sexta-feira, março 14, 2014

O CALÇADO DO PROVINCIANO



 «Quando ando pelas ruas, as pessoas se parecem com as de Berlim, todas vestidas igual, os rostos mais ou menos os mesmos, a mesma cena, porém numa massa populosa».

Hegel, pela primeira vez em Paris, pouco antes da sua morte, em carta à sua mulher:
Recebeste, na mesma semana,
uma carta em que Deslauriers anunciava que chegaria a Paris,
na quinta-feira seguinte.
Então, atiraste-te violentamente a esta afeição
mais sólida e mais elevada.
Um tal homem valia todas as mulheres.
Já não precisarias de Regimbart, de Pellerin, de Hussonnet, de ninguém!

A fim de melhor alojares o amigo,
compraste uma cama de ferro,
uma outra poltrona,
desdobraste as suas roupas de cama;
e, na quinta-feira de manhã,
vestias-te para ires ao encontro de Deslauriers
quando retiniu a campainha da porta. Arnoux entrou.
— Apenas uma palavra! Ontem, mandaram-me de Genebra uma bela truta;
contamos consigo, logo, às sete em ponto… É na rua de Choiseul, 24 bis. Não se esqueça!

Foste obrigado a sentar-te.
Os joelhos fraquejavam-te.
Repetias para contigo: «Enfim! Enfim!».
Depois escreveste ao alfaiate, ao chapeleiro, ao sapateiro;
e mandaste entregar estes três bilhetes por três moços de recados diferentes.

A chave girou na fechadura
e o porteiro apareceu, com uma mala às costas.
Tu, ao veres Deslauriers, puseste-te a tremer
como uma mulher adúltera sob o olhar do esposo.
— Que é que tens tu, afinal? — disse Deslauriers. — Com certeza recebeste uma carta minha?
Não tiveste forças para mentir.
Abriste os braços e lançaste-te-lhe ao peito.
Em seguida, o praticante narrou a sua história.
O pai quisera prestar contas da tutela,
supondo que essas contas prescreviam em dez anos.
Mas, sabido em processo, Deslauriers havia, por fim,
arrancado toda a herança da mãe,
sete mil francos certos, que tinha ali,
consigo, numa carteira velha.
— É uma reserva, em caso de azar.
Tenho de tratar de coloca-los e de me arrumar, já amanhã de manhã.
Por hoje, férias completas, e todo teu, meu velho!
— Oh!, não te prendas — disseste. — Se tinhas para esta noite
alguma coisa importante…
— Essa agora! Seria um orgulhoso miserável…
Este epíteto, lançado ao acaso, tocou-te em pleno coração,
como uma alusão ultrajante.

O porteiro tinha posto em cima da mesa,
perto da lareira, costeletas, gelatina, uma lagosta,
uma sobremesa, e duas garrafas de vinho de Bordéus.
Uma tão boa recepção comoveu Deslauriers.
— Tratas-me como um rei, palavra de honra!
Falaram do passado, do futuro;
e, de vez em quando, davam-se as mãos por cima da mesa,
encarando-se um minuto com ternura.

Mas um moço de recados trouxe um chapéu novo.
Deslauriers assinalou, em voz alta,
o quanto o forro era brilhante.
Depois, o próprio alfaiate veio entregar a casaca,
passada a ferro.
— Dir-se-ia que te vais casar — disse Deslauriers.
Uma hora mais tarde, apareceu um terceiro indivíduo
e retirou de um enorme saco negro um par de botas de verniz,
esplêndidas. Enquanto as experimentavas,
o sapateiro observava sorrateiramente o calçado do provinciano.
— O senhor não precisa de nada?
— Obrigado — replicou o praticante,
metendo debaixo da cadeira os seus velhos sapatos de cordões.
Esta humilhação incomodou-te.
Hesitavas em fazer a tua confidência.
Por fim, exclamaste, como que tomado por uma ideia:
— Ah!, com mil diabos, já me esquecia!
— Mas que se passa?
— Esta noite, janto na cidade!
— Em casa dos Dambreuse? Por que é que nunca me falas deles nas tuas cartas?

Não era em casa dos Dambreuse, mas em casa dos Arnoux.
— Devias ter-me avisado! — disse Deslauriers. — Teria vindo um dia mais tarde.
— Impossível! — replicaste bruscamente. — Só me convidaram esta manhã,
há bocadinho.

E, para resgatar a tua falta e distraíres o amigo,
desataste as cordas entrelaçadas da mala,
arrumaste na cómoda todas as tuas coisas,
querias dar-lhe a tua própria cama,
dormir no gabinete da lenha.
Depois, a partir das quatro horas,
começaste a fazer os preparativos da sua toilette.
— Tens tempo de sobra! — disse o outro.
Enfim, vestiu-se, partiu.
«Cá estão os ricos!», pensou Deslauriers.
E foi jantar à rua Saint-Jacques, a um pequeno restaurante seu conhecido.
«Walter Benjamin é fascinado pela multidão, pela massa que circula pela Paris do século XIX. Ele encontra, nesse acúmulo de indivíduos, o assassino e o detective, o comerciante esperto que fica aberto até mais tarde e, é claro, encontra também o poeta, que flana pelas ruas de olhos e ouvidos bem abertos, captando a pulsação do anonimato. Benjamin defende a ideia de que não havia nada como Paris.» KFK

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