:

À frente vai a avozinha ruidosa, com a sua cuíca artesanal.
O Estado Social na luminosa organização estratificada medieval é um Estado Individualista cercado de morbilidade, doença e morte por todo o lado: qualquer febre ceifava mil, poupava cem. Cadinho de doença e sobrevivência, acamar não era geralmente bom sinal e o desfecho habitual seria falhar o teste da superação vital, sobretudo na infância. Mas nesse Estado Individualista socializado na caridade pelo Mandato Eclesial, o órfão e a viúva, postados à saída das igrejas, podiam pelo menos publicitar-se e estender a mão para migalhas da sobrevivência ao sabor da sensibilidade e caridade de cada um. Aqui, dois homens piedosos cumprem o seu gesto de fundamento quaresmal e pressuposto religioso. Um deles, o que está em segundo plano em vestes escuras, avalia a dádiva do outro, esquecendo-se completamente da sua. Com uma mão no bolsão e a outra segurando o invisível óbolo em oferta, a figura em primeiro plano curva-se à necessidade da pobre mulher embuçada, cuja mão, bem aberta e súplice, perfaz a sintaxe-assinatura de quem se decide a pedir para viver ou compensar a desgraça. Trata-se de uma mão incrustada no tempo que reflecte uma face. Note-se o pormenor do ventre bem redondo, indicio de uma nova gravidez. Note-se a máscara sobre a boca e a alvura do lenço na cabeça, o manto sobre os joelhos, tudo a fazer pressupor mil e um cuidados e outro tanto de surperstições, tendo em conta a reiterada dose de infortúnios. Mais atrás no enfiamento da sua cabeça, provavelmente a silhueta obscura do seu marido.
Dois homens e as suas duas esmolas
A seu lado, num plano inferior, publicamente acamada, a sua criança convalesce, eventualmente desesperançada. Por recosto e cama, uma cadeira deitada. Provavelmente, o destino iminente da morte desta criança é o que precisamente se sequencializa no pormenor adicional mais abaixo desta cena [Pormenor 7 a], em que um alvíssimo sudário desproporcional cobre um pequeno cadáver. Note-se a silhueta dos pequenos pés e a forma como o tecido se desorganiza sobre o solo, aguardando a inumação sagrada.
A criança doente e o pequeno cadáver coberto com o enorme sudário.

Pois, e à saída da Igreja, as procissões...

Ao centro da praça, um poço comunitário, para todo o serviço, sobretudo o processamento de peixe e a lavagem de legumes e cujas águas se prestam à máxima das desconfianças:

Alternam e sucedem procissões de irmandades. Comercia-se, faz-se a roda, faz-se o fogo, é celebrada a festa da proeza de beber de mais e comer de mais.

O esqui da barrica com o presunto apresta-se ao combate satírico com o carrinho do homem com a pá de padeiro com peixes, que segue acompanhado de ruidosas e roliças crianças. Todas transportam o seu pão doce em forma de laço:

[...]

2 comentários:

francisco disse...

Brilhante! Uma descrição digna da obra.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Excelente! Foi um prazer ler este texto. Obrigado.