quarta-feira, fevereiro 21, 2007

FERNANDO, PESSOA-PAVIO


Para que a língua fosse o que é,
fizeram-se vítimas, sacerdotes e loucos dela
os poetas.

Pessoa não casou,
[e mesmo que casasse não teria casado]
não foi gente comum,
mas o incomum dentro da gente,
e a obra que ficou,
estrume que fecunda a língua
- debruçamento em Penélope-novelo,
enrolado, desenrolado, enrolado.

Ao ver-te, Fernando, velho, calvo,
nessas fotos de fim funesto
[fico fulo por te teres finado!],
precoce em tudo,
até na velhice,
afagando a cirrose amiga, mais vinho,
passaporte para o não saber o que vinha,
vejo o que fica de uma vela:
o pavio consumido, grisalho-negro,
fumegante cinza,
extinta a cera,
extinto o ser.

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